Ponte de 25 Abril: 50 anos de existência, 17 anos de comboios

Foi a 06 de Agosto de 1966 que as margens do Tejo finalmente se aproximaram diante da capital, Lisboa. Após quase um século de projetos e hesitações, Lisboa e Almada ficavam ligadas por uma ponte que haveria de mudar por completo a sua envolvente e mesmo o país. O Estado Novo inaugurou a então Ponte Salazar após obras que terminaram seis meses antes do prazo (!!). A ponte abriu apenas com uma valência rodoviária mas foi de origem preparada para instalação do comboio – do lado Sul, ficou concretizado desde essa altura o túnel do Pragal, por onde hoje passam os comboios entre a estação do Pragal e o tabuleiro da ponte.

Comboio de mercadorias Takargo passando pela ponte 25 de Abril.
Comboio de mercadorias Takargo passando pela ponte 25 de Abril.

A história ferroviária desta ponte começou a concretizar-se em 1996 com o reforço da ponte e instalação do tabuleiro ferroviário. Em 1999 pela primeira vez circularam comboios pelo novo traçado, o primeiro troço ferroviário a atravessar o Tejo a sul do Setil. Ficaram célebres as fotografias dos ensaios de carga, estáticos e dinâmicos, com a ponte encerrada ao tráfego rodoviário e o tabuleiro quase nivelado entre os dois pilares, sinónimo da extraordinária carga assente no que foi durante muitos anos o maior vão do mundo: 1012,80 metros entre os dois pilares.

Erguendo-se a 70 metros de altura, esta ponte permite desde 2004 ligar Lisboa e a região a Sul de Setúbal por via ferroviária sem necessidade de atravessamento do Tejo no Setil, perto do Cartaxo. Por ela, além dos mais de 150.000 carros diários, passam ainda mais de 160 comboios por dia, na sua maioria comboios suburbanos da única empresa privada de transporte de passageiros por ferrovia – a Fertagus. Os comboios, operados em unidade simples ou múltipla, oferecem entre 700 e 1400 lugares por circulação. O eixo suburbano Roma-Areeiro – Coina – Setúbal tem-se imposto ao longo dos anos como uma das principais ferramentas de mobilidade do país. Além dos comboios suburbanos, a ponte 25 de Abril contempla diariamente um tráfego de longo curso já consequente: por sentido, dois comboios Alfa Pendular diários entre Porto e Faro, três comboios Intercidades diários entre Lisboa e Faro e 3 a 4 comboios Intercidades diários entre Lisboa e Évora.

As agulhas no viaduto de acesso à ponte de 25 de Abril, na margem Norte.
As agulhas no viaduto de acesso à ponte de 25 de Abril, na margem Norte.

A ponte 25 de Abril e os seus 2.277 metros de extensão entre as amarrações Norte e Sul apresentam fortes constrangimentos à circulação ferroviária. A velocidade máxima é de apenas 70 km/h nos viadutos de acesso do lado Norte e de 60 km/h em cima do tabuleiro. O tabuleiro é, ele mesmo, uma das maiores rampas da rede ferroviária nacional, devido à sua flecha habitual. Maior ainda é a rampa nos acessos Norte, obrigando a fortes restrições de carga rebocável: uma locomotiva CP 4700 (6.400 cavalos de potência) apenas pode rebocar 990 toneladas enquanto que as locomotivas Takargo 6000 (maior capacidade de tracção do país) atingem as 1.180 toneladas.

Além das muitas curiosidades que os números desta ponte impressionante exibem, a circulação ferroviária não é menos interessante. Foi construída uma estação técnica no acesso Norte, chamada Alvito-A. Sem serviço de passageiros (já houve vários projetos para a potenciar), a estação serve como potencial de capacidade para gestão dos fluxos ferroviários que atravessam a ponte. Entre uma amarração e a outra, apenas pode circular um comboio de cada vez, por sentido – o tabuleiro é um cantão único. Isto vale para comboios até 760 toneladas se forem formados por automotoras ou 695 toneladas se forem formados por locomotivas e carruagens / vagões – pode circular um comboio em cada via, até 60 km/h.

Comboio Fertagus (série 3500) passando no tabuleiro ferroviário, onde é bem visível a rampa.
Comboio Fertagus (série 3500) passando no tabuleiro ferroviário, onde é bem visível a rampa.

Se os comboios excederem os limites do parágrafo anterior, podem fazê-lo até 1.408 toneladas e apenas se a relação “peso por metro linear” x “comprimento do material rebocado” for inferior a 1162,8 toneladas. Neste caso, apenas pode circular um comboio pelo tabuleiro (ou seja, uma das linhas ficará interdita à circulação) e a 40 km/h. Tudo isto é gerido pela sinalização sofisticada existente para controlar o tráfego pela ponte 25 de Abril – e por aqui se explica a importância de Alvito-A, importante para possíveis tempos de espera de comboios antes de acederem ao tabuleiro. Do lado Sul, pela proximidade, a estação do Pragal assume esta função.

Para simplificação da gestão operacional, no caso dos comboios de passageiros com recurso a locomotivas e carruagens é considerado comboio ligeiro um comboio formado por locomotiva e até 7 carruagens, ao passo que um comboio pesado situa-se na franja entre as 8 e as 16 carruagens, o máximo permitido. Após a inauguração da ligação Lisboa – Algarve era frequente, sobretudo no Verão, alguns comboios de passageiros terem esta classificação e por isso passarem na ponte 25 de Abril sujeitos às maiores restrições operacionais. Com o aumento de frequências do serviço Alfa, esta realidade praticamente desapareceu.

Além da saturação da linha especialmente entre Campolide e Coina, também as fortes restrições de carga desmobilizam as empresas de transporte de mercadorias de utilizar frequentemente este eixo. Mesmo comboios como Bobadela – Setúbal, que via ponte 25 de Abril percorreriam pouco mais de 70 quilómetros, são enviados via Setil, percorrendo praticamente 200 quilómetros – isto acontece pois via Setil um comboio rebocado por uma locomotiva 4700 pode pesar até 1.300 toneladas. Com duas pode mesmo duplicar a sua composição, ao passo que pela 25 de Abril nunca poderia ultrapassar as 1.408 toneladas. No entanto, existem ainda alguns tráfegos, sobretudo vazios, que passam pela ponte. Comboios como Alverca – Barreiro para transporte de amoníaco (quando carregado, o comboio vai via Poceirão e Setil) ou comboios vazios de madeira da Takargo entre Setúbal e o Norte do país fazem parte da folha de serviços da ponte desde a sua inauguração.

Por baixo da 25 de Abril corre a linha de Cascais. É o único cruzamento desnivelado de diferentes linhas ferroviárias no nosso país.
Por baixo da 25 de Abril corre a linha de Cascais. É o único cruzamento desnivelado de diferentes linhas ferroviárias no nosso país.

Mais excepcional foi a passagem de comboios carregados. Regulares apenas houve os do efémero tráfego de clínquer e petcoke da Takargo, entre as cimenteiras da Martingança e Pataias e o terminal portuário de Setúbal. Além destes, a circulação de outros comboios carregados apenas se deu devido a incidências de tráfego – interdição da linha via Poceirão e Setil, fosse por obras ou acidente. Com essa causa, já passaram pela ponte 25 de Abril comboios de carvão de Sines para a central do Pego (comboios de 2.000 toneladas, que passaram a ponte divididos em duas partes) ou comboios de contentores de e para o Terminal XXI, em Sines.

Nenhum veículo ferroviário que exceda as 20,4 toneladas por rodado pode circular pela ponte 25 de Abril, com exceção das locomotivas CP 4700, CP 5600 e Takargo 6000, autorizadas excecionalmente a passar neste troço. Por exemplo as locomotivas 5600 atingem 22,5 toneladas por rodado (90 toneladas, 4 rodados), o máximo permitido na restante rede ferroviária. Como as locomotivas têm sempre um peso por rodado muito superior ao material rebocado, a circulação em unidade múltipla é apenas autorizada até duas locomotivas. Caso um comboio nessas circunstâncias avarie, o seu socorro apenas poderá ser dado pela cauda, para evitar reunir três locomotivas.

Estas limitações foram devidamente testadas antes da inauguração da ponte, tendo os ensaios decorrido com interdição do trânsito rodoviário. Duas locomotivas da série 1900, uma das quais a 1909, rebocaram cada uma 14 vagões-tremonha duplos de tipo Us, elevando a carga total em cima da ponte para mais de 2.400 toneladas – praticamente o dobro da carga máxima autorizada quoditianamente.

A locomotiva de reserva em Campolide vai sendo trocada a intervalos regulares, mas é sempre da série 1900 ou 1930. Note-se o engate automático.

Devido à criticidade muito particular da ponte foi criado desde a origem um comboio socorro estacionado na estação de Campolide e guarnecido 24 horas por dia. Além de furgões especialmente equipados para fazer face a incidências de exploração (e que estão aliás afectos a essa missão para toda a região Sul e não apenas a ponte), está ainda presente uma locomotiva diesel preparada para os socorros que possam ser necessários a composições avariadas ou em caso de falta de energia na catenária. A locomotiva de duas cabines (para potenciar visibilidade máxima da equipa de condução) pertence à série 1900/1930 da CP, com 3.000 cavalos de potência. Num dos lados está equipado com engates de tensor UIC (os utilizados nas composições de locomotiva e carruagens/vagões) e no outro lado com um engate automático de tipo Scharfenberg, utilizado nas automotoras elétricas como as séries 2300 da CP ou 3500 da Fertagus. Se o socorro a prestar necessitar de uma diferente orientação da locomotiva (pois cada lado da mesma tem um tipo de engate diferente), o triângulo das linhas entre Campolide, Benfica e Sete Rios é utilizado para a inverter.

Na entrada Norte do tabuleiro existem ainda agulhas que permitem a mudança dos comboios de uma linha para a outra, em caso de necessidade. A via férrea eletrificada que passa na ponte 25 de Abril é alimentada pela subestação de tracção elétrica do Fogueteiro, obrigando a uma zona neutra de separação entre zonas de diferentes subestações entre Campolide e Alvito-A, já que no troço lisboeta a alimentação é fornecida pela subestação da Amadora.

Após 50 anos de serviço rodoviário e 17 de serviço ferroviário a ponte 25 de Abril continua a ser a maior porta de entrada e saída de Lisboa rumo a Sul. De há largos existes um projeto para construção de uma nova ponte entre Chelas e Barreiro, cancelado há quase dez anos. A nova ponte iria permitir atravessar o Tejo em condições de exploração equiparáveis a troços ditos normais da rede ferroviária nacional, tanto em termos de rampas, como de cargas admissíveis e até velocidade. A saturação da ponte 25 de Abril, comum aos dois modos de transporte que por ali operam, permanece por isso um tópico sem resolução.

Parabéns à ponte mais impressionante do nosso país.

25abril

2 thoughts on “Ponte de 25 Abril: 50 anos de existência, 17 anos de comboios

  • 6 Agosto, 2016 at 11:00
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    “Por baixo da 25 de Abril corre a linha de Cascais. É o único cruzamento desnivelado de diferentes linhas ferroviárias no nosso país.”

    No Norte temos a Linha de Leixões que cruzava a linha de Guimaraes na zona do Apeadeiro de Araujo, ainda se mantem mas como linha do metro do porto

  • 6 Agosto, 2016 at 11:04
    Permalink

    Falta mencionar o cruzamento com a linha da povoa na zona de guifoes

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