pedroandre 30/10/2018

No dia 12 de Janeiro de 2018 o ministro do Planeamento e das Infra-estruturas, Pedro Marques, aquando da visita ao Algarve referiu o seguinte: ” A electrificação do resto da linha do Algarve está ainda em fase de projecto, mas temos a expectativa de, ainda em 2018, termos os primeiros concursos de obra cá fora, para ter tudo concluído até ao final de 2020 “.

Estamos a 60 dias do fim de 2018 e como sempre os prazos de execução deste tipo de obras nunca é cumprido, e por isso lanço uma questão.Porque é que o Algarve aparece sempre no fim da lista quando é para investir na ferrovia? Por tudo o que rodeia a Linha do Algarve esta devia ser por norma uma das principais contempladas no que toca a ver a infra-estrutura ainda mais melhorada e o serviço comercial oferecido devia há já muito tempo ter uma qualidade superior no que toca aos comboios regionais.Nos últimos anos o governo tem andado entretido com anúncios de electrificação de linhas, desde Minho e Douro até ao Algarve passando pelo Oeste, no entanto de concreto pouco ou nada se tem visto. Mais uma vez neste processo a Linha do Algarve ficou quase para o fim e sem se entender muito bem porquê.

Para quem não sabe a linha tem uma extensão total de 139 quilómetros entre Lagos e Vila Real de Santo António sendo que os 38 quilómetros entre Tunes (ligação à Linha do Sul) e a cidade de Faro estão já electrificados desde meados de 2004, restando assim cerca de 100 quilómetros onde a CP não tem outra opção que não a utilização de material a diesel. A parte mais cómica destes 99 quilómetros é que estão divididos em duas zonas completamente distintas! São 45 quilómetros entre Tunes e Lagos e 55 quilómetros entre Faro e Vila Real de Santo António que nunca foram alvo de electrificação e que estão situados em cada extremo da linha criando assim “duas ilhas” no que toca à rede ferroviária. Passaram se já 14 anos desde que os comboios eléctricos chegaram ao Algarve e esta situação continua por resolver.

O Algarve foi alvo de algum investimento nos últimos 5 anos e não há como negar isso. A linha conta hoje com travessas de betão que abrangem a totalidade da via tendo dessa maneira a empresa substituído as já antigas travessas de madeira, tal como os carris que hoje são de barra longa soldada ao invés do que havia anteriormente. Infelizmente até aqui se conseguiu arranjar maneira de deixar o trabalho incompleto e não faz qualquer sentido que estações como Portimão, Silves ou Vila Real de Santo António tenham sido “modernizadas” com recurso a travessas usadas de betão bi-bloco e não tenham desde logo sido colocadas travessas de betão bi-bitola, mas não me posso queixar muito quando em plena linha do Norte existem ainda travessas de madeira.

Em termos de sinalização o investimento em sinalização e automatização dos sistemas levou a que o cantonamento telefónico deixasse de ser utilizado entre Faro e Vila Real de Santo António.Também as plataformas das estações e apeadeiros existentes entre Faro e Vila Real de Santo António e entre Tunes e Lagos foram alvo de intervenção sendo que a maioria já cumpre agora os parâmetros normais da rede ferroviária nacional se bem que não se entende algumas das más opções feitas. Temos o caso flagrante do apeadeiro da Conceição onde a mini plataforma mal dá para uma UDD 0450 quanto mais irá dar para uma futura UTE, e vamos a ver se em estações como Tavira ou Olhão o comprimento das plataformas será suficiente para que num futuro que se quer próximo haja capacidade para servir composições Intercidades de locomotiva e carruagem.

Ao contrário do Douro, onde a electrificação “morreu” à entrada do túnel de Caíde, do Oeste que ainda nem passou do papel onde existem vários túneis e pontes, ou do Minho onde as obras se arrastam por vários troços e onde os túneis e pontes vão colocar alguns problemas à colocação da catenária, o Algarve não sofre desses problemas. Não existe um único túnel e a única ponte que poderá ser mais problemática é a do Arade junto da cidade de Portimão tendo em conta que o fio da catenária terá de passar pelo interior da mesma.

Se para o Minho ou Oeste há a possibilidade de se construírem estações técnicas ou variantes, no Algarve o traçado da linha será exactamente o mesmo que existe há 100 anos e daí que a colocação de postes e de catenária seja de todas as linhas previstas no plano de electrificação, aquela que se afigura mais simples. Em termos leigos seria necessário apenas espalhar postes ao longo da linha e esticar o fio.

Se para o troço Faro – Vila Real de Santo António será necessário construir uma subestação sensivelmente a meio que permita alimentar a catenária e permitir a circulação de comboios eléctricos tendo em conta a distância a que está colocada a subestação de Tunes, para o troço entre Tunes e Lagos esse problema não se coloca já que o aumento de potência ira permitir electrificar os 45 quilómetros existentes.

Como é do conhecimento geral o serviço regional no Algarve é feito com recurso às velhas 0450s que pouco mais fazem do que se arrastarem ao longo dos quilómetros algarvios, e o esperado colapso aconteceu.

Não há como negar, o serviço regional morre a cada dia que passa e o governo actual assobia para o lado como se não tivesse culpas no cartório quando na verdade a culpa do que se passa neste momento é apenas e só dele. É altura de deixar de atribuir as culpas ao governo anterior quando este já está em funções desde o dia 25 de Novembro de 2015 quando tomou posse. Passaram se cerca de 3 anos, qualquer coisa como 1065 dias e a situação está bem pior do que estava.

 por demais evidente que o Algarve sempre levou com os restos das frotas a diesel que iam sendo “abatidas” noutras zonas do país. Aconteceu com as locomotivas da série 1200 e das carruagens,aconteceu depois com as automotoras da série 0600/0650 que vieram do Douro, Minho e Oeste e aconteceu mais recentemente com as automotoras da série 0450 que vieram escorraçadas do Douro e Minho.

A manutenção destas unidades é hoje um exemplo de gestão ridícula.As automotoras estão em tão mau estado que as oficinas da EMEF de Vila Real de Santo António já não conseguem dar conta do recado. É normal que estas unidades estejam espalhadas pelas oficinas do Barreiro (Alentejo), Santa Apolónia (Lisboa) ou Contumil (Porto) à espera de reparações que consigam prolongar a vida deste material que há muito devia fazer parte do museu. As centenas de milhares de euros que já se gastaram em material que já devia estar abatido podia e devia ter sido investido na aquisição de material novo, ou como aconteceu no norte do país, no aluguer de automotoras que viessem minimizar o problema.Mais uma vez, e segundo o que se conseguiu apurar, a Linha do Oeste vai receber automotoras do norte do país para fazer face às dificuldades existentes, e mais uma vez o Algarve vai ficar a a (des)esperar por um milagre que tarda em acontecer.

Os poderes locais, como Autarquias e Juntas de Freguesia, mas também a própria Região Turismo do Algarve ou a ACRAL (Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve) e a AIHSA (Associação dos Industriais Hoteleiros e Similares do Algarve) não tomam uma posição de força de modo a resolver de uma vez por todas uma situação que é completamente insustentável. Da parte dos meios de comunicação do Algarve, jornais e rádios, tarda também em haver vontade de trazer este problema para as primeiras páginas, lançando de uma vez por todas uma discussão séria sobre o futuro da ferrovia no Algarve. Os partidos políticos, da esquerda à direita, assobiam para o lado na maior parte das vezes como se fossem isentos de culpa.Se são eleitos (ou querem vir a ser) pelo povo, então que trabalhem e resolvam os problemas do povo.

Nos dias de hoje é uma autêntica vergonha, motivo até de gozo e de piadas, quando turistas estrangeiros chegam de Lisboa em comboios Intercidades ou Alfa Pendulares e têm de mudar para umas automotoras todas sujas no exterior, velhas, fumarentas e desconfortáveis para chegarem a locais turísticos como Portimão, Lagos ou Vila Real de Santo António.

Falamos de uma linha que transportou em 2017 nos vários serviços regionais mais de 438 000 passageiros entre Vila Real de Santo António e Lagos, sendo uma das mais rentáveis de todo o serviço regional em Portugal !!!!

O Algarve contribui com mais de 4,5 % do PIB de Portugal, segundo dados de 2017, é inadmissível que continue a ser tão desprezado pelo poder central com a conveniência do poder local. Se a solução é privatizar para ter um serviço ferroviário digno, então que se privatize e se acabe de uma vez por todas com esta vergonha.

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