2020, o fim da esperança

2020, o fim da esperança

24/02/2020 2 Por trainmaniac

Demasiados anos e demasiados erros culminam numa espécie de tudo ou nada que, para já, parece vir a saldar-se num nada.

Num país com dramáticas dificuldades políticas para priorizar investimento público, muito menos rentável eleitoralmente do que a distribuição de benesses pela crescente fatia de dependentes do orçamento de Estado, os poucos investimentos que tendem a avançar são quase sempre coxos, mal preparados e, ainda mais, mal enquadrados. 2020 arrancou há pouco e parece ser o ano da confirmação de alguns erros históricos, vários dos quais sem paralelo na restante história democrática portuguesa e que não parecem ter encontrado capacidade política suficiente para serem revertidos.

Os erros mais clamorosos

Em 2020, vão-se confirmar alguns dos erros mais espectaculares do transporte ferroviário em Portugal e, mais genericamente, da política de transportes e território. Curiosamente, numa fase em que se promete mais do que nunca que o comboio é o futuro (e que se vai manter no centro das cidades) e em que quase todos os políticos põem uma braçadeira verde à volta do braço, procurando conquistar as boas graças de meia dúzia de heróis de barro promovidos mundialmente por uma imprensa ávida de heróis (e heroínas) e cada vez mais preguiçosa para tratar e filtrar até os temas da ciência.

Aeroporto do Montijo – o pai de todos os erros. Um aeroporto no meio do Tejo, numa zona de risco ambiental evidente, que avança sem avaliação ambiental estratégica e que pereniza o aeroporto da Portela, que verá duplicar o seu movimento sem um simples estudo de impacte ambiental. Um erro crasso que penhora o futuro do país, apenas porque os políticos não querem salvar a face depois de terem afundado o país ao ponto de terem de vender a ANA com este tipo de erros previstos no contrato. A força dos políticos ficou-se pelas palavras. No fim, até temos este fantástico bónus de ser um aeroporto novo e sem transporte ferroviário. Certamente em nome da capital verde europeia.

Ramal da Lousã – Era para ser um metro, que imitaria o erro perfeitamente saloio que foi feito na Póvoa de Varzim. No final, tomem lá uns autocarros estilizados num canal montanhoso e com apenas uma via, e é se querem. Coimbra, cidade fantasma e cada vez mais fantasmagórica, promove e festeja este festival em honra de Frankenstein. Na Suíça os comboios atravessam com mercadorias cidades de meia em meia hora, mas cá, onde queremos dar as cidades às pessoas e travar o carro, há que retirar uma via onde passa um comboio por hora ao longo de um quilómetro porque corta a cidade. Os autocarros farão um tempo de viagem superior às velhas e esgotadíssimas automotoras diesel que ali andaram até 2009. Um erro destes é difícil de conceber, mas ele aí está com honras de apresentações públicas a que não falta o croquete da praxe.

Metro de Lisboa – a cidade quer retirar os carros e tem falta de transportes, por isso era fundamental meter 200 milhões num troço de 2 quilómetros que nem sequer aproveita a quem quer deixar o carro em casa antes de entrar na capital. Para quê pensar em projectos com um terço do investimento para integrar a linha de Cascais no resto da rede suburbana, quando até foi há anos identificado como o projecto com maior potencial para ganhar quota modal ao carro. Os greenwashers de serviço vão continuar a garantir-nos que a ideia é maximizar a saída dos carros de Lisboa, possivelmente quererão sujeitar-nos a algum tipo de tortura, apenas.

Os outros erros

2020 vai ainda sublinhar vários outros erros:

Linha da Beira Alta – o projecto do Ferrovia 2020 não previa correcções de traçado porque ia ser feita uma linha nova ao lado. A linha entretanto não se faz (nem fará), mas também não se alteram as intenções para esta linha. Em 2020, Portugal continuará a adjudicar renovações que já envergonhariam se o Estado Novo as tivesse decidido em 1960. Que bom é demorar 4 horas de Lisboa à Guarda!

Linha do Minho – A electrificação da linha do Minho, um caganito de 80 quilómetros com 2 ou 3 túneis raquíticos, já vai para quatro anos. A velocidade nem aumenta e até diminui, as rampas ficam igualmente penalizantes e a obra prolonga-se merecendo o carimbo de “obra de especial complexidade”. Será até inaugurada a “renovação” com a luxuosa sinalização manual de origem! No mesmo tempo, a Suíça escavou o novo túnel de Albula, com 7 ou 8 quilómetros, a 2.000 metros de altitude. Têm a sorte de só lhes calharem obras fáceis.

Linha do Vouga – Toda a gente comenta no sector e poucos têm a coragem de assumir que para a linha do Vouga os maiores interessados em nada fazer são os próprios donos da infraestrutura. Em vez de fazer o lógico e integrar o troço Norte nos suburbanos do Porto, rebitolado, o gestor de infraestruturas vende uma lunática electrificação e manutenção da bitola métrica, com novo transbordo para a linha do Norte em Silvalde – essa metrópole – ou até mesmo com um metrobus (a sério?) para levar as pessoas até ao centro de Espinho. Há quem ache que estas posições não são suficientes para cessar mandatos, mas não serei certamente eu.

Linha do Oeste – só há 60 anos é que sabemos que a linha do Oeste, entre Torres Vedras e Lisboa, não só não serve ninguém como compromete todo o interesse da restante linha. Mas como somos um país muito preocupado com a ferrovia e com o seu papel para nos salvar das alterações climáticas, vamos mesmo fazer obras e manter esse troço tal como está – só que electrificado. A IP jura que o número de passageiros vai explodir (eu aposto que pouco vão aumentar) e que vai ligar Lisboa às Caldas em 90 minutos – o que é um péssimo tempo e que, mesmo assim, não vai ser alcançado. Está aqui a minha aposta.

No fim disto tudo, desenha-se o quadro para 2030, onde com uma honrosa excepção creio que estarão mais intervenções deste tipo – inúteis, sem corrigirem os traçados onde interessam e mais preocupados em espalhar intervenções do que em espalharem benefícios.

Vamos continuar a pedinchice na União Europeia, que terá um orçamento mais curto, evitando recorrer ao orçamento de Estado para os investimentos que em princípio os nossos impostos deviam financiar. A ideia de que a UE tem de pagar até novas frotas para a CP devia fazer-nos corar de vergonha em vez de nos motivar a tentar mais vezes. Se uma operação não paga sequer os seus comboios (e até é subsidiada para isso), o que raio queremos atingir com o meio ferroviário? Para brincar, chegam as maquetes.

O Ferrovia 2020 é já um dos menores esforços orçamentais da nossa história para o meio ferroviário – pouco mais de 1.200 a 1.500 milhões serão executados, dos quais mais de 70% de origem europeia, ao longo de dez anos. É um dos esforços orçamentais mais patéticos da história que, estou certo, marcará a tendência para uma nova década igualmente deprimente e que continuará a fazer o que as últimas décadas fizeram ao meio ferroviário – reforçá-lo como o parente pobre do (sub-)desenvolvimento nacional, condenando-o a uma agonia absoluta enquanto pelas páginas de jornais se vende a ideia da grande aposta nacional.

Ou muito me espantarei em 2020 ou ele será, para mim, o fim da esperança. Parece-me que não haverá retorno depois desta oportunidade histórica que se perdeu.