{"id":180,"date":"2018-07-26T12:55:49","date_gmt":"2018-07-26T11:55:49","guid":{"rendered":"http:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/?p=180"},"modified":"2024-01-16T10:02:29","modified_gmt":"2024-01-16T09:02:29","slug":"manutencao-ferroviaria-como-arma-politica-cuidado-com-isso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/2018\/07\/26\/manutencao-ferroviaria-como-arma-politica-cuidado-com-isso\/","title":{"rendered":"Manuten\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria como arma pol\u00edtica? Cuidado com isso"},"content":{"rendered":"<p>De certa forma era expect\u00e1vel que a politiquice de bancada trouxesse a sua arte tamb\u00e9m para a discuss\u00e3o ferrovi\u00e1ria. Ainda nenhum partido com representa\u00e7\u00e3o na AR trouxe factos concretos para discutir porque, naturalmente, est\u00e3o mais preocupados em passa-culpas e spinning partid\u00e1rio que sempre nos empobrece, como nos empobrecem todas as ac\u00e7\u00f5es sect\u00e1rias.<\/p>\n<p>Naturalmente que fica especialmente mal na fotografia quem agora ensaia desculpas para as suas ac\u00e7\u00f5es e omiss\u00f5es presentes pois se h\u00e1 terreno de actualidade \u00e9 o da manuten\u00e7\u00e3o. E explicarei porqu\u00ea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Manuten\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria, regula\u00e7\u00e3o de ponta<\/strong><\/p>\n<p>Manter um comboio n\u00e3o \u00e9 como manter um autocarro mas muito mais como manter um avi\u00e3o. Ter\u00e1 de haver uma entidade certificada (como a EMEF) a assegurar que os ve\u00edculos re\u00fanem as condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a para que foram homologados. Essa certifica\u00e7\u00e3o depende desde logo e sobretudo do cumprimento de um plano de manuten\u00e7\u00e3o, que \u00e9 parte integrante da pr\u00f3pria homologa\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo, e de que \u00e9 preciso fazer prova. O comboio pode estar excelente mas se falhou uma etapa do plano deixa de poder circular, <em>tout court<\/em>.<\/p>\n<p>Os planos de manuten\u00e7\u00e3o est\u00e3o organizados numa l\u00f3gica de visitas di\u00e1rias, semanais e outras, sendo estas \u00faltimas habitualmente dependentes de n\u00ba de horas de funcionamento ou quil\u00f3metros feitos, em fun\u00e7\u00e3o de an\u00e1lises de risco e garantias que d\u00eaem os diversos componentes a serem tratados periodicamente.<\/p>\n<p>Por exemplo, h\u00e1 poucos anos atr\u00e1s, uma automotora da linha de Sintra est\u00e1 obrigada a verifica\u00e7\u00f5es a cada 20.000 km e depois a cada 40.000, 200.000 e de seguida 600.000, 1.200.000 e 2.400.000 quil\u00f3metros, estas tr\u00eas \u00faltimas j\u00e1 prevendo desmontagem total ou quase total e substitui\u00e7\u00e3o de componentes, tudo isto al\u00e9m de inspec\u00e7\u00f5es de servi\u00e7o di\u00e1rias. Cada unidade cumpre cerca de 10.000 km\/m\u00eas, pelo que se pode desde logo ter no\u00e7\u00e3o da periodicidade das v\u00e1rias etapas.<\/p>\n<p>Sendo um processo em cont\u00ednuo, nenhuma falha de manuten\u00e7\u00e3o hoje pode ser desculpada com manuten\u00e7\u00e3o por fazer no passado &#8211; um comboio que tivesse ficado sem manuten\u00e7\u00e3o adequada em 2014 por exemplo teria parado no limite ao fim de alguns meses, nunca anos. \u00c9 por isso factualmente indesculp\u00e1vel o argumento que as bancadas do governo (BE e PCP inclu\u00eddos) d\u00e3o de que uma eventual pior manuten\u00e7\u00e3o no passado provocaria hoje paragens. Tamb\u00e9m \u00e9 falso que esta situa\u00e7\u00e3o possa por si s\u00f3 demorar muito a resolver &#8211; assim que as manuten\u00e7\u00f5es do ciclo de manuten\u00e7\u00e3o homologadas forem realizadas, o comboio regressa \u00e0 via. Por exemplo a revis\u00e3o dos 600.000 quil\u00f3metros demora 15 dias e as de maior frequ\u00eancia andam entre 4 horas e 2 dias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um pouco de hist\u00f3ria recente<\/strong><\/p>\n<p>No per\u00edodo da troika houve uma redu\u00e7\u00e3o das verbas para manuten\u00e7\u00e3o (note-se que muitas das verbas s\u00e3o classificadas como investimento e al\u00e9m das interven\u00e7\u00f5es ainda h\u00e1 compras de pe\u00e7as de parque &#8211; umas pela CP, outras pela EMEF, dependendo da criticidade). Isso provocou que a CP reduzisse ao m\u00e1ximo a frota dispon\u00edvel para a oferta que tinha (que \u00e9 similar \u00e0 actual, antes da redu\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo 5 de Agosto).<\/p>\n<p>Houve uma crise de disponibilidade de material na linha de Sintra, uma vez que houve um fen\u00f3meno de desgaste acelerado de rodados e durante alguns meses acumularam-se unidades paradas at\u00e9 finalmente serem adquiridos os rodados. Houve algumas supress\u00f5es mas fundamentalmente a situa\u00e7\u00e3o foi ultrapassada com redu\u00e7\u00e3o do tamanho das composi\u00e7\u00f5es (em vez de 2 automotoras por comboio, v\u00e1rios com 1) o que, num cen\u00e1rio de depress\u00e3o econ\u00f3mica e antes do boom do turismo, passou relativamente bem, pelo menos se a compara\u00e7\u00e3o for o cen\u00e1rio actual.<\/p>\n<p>Tirando isso, a frota foi estando dispon\u00edvel com uma excep\u00e7\u00e3o &#8211; a insufici\u00eancia de unidades para os regionais em linhas n\u00e3o eletrificadas. A esse prop\u00f3sito na renegocia\u00e7\u00e3o do contrato de aluguer com a Renfe em 2014 a CP acordou a expans\u00e3o de 17 para 22 unidades alugadas e colocou em servi\u00e7o locomotivas diesel e furg\u00f5es-gerador, capazes de alimentar electricamente as carruagens do servi\u00e7o Intercidades que desde ent\u00e3o t\u00eam suprido faltas pontuais nas linhas do Minho e Douro.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o foi bastante tensa mas a opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o quebrou. E como dito no cap\u00edtulo anterior, daqui n\u00e3o resultava nenhuma responsabilidade acrescida para o futuro, seria sempre s\u00f3 manter.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Situa\u00e7\u00e3o atual<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m do pressuposto de manter o parque em funcionalmento, o anterior presidente da CP alertou muitas vezes que a empresa precisava de alugar material para no imediato acorrer ao aumento da procura, sobretudo no Longo Curso. Estava ele longe de saber que al\u00e9m de n\u00e3o poder crescer os meios ainda iriam determinar um decr\u00e9scimo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desta quest\u00e3o, a pr\u00f3pria sustentabilidade da opera\u00e7\u00e3o era duvidosa e <a href=\"http:\/\/portugalferroviario.net\/wordpress\/2016\/04\/29\/a-problematica-do-aumento-da-frota-de-longo-curso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">eu pr\u00f3prio em 2016 levantava algumas quest\u00f5es a carecerem de resolu\u00e7\u00e3o imediata<\/a>. E nada disto presumia que a manuten\u00e7\u00e3o fosse limitada por compara\u00e7\u00e3o a anos anteriores ou que as necessidades crescentes de pessoal nas oficinas n\u00e3o fosse compensada &#8211; isto porque a lei das carreiras longas afectou especialmente a EMEF, de onde t\u00eam sa\u00eddo muitos oper\u00e1rios, pois a gera\u00e7\u00e3o que se est\u00e1 a reformar come\u00e7ava muitas vezes a trabalhar como aprendiz nos caminhos de ferro desde tenra idade. Toda a gente sabia disto.<\/p>\n<p>Portanto se uma situa\u00e7\u00e3o que em 2016 necessitava j\u00e1 de a\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas para expandir a frota &#8211; trazendo mais comboios em aluguer (solu\u00e7\u00e3o que produz efeitos em 2 ou 3 meses), ampliando capacidade oficinal &#8211; foi ainda prejudicada pelo cancelamento dos planos para aluguer, pela n\u00e3o execu\u00e7\u00e3o de investimento em equipamentos (rodados, mas tamb\u00e9m outros componentes de grande import\u00e2ncia e valor) e finalmente por uma acelerada sa\u00edda de capital humano da EMEF, que recebeu apenas 50 pessoas em 2017, muito longe das necessidades de pessoal que existem s\u00f3 com a aprova\u00e7\u00e3o da lei das carreiras longas.<\/p>\n<p>Como \u00e9 natural tudo isto s\u00f3 podia terminar assim. Comboios parados nas oficinas, equipamentos que n\u00e3o se compram para terminar as revis\u00f5es, tudo bloqueado. Dou um exemplo &#8211; est\u00e1 na oficina do Barreiro a locomotiva diesel 1453, da s\u00e9rie das que circulam no Douro com os comboios hist\u00f3ricos e que ajudam a compensar alguma falha das automotoras. S\u00f3 h\u00e1 3 em servi\u00e7o (1413, 1415 e 1424) e uma delas (1424) h\u00e1 muito que j\u00e1 devia ter parado para uma revis\u00e3o geral. T\u00eam sido feitas pequenas interven\u00e7\u00f5es para assegurar que continua a andar antes de parar para a revis\u00e3o, tentando n\u00e3o comprometer o essencial do plano de manuten\u00e7\u00e3o, e ela \u00e9 dedicada a tarefas de fraco alcance quilom\u00e9trico, para evitar desgaste. Isto porque a 1453 est\u00e1 no Barreiro h\u00e1 quase um ano (ou se calhar j\u00e1 passou mesmo um ano!) pois por falta de pessoal a sua revis\u00e3o geral tem-se demorado (devia demorar, no m\u00e1ximo dos m\u00e1ximos, 2 meses).<\/p>\n<p>Agora imaginem isto repartido pelas muitas s\u00e9ries de material circulante, pelos muitos tipos de interven\u00e7\u00e3o a realizar com periodicidades diferentes, etc., etc. E somem-lhe ainda casos como a falta de rodados ou dificuldade de comprar sobressalentes para substituir componentes avariados, e imaginem o evidente caldo que aqui est\u00e1.<\/p>\n<p>Nem para o aumento da frota \u00e9 preciso esperar anos. \u00c9 esquisito que essa desculpa seja dada por quem anda h\u00e1 2 anos a dizer que quer comprar precisamente porque demora e 2 anos volvidos nem concursos tenha em vias de lan\u00e7amento (ou seja, com datas). Mas mesmo para o aumento, tendo n\u00f3s a sorte da Renfe comprar demasiado material de que n\u00e3o precisa, temos imensas solu\u00e7\u00f5es para aluguer em Espanha. H\u00e1 a prever apenas a adapta\u00e7\u00e3o com instala\u00e7\u00e3o de sistemas de seguran\u00e7a (comunica\u00e7\u00f5es e controlo de velocidade), homologa\u00e7\u00e3o em Portugal e forma\u00e7\u00e3o do pessoal. A \u00faltima s\u00e9rie que recebemos (592.2, suced\u00e2neos dos 592 que vieram em 2011) demorou 2 ou 3 meses a autorizar e at\u00e9 j\u00e1 tivemos o caso de uma composi\u00e7\u00e3o rebocada (Talgo VII) que em 2014 com a press\u00e3o da final da Liga dos Campe\u00f5es foi autorizada a servi\u00e7o numa quest\u00e3o de dias e com apenas uma marcha de ensaio. A s\u00e9rio que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>O spinning tenta dizer-nos que nada se resolve em dias, mas \u00e9 importante que fique reconhecido que na manuten\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 heran\u00e7as t\u00e3o duradouras nem solu\u00e7\u00f5es que tanto tardem. Se houverem recursos financeiros e as necess\u00e1rias autoriza\u00e7\u00f5es, os comboios ser\u00e3o reparados e voltar\u00e3o ao servi\u00e7o. \u00c9 t\u00e3o simples quanto isso.<\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade que para resolver problemas de competitividade da rede ferrovi\u00e1ria ser\u00e3o precisos muitos anos se come\u00e7armos agora (e ainda n\u00e3o come\u00e7\u00e1mos, o Ferrovias 2020 \u00e9 muito insuficiente), o colapso operacional da CP \u00e9 \u00fanica e exclusivamente fruto das restri\u00e7\u00f5es existentes nos \u00faltimos 18 a 24 meses. N\u00e3o existe tal coisa como manuten\u00e7\u00f5es em atraso para comboios ao servi\u00e7o. Esque\u00e7am isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De certa forma era expect\u00e1vel que a politiquice de bancada trouxesse a sua arte tamb\u00e9m para a discuss\u00e3o ferrovi\u00e1ria. Ainda nenhum partido com representa\u00e7\u00e3o na AR trouxe factos concretos para discutir porque, naturalmente, est\u00e3o mais preocupados em passa-culpas e spinning partid\u00e1rio que sempre nos empobrece, como nos empobrecem todas as ac\u00e7\u00f5es sect\u00e1rias. 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