{"id":227,"date":"2019-07-15T19:37:34","date_gmt":"2019-07-15T18:37:34","guid":{"rendered":"http:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/?p=227"},"modified":"2024-01-16T10:01:14","modified_gmt":"2024-01-16T09:01:14","slug":"menos-projectos-maiores-projectos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/2019\/07\/15\/menos-projectos-maiores-projectos\/","title":{"rendered":"Menos projectos, maiores projectos"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos primeiros anos da ditadura franquista, Espanha actuou em v\u00e1rios eixos que considerava de insuficiente performance &#8211; tinham demasiadas curvas, demasiadas rampas ou tra\u00e7ados simplesmente pouco directos. Foi assim que nasceu o &#8220;Directo da Galiza&#8221;, com mil e um t\u00faneis entre Zamora e Ourense, ali bem perto de Bragan\u00e7a, o &#8220;Directo de Valencia&#8221; ou o &#8220;Directo de Burgos&#8221;, todos apresentando tra\u00e7ados mais rectil\u00edneos e de rampas mais moderadas do que as velhas linhas hist\u00f3ricas do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da febre dos directos, a ferrovia espanhola melhorou antes de voltar a uma decad\u00eancia muito portuguesa, que s\u00f3 os incr\u00edveis investimentos dos \u00faltimos 30 anos transformaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Serve tudo isto para dizer que a rede portuguesa est\u00e1 para tr\u00e1s da ditadura franquista. Nos \u00faltimos trinta anos o n\u00famero de projectos implementados na rede portuguesa \u00e9 impressionante e, no entanto, a realidade resultante \u00e9 uma desilus\u00e3o profunda que nos coloca em competi\u00e7\u00e3o apenas com a Alb\u00e2nia e, de forma transit\u00f3ria, com Rom\u00e9nia e Bulg\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 me repeti vezes sem conta neste assunto mas n\u00e3o me cansarei de repetir o que \u00e9 para mim uma evid\u00eancia de d\u00e9cadas, tantas vezes reflectida em frustrados ep\u00edlogos das carreiras de alguns dos mais afamados engenheiros da nossa rede &#8211; actualizar sistemas de seguran\u00e7a e de trac\u00e7\u00e3o, que no fundo foi o realizado em 90% das interven\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos 30 anos, n\u00e3o \u00e9 garante de maior competitividade ou de maior interesse social do caminho de ferro.<\/p>\n\n\n\n<p>Dev\u00edamos procurar mais projectos estruturantes e menos projectos paliativos. Acab\u00e1mos de electrificar a linha do Minho, via f\u00e9rrea que atravessa a que ser\u00e1 porventura a \u00fanica regi\u00e3o razoavelmente jovem do pa\u00eds, de forte densidade populacional e dinamismo econ\u00f3mico. Os comboios r\u00e1pidos n\u00e3o ganham tempo, pois circulam \u00e0 mesma velocidade que em trac\u00e7\u00e3o diesel. Os regionais ganham 5 minutos, fruto das melhores acelera\u00e7\u00f5es conseguidas na trac\u00e7\u00e3o el\u00e9ctrica. Mas \u00e9 tudo o que temos para apresentar. Porto e Valen\u00e7a, a 130 quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia, ficar\u00e3o ligados em pouco menos de duas horas &#8211; o tempo que demora qualquer pessoa a ir do Porto \u00e0s imedia\u00e7\u00f5es de Santiago de Compostela por via rodovi\u00e1ria. Por muito que se apele a consci\u00eancia ambiental, a falha de mercado aqui n\u00e3o \u00e9 a livre escolha das pessoas &#8211; \u00e9 a falta de actualidade do meio de transporte mais amigo do ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha mais decisiva que a pol\u00edtica pode fazer nos pr\u00f3ximos anos \u00e9 se quer ter mais ou menos linhas nos powerpoints. O Ferrovias 2020, que at\u00e9 inclu\u00eda inicialmente a nova linha de Sines, a nova linha de \u00c9vora e a nova Beira Alta, n\u00e3o fugia no entanto \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de dizer que se ia intervir em quase metade da rede. Ora esse \u00e9 um KPI que interessa praticamente nada, e a execu\u00e7\u00e3o em curso prova-o de forma particularmente cruel. Duas das novas linhas ca\u00edram e quase tudo o executado ou previsto nas restantes linhas n\u00e3o acrescenta nada &#8211; l\u00e1 acrescenta uns fios el\u00e9ctricos para meia d\u00fazia de comboios ao dia continuarem a fazer tempos de viagem dignos de 1950.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ser\u00e1 mais importante propor projectos que mudem a realidade, verdadeiros &#8220;game changers&#8221;, do que insistir nos mesmos tra\u00e7ados at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se em vez de electrificar a linha do Oeste e a do Algarve se fizesse s\u00f3 a nova linha Malveira \/ Torres Vedras &#8211; Lisboa, a rede no seu conjunto atrairia muito mais passageiros e carga, que sairiam de outros modos mais poluentes e energeticamente menos eficientes. Para o Algarve a solu\u00e7\u00e3o poderia passar, nesta linha de racioc\u00ednio, por material circulante mais moderno, eventualmente at\u00e9 com novos modos de trac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se em vez de olhar para a electrifica\u00e7\u00e3o da linha de Casa Branca a Beja e do Marco \u00e0 R\u00e9gua se olhasse apenas para a realiza\u00e7\u00e3o de uma nova linha \u00c9vora &#8211; Beja, com aproveitamento de parte do tra\u00e7ado actual, no seu conjunto a rede beneficiaria muito mais a coes\u00e3o do pa\u00eds, abriria portas a mais gente e beneficiaria muito mais as empresas e o potencial de atrac\u00e7\u00e3o de investimento. Do Marco \u00e0 R\u00e9gua, onde ser\u00e1 imposs\u00edvel melhorar o tra\u00e7ado, tamb\u00e9m se poderia considerar solu\u00e7\u00f5es diferentes, eventualmente com baterias ou electrifica\u00e7\u00e3o parcial, a suficiente para recarregar os comboios.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos de mais projectos que fa\u00e7am a diferen\u00e7a. Que sejam mais ambiciosos, de maior amplitude, mas que sejam aquilo que meras insist\u00eancias em solu\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas n\u00e3o conseguiram ser &#8211; os atributos para redesenhar o papel dos caminhos de ferro neste s\u00e9culo de emerg\u00eancia clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente pelo caminho existir\u00e3o muitos argumentos emocionais e muita tenta\u00e7\u00e3o para aumentar o n\u00famero de fitas para cortar, mas o certo \u00e9 que se a aposta na ferrovia \u00e9 para valer, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 dar-lhe a capacidade de ser competitiva, n\u00e3o \u00e9 penalizar a utiliza\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es alternativas. Essa ideia, que foi quase dominante na Europa a certa altura, mostrou ser um desastre para os caminhos de ferro, que promoveram menos a sua pr\u00f3pria melhoria e se distanciaram dramaticamente do interesse das pessoas e da sociedade, como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 beira da liberaliza\u00e7\u00e3o, a pergunta mais \u00f3bvia que se pode fazer \u00e9 porque \u00e9 que num pa\u00eds com uma frente litoral t\u00e3o apetec\u00edvel e algumas liga\u00e7\u00f5es complementares de densidade potencial elevada, n\u00e3o aparece um \u00fanico interessado em vir para c\u00e1 concorrer. Ter\u00e3o piedade da CP? A resposta parece-me ser outra. Para a encarar \u00e9 precisa coragem e a aud\u00e1cia que faltou at\u00e9 aqui, mas \u00e9 disso que se fazem as refer\u00eancias de que um dia falar\u00e3o os livros de hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a rede portuguesa n\u00e3o gera figuras com relevo hist\u00f3rico h\u00e1 mais de cinquenta anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos primeiros anos da ditadura franquista, Espanha actuou em v\u00e1rios eixos que considerava de insuficiente performance &#8211; tinham demasiadas curvas, demasiadas rampas ou tra\u00e7ados simplesmente pouco directos. 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