{"id":231,"date":"2019-07-28T11:39:16","date_gmt":"2019-07-28T10:39:16","guid":{"rendered":"http:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/?p=231"},"modified":"2019-07-28T11:39:18","modified_gmt":"2019-07-28T10:39:18","slug":"reaberturas-de-linhas-nao-sao-a-solucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/2019\/07\/28\/reaberturas-de-linhas-nao-sao-a-solucao\/","title":{"rendered":"Reaberturas de linhas n\u00e3o s\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>O Bloco de Esquerda foi ao T\u00e2mega e, na sua tradi\u00e7\u00e3o muito particular, anunciou a proposta de reabertura da linha do T\u00e2mega, para incentivar o transporte ferrovi\u00e1rio portugu\u00eas, sendo possivelmente a \u00fanica coisa que conhece ali da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os partidos pol\u00edticos, os sucessivos governos e tamb\u00e9m os t\u00e9cnicos das entidades p\u00fablicas respons\u00e1veis pela rede ferrovi\u00e1ria t\u00eam de conseguir falar de caminhos de ferro sem olhar para o mapa ferrovi\u00e1rio dos livros de hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a seu tempo alguns dos fechos de linhas ferrovi\u00e1rias podem ter sido precoces, em 2019 \u00e9 claro que nenhuma das linhas fechou pode, com a sua simples reabertura, ser solu\u00e7\u00e3o para coisa alguma. Poucas s\u00e3o as excep\u00e7\u00f5es, talvez justificadas apenas por raz\u00f5es tur\u00edsticas ou, quando muito, para materializar alguma redund\u00e2ncia recomend\u00e1vel. N\u00e3o acreditam?<\/p>\n\n\n\n<p>1 &#8211; Linha do Sabor<\/p>\n\n\n\n<p>Ligava o Pocinho a Duas Igrejas, longe de Miranda do Douro. Eram 105 quil\u00f3metros em bitola m\u00e9trica, obrigando transbordo para a linha do Douro, e que eram percorridos em mais de duas horas, pelo meio de algumas das maiores rampas do pa\u00eds. Quem quereria hoje demorar 6 horas do Porto a Miranda do Douro? Quem quereria operar comboios de mercadorias de apenas 600 ou 700 toneladas? <\/p>\n\n\n\n<p>2 &#8211; Linha do Tua<\/p>\n\n\n\n<p>Os 134 quil\u00f3metros em bitola m\u00e9trica que separavam Tua de Bragan\u00e7a eram percorridos em mais de tr\u00eas horas para os comboios mais r\u00e1pidos, gra\u00e7as a um tra\u00e7ado apto na maioria da sua extens\u00e3o a menos de 50 km\/h. Porto &#8211; Bragan\u00e7a em 7 horas e com transbordo&#8230; atractivo, n\u00e3o seria?<\/p>\n\n\n\n<p>3 &#8211; Linha do Corgo<\/p>\n\n\n\n<p>71,4 quil\u00f3metros em bitola m\u00e9trica entre R\u00e9gua e Chaves, percorridos a velocidades normalmente inferiores a 35 km\/h, gra\u00e7as \u00e0s curvas mais apertadas da rede e algumas das suas maiores rampas. Porto &#8211; Vila Real em cerca de tr\u00eas horas, praticamente cinco para chegar a Chaves. Os comboios de mercadorias conseguiriam subir talvez 700 toneladas com uma locomotiva el\u00e9ctrica moderna.<\/p>\n\n\n\n<p>4 &#8211; Linha do T\u00e2mega<\/p>\n\n\n\n<p>51,6 quil\u00f3metros em bitola m\u00e9trica entre Livra\u00e7\u00e3o e Arco de Ba\u00falhe, sempre a velocidades inferiores ou iguais a 40 km\/h. Os 10 quil\u00f3metros que sobraram at\u00e9 2009, entre Livra\u00e7\u00e3o e Amarante, eram percorridos em quase 25 minutos. Ser\u00e1 um tra\u00e7ado destes solu\u00e7\u00e3o para alguma coisa?<\/p>\n\n\n\n<p>5 &#8211; Ramal de Mon\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>16 quil\u00f3metros em bitola ib\u00e9rica, continua\u00e7\u00e3o da linha do Minho. At\u00e9 pelo dinamismo do Alto Minho me parece que aqui estaria uma reactiva\u00e7\u00e3o vantajosa, para terminal de todos os servi\u00e7os nacionais do Minho. Um custo residual e um tra\u00e7ado bom o suficiente para tr\u00e1fego de curta dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>6 &#8211; Linha do Vouga e D\u00e3o &#8211; Sernada do Vouga a Viseu e Santa Comba D\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>As automotoras holandesas compradas em 1954 foram uma revolu\u00e7\u00e3o. Ligavam Espinho a Viseu em apenas 4 horas! Uma das vias mais bonitas do mundo mas que o melhor que fazia era assegurar uma liga\u00e7\u00e3o ao Porto em praticamente 4h30 ou a Lisboa, via Santa Comba D\u00e3o, em mais de 3h30, gra\u00e7as \u00e0s suas curvas e rampas inclementes. Seria esta uma solu\u00e7\u00e3o para a maior cidade europeia actualmente sem ferrovia?<\/p>\n\n\n\n<p>7 &#8211; Ramal de Cantanhede<\/p>\n\n\n\n<p>50 quil\u00f3metros da Figueira da Foz \u00e0 Pampilhosa, a antiga linha da Beira Alta. Apesar de estar em bitola ib\u00e9rica e de ter um tra\u00e7ado facilmente melhor\u00e1vel na maioria da sua extens\u00e3o, esta linha duplica demasiado o itiner\u00e1rio (muito mais r\u00e1pido) entre a Figueira e Coimbra e falha no poss\u00edvel objectivo de ligar a Figueira com Aveiro, ao flectir para a zona da Mealhada.<\/p>\n\n\n\n<p>8 &#8211; Ramal da Lous\u00e3<\/p>\n\n\n\n<p>Um crime, de facto. Servindo uma zona suburbana fundamental para o desenvolvimento de Coimbra, vai acabar por ver uma solu\u00e7\u00e3o estramb\u00f3lica de autocarros.<\/p>\n\n\n\n<p>9 &#8211; Ramal de C\u00e1ceres<\/p>\n\n\n\n<p>Um suposto atalho na liga\u00e7\u00e3o Lisboa &#8211; Madrid, ligando Torre das Vargens com Marv\u00e3o-Beir\u00e3. Diz-se que, na sua constru\u00e7\u00e3o, o empreiteiro era pago ao quil\u00f3metro e por isso decidiu desenhar o tra\u00e7ado mais curvil\u00edneo do pa\u00eds, a que se somam algumas das maiores rampas da rede. O maior espanto foi ter durado at\u00e9 ao in\u00edcio de 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>10 &#8211; Ramal de Rio Maior<\/p>\n\n\n\n<p>Um ramal fundamentalmente para tr\u00e1fego mineiro, ligando \u00e0 linha do Norte em Vale de Santar\u00e9m. N\u00e3o chegava a ligar com a linha do Oeste.<\/p>\n\n\n\n<p>11 &#8211; Ramal de Mora<\/p>\n\n\n\n<p>Imaginado para ligar \u00c9vora com Ponte de S\u00f4r, nunca passou de Mora. No auge dos caminhos de ferro nacionais tinha&#8230; 1 comboio por semana.<\/p>\n\n\n\n<p>12 &#8211; Linha \u00c9vora &#8211; Portalegre<\/p>\n\n\n\n<p>Na zona mais plana do pa\u00eds, esta linha tinha algumas das piores rampas da rede e das curvas mais cerradas, para chegar a Estremoz. A continua\u00e7\u00e3o para Portalegre durou apenas 40 anos, fruto de uma esta\u00e7\u00e3o l\u00e1 bem longe e de um percurso que podia demorar 3 horas \u00e0 sa\u00edda de \u00c9vora.<\/p>\n\n\n\n<p>13 &#8211; Ramal de Vila Vi\u00e7osa<\/p>\n\n\n\n<p>Um curto ramal com bom tra\u00e7ado que sofreu pelo facto de entroncar na j\u00e1 citada linha \u00c9vora &#8211; Portalegre.<\/p>\n\n\n\n<p>14 &#8211; Ramal de Montemor<\/p>\n\n\n\n<p>Ligando Torre da Gadanha a Montemor, um dos erros de desenho da rede alentejana, que conseguiu o feito de por Montemor, \u00c9vora e Beja em tr\u00eas eixos distintos, dispersando uma massa cr\u00edtica j\u00e1 de si bastante reduzida.<\/p>\n\n\n\n<p>15 &#8211; Linha Beja &#8211; Ourique<\/p>\n\n\n\n<p>Tra\u00e7ado favor\u00e1vel e uma redund\u00e2ncia potencialmente interessante. \u00c9 mantida em pousio desde 2012, com passagens regulares de draisines. <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"No futuro, poderia aproveitar da nova linha \u00c9vora - Caia. (abre num novo separador)\" href=\"http:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/2017\/05\/11\/ligacoes-ferroviarias-a-beja\/\" target=\"_blank\">No futuro, poderia aproveitar da nova linha \u00c9vora &#8211; Caia.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>16 &#8211; Linha de Sines (fechada a passageiros)<\/p>\n\n\n\n<p>A linha sai de Ermidas-Sado, obrigando os comboios a fazerem um grande desvio a partir de Gr\u00e2ndola. S\u00f3 de Ermidas-Sado a Sines demoram-se 40 minutos, mais ou menos o mesmo que de carro se demora de Sines a Set\u00fabal.<\/p>\n\n\n\n<p>17 &#8211; Linha do Douro, Pocinho &#8211; Barca d&#8217;Alva<\/p>\n\n\n\n<p>Desactivada depois de Espanha ter desactivado o tro\u00e7o do outro lado da fronteira, marcado por muitas obras de arte, curvas muito apertadas e rampas enormes. Os tempos de viagem eram muito elevados e a linha altamente desaconselh\u00e1vel a comboios de mercadorias, que tinham de ser leves.<\/p>\n\n\n\n<p>18 &#8211; Ramal de Reguengos<\/p>\n\n\n\n<p>Projectado para ligar \u00c9vora com Zafra, nunca passou de Reguengos e assim que foi constru\u00eddo logo se iniciaram os estudos recomendando o seu fecho. O seu tra\u00e7ado tamb\u00e9m nunca pareceu o de uma linha estabelecida na plan\u00edcie alentejana.<\/p>\n\n\n\n<p>19 &#8211; Ramal de Moura<\/p>\n\n\n\n<p>Quando fechou, em 1990, tinha ainda muita gente. Fechou demasiado cedo, sem d\u00favidas. Hoje basta olhar para um mapa e ver o que fazia o ramal para chegar a Moura, flectindo para Sul para tentar chegar a Serpa (ficava bem longe) antes de voltar para cima para Moura.<\/p>\n\n\n\n<p>20 &#8211; Ramal de Aljustrel<\/p>\n\n\n\n<p>Essencialmente um ramal mineiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Aonde quero chegar com isto tudo? Tirando Ramal da Lous\u00e3, de Mon\u00e7\u00e3o e o caso especial de Beja &#8211; Ourique (pela redund\u00e2ncia que proporcionaria, a baixo custo), nenhuma outra linha que fechou poderia hoje ser uma solu\u00e7\u00e3o de mobilidade ferrovi\u00e1ria capaz de captar gente e carga, para assim desempenhar um papel por uma mobilidade mais sustent\u00e1vel e uma maior coes\u00e3o territorial. Eventualmente o Corgo e o tro\u00e7o terminal do Douro poder\u00e3o ter interesse tur\u00edstico, com reactiva\u00e7\u00f5es em moldes distintos dos que seriam necess\u00e1rios para servi\u00e7o de massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente a rede portuguesa foi sempre mal projectada, com rampas elevadas mesmo em zonas de plan\u00edcie, esta\u00e7\u00f5es longe dos centros urbanos, tra\u00e7ados demasiado lentos e curvil\u00edneos. Reabrir erros seria um erro em si mesmo. Cidades como Amarante, Bragan\u00e7a, Vila Real, Portalegre ou Viseu precisam de vias ferrovi\u00e1rias que sejam capazes de se impor pela qualidade dos seus servi\u00e7os e n\u00e3o por compaix\u00e3o das suas popula\u00e7\u00f5es. Reabrir o que existia \u00e9 um erro t\u00e3o grande como \u00e9 um erro reaproveitar alguns tra\u00e7ados existentes, que deviam ser fechados e substitu\u00eddos por linhas que fizessem sentido &#8211; veja-se o caso da linha do Oeste e a sua entrada em Lisboa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Bloco de Esquerda foi ao T\u00e2mega e, na sua tradi\u00e7\u00e3o muito particular, anunciou a proposta de reabertura da linha do T\u00e2mega, para incentivar o transporte ferrovi\u00e1rio portugu\u00eas, sendo possivelmente a \u00fanica coisa que conhece ali da regi\u00e3o. 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