{"id":264,"date":"2020-02-24T20:58:53","date_gmt":"2020-02-24T19:58:53","guid":{"rendered":"http:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/?p=264"},"modified":"2024-01-16T09:57:19","modified_gmt":"2024-01-16T08:57:19","slug":"2020-o-fim-da-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/2020\/02\/24\/2020-o-fim-da-esperanca\/","title":{"rendered":"2020, o fim da esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p>Demasiados anos e demasiados erros culminam numa esp\u00e9cie de tudo ou nada que, para j\u00e1, parece vir a saldar-se num nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Num pa\u00eds com dram\u00e1ticas dificuldades pol\u00edticas para priorizar investimento p\u00fablico, muito menos rent\u00e1vel eleitoralmente do que a distribui\u00e7\u00e3o de benesses pela crescente fatia de dependentes do or\u00e7amento de Estado, os poucos investimentos que tendem a avan\u00e7ar s\u00e3o quase sempre coxos, mal preparados e, ainda mais, mal enquadrados. 2020 arrancou h\u00e1 pouco e parece ser o ano da confirma\u00e7\u00e3o de alguns erros hist\u00f3ricos, v\u00e1rios dos quais sem paralelo na restante hist\u00f3ria democr\u00e1tica portuguesa e que n\u00e3o parecem ter encontrado capacidade pol\u00edtica suficiente para serem revertidos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Os erros mais clamorosos<\/h3>\n\n\n\n<p>Em 2020, v\u00e3o-se confirmar alguns dos erros mais espectaculares do transporte ferrovi\u00e1rio em Portugal e, mais genericamente, da pol\u00edtica de transportes e territ\u00f3rio. Curiosamente, numa fase em que se promete mais do que nunca que o comboio \u00e9 o futuro (e que se vai manter no centro das cidades) e em que quase todos os pol\u00edticos p\u00f5em uma bra\u00e7adeira verde \u00e0 volta do bra\u00e7o, procurando conquistar as boas gra\u00e7as de meia d\u00fazia de her\u00f3is de barro promovidos mundialmente por uma imprensa \u00e1vida de her\u00f3is (e hero\u00ednas) e cada vez mais pregui\u00e7osa para tratar e filtrar at\u00e9 os temas da ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aeroporto do Montijo<\/strong> &#8211; o pai de todos os erros. Um aeroporto no meio do Tejo, numa zona de risco ambiental evidente, que avan\u00e7a sem avalia\u00e7\u00e3o ambiental estrat\u00e9gica e que pereniza o aeroporto da Portela, que ver\u00e1 duplicar o seu movimento sem um simples estudo de impacte ambiental. Um erro crasso que penhora o futuro do pa\u00eds, apenas porque os pol\u00edticos n\u00e3o querem salvar a face depois de terem afundado o pa\u00eds ao ponto de terem de vender a ANA com este tipo de erros previstos no contrato. A for\u00e7a dos pol\u00edticos ficou-se pelas palavras. No fim, at\u00e9 temos este fant\u00e1stico b\u00f3nus de ser um aeroporto novo e sem transporte ferrovi\u00e1rio. Certamente em nome da capital verde europeia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ramal da Lous\u00e3<\/strong> &#8211; Era para ser um metro, que imitaria o erro perfeitamente saloio que foi feito na P\u00f3voa de Varzim. No final, tomem l\u00e1 uns autocarros estilizados num canal montanhoso e com apenas uma via, e \u00e9 se querem. Coimbra, cidade fantasma e cada vez mais fantasmag\u00f3rica, promove e festeja este festival em honra de Frankenstein. Na Su\u00ed\u00e7a os comboios atravessam com mercadorias cidades de meia em meia hora, mas c\u00e1, onde queremos dar as cidades \u00e0s pessoas e travar o carro, h\u00e1 que retirar uma via onde passa um comboio por hora ao longo de um quil\u00f3metro porque corta a cidade. Os autocarros far\u00e3o um tempo de viagem superior \u00e0s velhas e esgotad\u00edssimas automotoras diesel que ali andaram at\u00e9 2009. Um erro destes \u00e9 dif\u00edcil de conceber, mas ele a\u00ed est\u00e1 com honras de apresenta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas a que n\u00e3o falta o croquete da praxe.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Metro de Lisboa<\/strong> &#8211; a cidade quer retirar os carros e tem falta de transportes, por isso era fundamental meter 200 milh\u00f5es num tro\u00e7o de 2 quil\u00f3metros que nem sequer aproveita a quem quer deixar o carro em casa antes de entrar na capital. Para qu\u00ea pensar em projectos com um ter\u00e7o do investimento para integrar a linha de Cascais no resto da rede suburbana, quando at\u00e9 foi h\u00e1 anos identificado como o projecto com maior potencial para ganhar quota modal ao carro. Os <em>greenwashers<\/em> de servi\u00e7o v\u00e3o continuar a garantir-nos que a ideia \u00e9 maximizar a sa\u00edda dos carros de Lisboa, possivelmente querer\u00e3o sujeitar-nos a algum tipo de tortura, apenas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Os outros erros<\/h3>\n\n\n\n<p>2020 vai ainda sublinhar v\u00e1rios outros erros:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Linha da Beira Alta<\/strong> &#8211; o projecto do Ferrovia 2020 n\u00e3o previa correc\u00e7\u00f5es de tra\u00e7ado porque ia ser feita uma linha nova ao lado. A linha entretanto n\u00e3o se faz (nem far\u00e1), mas tamb\u00e9m n\u00e3o se alteram as inten\u00e7\u00f5es para esta linha. Em 2020, Portugal continuar\u00e1 a adjudicar renova\u00e7\u00f5es que j\u00e1 envergonhariam se o Estado Novo as tivesse decidido em 1960. Que bom \u00e9 demorar 4 horas de Lisboa \u00e0 Guarda!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Linha do Minho<\/strong> &#8211; A electrifica\u00e7\u00e3o da linha do Minho, um caganito de 80 quil\u00f3metros com 2 ou 3 t\u00faneis raqu\u00edticos, j\u00e1 vai para quatro anos. A velocidade nem aumenta e at\u00e9 diminui, as rampas ficam igualmente penalizantes e a obra prolonga-se merecendo o carimbo de &#8220;obra de especial complexidade&#8221;. Ser\u00e1 at\u00e9 inaugurada a &#8220;renova\u00e7\u00e3o&#8221; com a luxuosa sinaliza\u00e7\u00e3o manual de origem! No mesmo tempo, a Su\u00ed\u00e7a escavou o novo t\u00fanel de Albula, com 7 ou 8 quil\u00f3metros, a 2.000 metros de altitude. T\u00eam a sorte de s\u00f3 lhes calharem obras f\u00e1ceis.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Linha do Vouga<\/strong> &#8211; Toda a gente comenta no sector e poucos t\u00eam a coragem de assumir que para a linha do Vouga os maiores interessados em nada fazer s\u00e3o os pr\u00f3prios donos da infraestrutura. Em vez de fazer o l\u00f3gico e integrar o tro\u00e7o Norte nos suburbanos do Porto, rebitolado, o gestor de infraestruturas vende uma lun\u00e1tica electrifica\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da bitola m\u00e9trica, com novo transbordo para a linha do Norte em Silvalde &#8211; essa metr\u00f3pole &#8211; ou at\u00e9 mesmo com um metrobus (a s\u00e9rio?) para levar as pessoas at\u00e9 ao centro de Espinho. H\u00e1 quem ache que estas posi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o suficientes para cessar mandatos, mas n\u00e3o serei certamente eu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Linha do Oeste<\/strong> &#8211; s\u00f3 h\u00e1 60 anos \u00e9 que sabemos que a linha do Oeste, entre Torres Vedras e Lisboa, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o serve ningu\u00e9m como compromete todo o interesse da restante linha. Mas como somos um pa\u00eds muito preocupado com a ferrovia e com o seu papel para nos salvar das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, vamos mesmo fazer obras e manter esse tro\u00e7o tal como est\u00e1 &#8211; s\u00f3 que electrificado. A IP jura que o n\u00famero de passageiros vai explodir (eu aposto que pouco v\u00e3o aumentar) e que vai ligar Lisboa \u00e0s Caldas em 90 minutos &#8211; o que \u00e9 um p\u00e9ssimo tempo e que, mesmo assim, n\u00e3o vai ser alcan\u00e7ado. Est\u00e1 aqui a minha aposta.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim disto tudo, desenha-se o quadro para 2030, onde com uma honrosa excep\u00e7\u00e3o creio que estar\u00e3o mais interven\u00e7\u00f5es deste tipo &#8211; in\u00fateis, sem corrigirem os tra\u00e7ados onde interessam e mais preocupados em espalhar interven\u00e7\u00f5es do que em espalharem benef\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos continuar a pedinchice na Uni\u00e3o Europeia, que ter\u00e1 um or\u00e7amento mais curto, evitando recorrer ao or\u00e7amento de Estado para os investimentos que em princ\u00edpio os nossos impostos deviam financiar. A ideia de que a UE tem de pagar at\u00e9 novas frotas para a CP devia fazer-nos corar de vergonha em vez de nos motivar a tentar mais vezes. Se uma opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o paga sequer os seus comboios (e at\u00e9 \u00e9 subsidiada para isso), o que raio queremos atingir com o meio ferrovi\u00e1rio? Para brincar, chegam as maquetes.<\/p>\n\n\n\n<p>O Ferrovia 2020 \u00e9 j\u00e1 um dos menores esfor\u00e7os or\u00e7amentais da nossa hist\u00f3ria para o meio ferrovi\u00e1rio &#8211; pouco mais de 1.200 a 1.500 milh\u00f5es ser\u00e3o executados, dos quais mais de 70% de origem europeia, ao longo de dez anos. \u00c9 um dos esfor\u00e7os or\u00e7amentais mais pat\u00e9ticos da hist\u00f3ria que, estou certo, marcar\u00e1 a tend\u00eancia para uma nova d\u00e9cada igualmente deprimente e que continuar\u00e1 a fazer o que as \u00faltimas d\u00e9cadas fizeram ao meio ferrovi\u00e1rio &#8211; refor\u00e7\u00e1-lo como o parente pobre do (sub-)desenvolvimento nacional, condenando-o a uma agonia absoluta enquanto pelas p\u00e1ginas de jornais se vende a ideia da grande aposta nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou muito me espantarei em 2020 ou ele ser\u00e1, para mim, o fim da esperan\u00e7a. Parece-me que n\u00e3o haver\u00e1 retorno depois desta oportunidade hist\u00f3rica que se perdeu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Demasiados anos e demasiados erros culminam numa esp\u00e9cie de tudo ou nada que, para j\u00e1, parece vir a saldar-se num nada. Num pa\u00eds com dram\u00e1ticas dificuldades pol\u00edticas para priorizar investimento p\u00fablico, muito menos rent\u00e1vel eleitoralmente do que a distribui\u00e7\u00e3o de benesses pela crescente fatia de dependentes do or\u00e7amento de Estado, os poucos investimentos que tendem&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":265,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[29],"tags":[43,42],"class_list":["post-264","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politicas-publicas","tag-bloqueios","tag-institucional"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/02\/1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=264"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/264\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":267,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/264\/revisions\/267"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/265"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}