{"id":545,"date":"2023-12-26T16:50:34","date_gmt":"2023-12-26T15:50:34","guid":{"rendered":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/?p=545"},"modified":"2024-01-16T10:11:43","modified_gmt":"2024-01-16T09:11:43","slug":"a-encruzilhada-nos-servicos-de-longo-curso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/2023\/12\/26\/a-encruzilhada-nos-servicos-de-longo-curso\/","title":{"rendered":"A encruzilhada nos servi\u00e7os de longo curso"},"content":{"rendered":"\n<p>O P\u00fablico noticiou h\u00e1 dias a perda crescente de competitividade da CP para com as empresas de camionagem, cujos servi\u00e7os t\u00eam aumentado de frequ\u00eancia e qualidade, conseguindo pelo caminho pre\u00e7os mais baixos e substancialmente abaixo dos praticados pela CP. A not\u00edcia est\u00e1 em <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/12\/24\/economia\/noticia\/cp-aumenta-precos-bilhetes-perde-guerra-tarifaria-operadores-rodoviarios-2074736\">CP perde batalha tarif\u00e1ria com as empresas rodovi\u00e1rias | Transportes | P\u00daBLICO (publico.pt)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse artigo, Carlos Cipriano diz ainda que a CP perdeu passageiros em 2023 face a 2022, no Longo Curso, sem d\u00favida por causa das muitas greves que marcaram o primeiro semestre, mas n\u00e3o se podendo tamb\u00e9m esquecer que em 2022 ainda tinham existido restri\u00e7\u00f5es decorrentes da crise Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Um observador atento e de muitos anos n\u00e3o pode ler estes factos sem pensar na encruzilhada em que se enredam os servi\u00e7os ferrovi\u00e1rios de Longo Curso, por enquanto operados apenas pela CP, no que \u00e9 mais um desafio hist\u00f3rico para o sector no seu conjunto &#8211; uma parte relevante da press\u00e3o p\u00fablica para investir em caminhos de ferro se faz a partir da reputa\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os prestados pela CP, o que na hora actual permite ter as maiores preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Temo que estejamos actualmente na posi\u00e7\u00e3o mais fr\u00e1gil da ferrovia no segmento Longo Curso desde, pelo menos, a v\u00e9spera das electrifica\u00e7\u00f5es de Braga em Faro, no distante ano de 2004.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Perda de competitividade em acelera\u00e7\u00e3o com o Ferrovia 2020<\/h2>\n\n\n\n<p>Desde que o Ferrovia 2020 entrou numa fase de execu\u00e7\u00e3o que a perda de competitividade se tem acelerado. Em primeiro lugar, as pr\u00f3prias obras t\u00eam criado prolongadas restri\u00e7\u00f5es ao tr\u00e1fego &#8211; o caso maior ser\u00e1 a obra de Santa Engr\u00e1cia entre Espinho e Gaia, que se arrasta h\u00e1 quatro anos com um ritmo de obra capaz de rivalizar com a Sagrada Fam\u00edlia de Barcelona. A linha da Beira Alta estar\u00e1 encerrada mais de dois anos, um tiro mais no porta-avi\u00f5es que levar\u00e1 anos a ultrapassar, e isso se for ultrapassado, se quer.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira origem da falta de fiabilidade e prolongamento dos tempos de viagem tem tamb\u00e9m levado a CP a desinteressar-se do cumprimento de n\u00edveis de servi\u00e7o minimamente atractivos. N\u00e3o parece haver grande press\u00e3o ou grande interesse em cumprir hor\u00e1rios ou em mitigar causas de atrasos em cadeia, como os provocados pelas correspond\u00eancias em Lisboa e Porto que, talvez por falta de imagina\u00e7\u00e3o mais do que por falta de oferta, transformam incid\u00eancias na R\u00e9gua ou em Lagos em dias inteiros de atrasos \u00e0 volta da Linha do Norte.<\/p>\n\n\n\n<p>O comboio n\u00e3o compete com o autocarro pelo pre\u00e7o, mas sim em conforto, fiabilidade e pontualidade. A CP perdeu nos \u00faltimos anos os dois \u00faltimos pontos, estando hoje a l\u00e9guas de dist\u00e2ncia da fiabilidade e pontualidade que apresenta o servi\u00e7o rodovi\u00e1rio. No conforto a dist\u00e2ncia \u00e9 bastante maior em alguns componentes como os bancos ou a disponibilidade efectiva de Internet a bordo, sendo mais subjectiva obviamente noutros componentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o ano de 2023 fui vendo as estat\u00edsticas de pontualidade, que at\u00e9 j\u00e1 consideram atrasos s\u00f3 as chegadas com mais de 5 minutos de atraso, e foi rara a semana com pontualidade consistentemente acima dos 50%. A pontualidade de 2023 ter\u00e1 sido, muito provavelmente, a pior de sempre, e atingindo um ponto em que manifestamente parece insensato considerar o comboio como alternativa para quem tem hor\u00e1rios para cumprir.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma frota em perda<\/h2>\n\n\n\n<p>Os comboios pendulares iniciaram a sua renova\u00e7\u00e3o de meio de vida h\u00e1 quase dez anos, tendo sido uma muito necess\u00e1ria e at\u00e9 j\u00e1 atrasada renova\u00e7\u00e3o, que recolocou estes comboios num patamar relevante, mesmo apesar de alguns erros menores que possam ter existido na renova\u00e7\u00e3o dos interiores. Do lado da fiabilidade, no entanto, a frota debate-se com o escass\u00edssimo n\u00famero (apenas 9 unidades, depois do acidente de Soure &#8211; para quando a recupera\u00e7\u00e3o do comboio acidentado?) e problemas recorrentes do sistema Convel, obsoleto e ainda sem concurso aberto para substitui\u00e7\u00e3o. A CP ter\u00e1 acreditado que a internaliza\u00e7\u00e3o da sua manuten\u00e7\u00e3o seria a forma de fiabilizar este componente cr\u00edtico, no que acredito ser uma cren\u00e7a j\u00e1 ultrapassada pela realidade de todos os dias. Ultimamente, as avarias t\u00eam-se somado nos comboios, em outros n\u00edveis, causando atrasos, marchas degradadas ou simples interrup\u00e7\u00f5es das viagens, em n\u00famero que a minha mem\u00f3ria julga ser in\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso dos comboios Intercidades a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 muito melhor. Apesar de poderem prometer muitos anos de servi\u00e7os, as locomotivas 5600 mostram os problemas que todas as frotas de locomotivas europeias equipadas com os mesmos conversores de trac\u00e7\u00e3o t\u00eam (de tipo GTO, um tipo de tiristores rapidamente abandonado ainda na d\u00e9cada de 90) e t\u00eam os mesmos problemas com o sistema Convel. Mas o maior problema s\u00e3o mesmo as carruagens. As 102 carruagens do parque desesperam por uma renova\u00e7\u00e3o profunda h\u00e1 cerca de 20 anos!<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 20 anos era tarde &#8211; ent\u00e3o foram renovadas 56 carruagens Corail com a troca dos confort\u00e1veis bancos de origem na 2\u00aa classe, pelo absoluto desastre decadente com que ainda hoje circulam &#8211; hoje em dia entrar numa carruagem do servi\u00e7o Intercidades \u00e9 uma experi\u00eancia certamente ex\u00f3tica, mais do que agrad\u00e1vel. Dos p\u00e9ssimos bancos das Corail em 2\u00aa classe, ao desgaste para l\u00e1 de todos os limites das 45 carruagens Sorefame da rede IC, passando por ilumina\u00e7\u00e3o d\u00e9bil, janelas muito riscadas e sujas, portas inadequadas, falta de informa\u00e7\u00e3o ao passageiro, e a lista continua&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Mal por mal, as carruagens adquiridas a Espanha j\u00e1 haviam sido renovadas na Renfe e t\u00eam sido semi-renovadas na CP, estando com muito melhor aspecto e conforto do que as carruagens Intercidades. Deve ser a \u00fanica situa\u00e7\u00e3o na Europa onde carruagens de muito maior n\u00edvel circulam em comboios de tipo regional, dando correspond\u00eancia a comboios Intercidades com carruagens muito piores&#8230; vendo pela no\u00e7\u00e3o de hierarquia de servi\u00e7o, parecia f\u00e1cil simplesmente introduzir estas carruagens nos servi\u00e7os IC, pelo menos enquanto n\u00e3o se renovasse a frota original destes servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/cparco-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-546\" srcset=\"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/cparco-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/cparco-300x200.jpg 300w, https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/cparco-768x512.jpg 768w, https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/cparco.jpg 1500w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Prevista inicialmente para 2019, a renova\u00e7\u00e3o profunda das carruagens IC vai iniciar 2024 no mesmo estado &#8211; a mesma carruagem prot\u00f3tipo continua estacionada nas oficinas do Entroncamento, e de fora n\u00e3o se conseguem vislumbrar os motivos da demora em executar aceleradamente o mais priorit\u00e1rio programa de renova\u00e7\u00e3o que a CP tem desde a renova\u00e7\u00e3o dos Pendulares e que, sem que se percebam raz\u00f5es, continua adiado. O servi\u00e7o Intercidades, tal como est\u00e1, compara com expressos rodovi\u00e1rios realizados pelos autocarros bolorentos dos anos 90.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma estrat\u00e9gia de produto invis\u00edvel<\/h2>\n\n\n\n<p>A CP ter\u00e1 seguramente uma estrat\u00e9gia de produto para os comboios Alfa Pendular e Intercidades mas, mesmo para pessoas atentas como eu, n\u00e3o se consegue decifrar qual ser\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7amos logo pela grande indefini\u00e7\u00e3o \u00e0 volta dos bares e servi\u00e7o a bordo. Apesar dos \u00faltimos anos terem sido passados \u00e0 volta de novas concess\u00f5es de bares, fal\u00eancias de concession\u00e1rios e at\u00e9 a analisar se a CP deveria internalizar o servi\u00e7o &#8211; teria sido muito engra\u00e7ado, felizmente j\u00e1 passou &#8211; na realidade o mais relevante ainda \u00e9 antes disso: que servi\u00e7o a bordo?<\/p>\n\n\n\n<p>Actualmente n\u00e3o temos j\u00e1 o n\u00edvel de refei\u00e7\u00f5es a bordo de outros tempos, a selec\u00e7\u00e3o tem sido ciclicamente mais reduzida e n\u00e3o existe uma diferencia\u00e7\u00e3o real do n\u00edvel de acompanhamento oferecido em primeira classe, por exemplo. Tudo coisas que deviam estar escritas na pedra antes de se ir ao mercado e procurar um pre\u00e7o justo de um concession\u00e1rio s\u00f3lido, para evitar as constantes ruturas vis\u00edveis no servi\u00e7o e que s\u00f3 prejudicam a imagem da CP.<\/p>\n\n\n\n<p>Existindo profissionais de grande n\u00edvel a bordo, percebe-se pela falta de consist\u00eancia no servi\u00e7o a bordo que n\u00e3o existe um posicionamento claro do tipo de servi\u00e7o que o revisor presta a bordo, especialmente vis\u00edvel nas numerosas incid\u00eancias que v\u00e3o afectando a circula\u00e7\u00e3o e onde nem sempre a reac\u00e7\u00e3o \u00e9 a que os passageiros compreensivelmente reclamam, mas que vai para l\u00e1 disso. Falta uma cultura de servi\u00e7o, uma orienta\u00e7\u00e3o clara sobre como \u00e9 que a CP se quer posicionar, por interm\u00e9dio dos seus trabalhadores, junto dos seus clientes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo nos detalhes \u00e9 dif\u00edcil perceber se existe algu\u00e9m ao volante &#8211; o servi\u00e7o Alfa Pendular \u00e9 o servi\u00e7o premium da CP, penso eu que continuando dirigido a um p\u00fablico de neg\u00f3cios e que quer acima de tudo um servi\u00e7o premium, independente do seu pre\u00e7o, mas fazer a viagem de Lisboa ao Porto e acompanhar o que passa nas televis\u00f5es do comboio \u00e9 uma atroz anedota &#8211; no produto premium da CP, vemos um desfilar de presidentes de c\u00e2mara de TVs regionais (quase todas do Norte) a comer chouri\u00e7as e morcelas nas mais variadas feiras de artesanato e agr\u00edcolas, intercaladas aqui e ali por v\u00eddeos auto-elogiosos da empresa, tipicamente virados para circula\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas e hist\u00f3ricas. A primeira vez que vi esta programa\u00e7\u00e3o a bordo nem queria acreditar, mas ela foi ficando &#8211; ou seja, \u00e9 realmente inten\u00e7\u00e3o mostrar aquilo!<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Hor\u00e1rios estagnados desde 2007<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar de pequenos ajustes aqui e ali, os hor\u00e1rios do Longo Curso est\u00e3o basicamente na mesma desde 2007. A mesma oferta, mais coisa menos coisa, os mesmos tempos de paragem &#8211; e como aumentou o turismo, e os turistas com grandes malas &#8211; numa rede que n\u00e3o mudou t\u00e3o pouco assim. Quase sempre para ligeiramente pior.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da revis\u00e3o hor\u00e1ria que se imporia, mesmo que custe mais 5 minutos de viagem aqui ou ali, a falta de altera\u00e7\u00f5es grandes s\u00f3 por si denuncia uma grande dificuldade de mudar &#8211; j\u00e1 nem digo de, simplesmente, pensar. Os padr\u00f5es de mobilidade alteraram-se muito em Portugal, desde logo porque hoje temos um n\u00edvel de turismo e de turistas nos comboios que n\u00e3o t\u00ednhamos em 2007.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos tamb\u00e9m uma crescente desertifica\u00e7\u00e3o no interior, onde continua a coexistir uma magra oferta de Intercidades com uma magra oferta de regionais: n\u00e3o poderia ser mais interessante ter mais comboios atractivos (os Intercidades) e eliminar ou reduzir regionais, substitu\u00eddos por paragens a pedido nos comboios IC e tarif\u00e1rios a condizer? \u00c9 que para a CP \u00e9 cr\u00edtico posicionar-se no centro universit\u00e1rio da Covilh\u00e3, e para isso precisa de mais comboios Intercidades ao longo do dia, pois n\u00e3o consegue faz\u00ea-lo com o complemento dos comboios regionais. Porque n\u00e3o posicionar servi\u00e7os de mais valor para os poucos p\u00f3los geradores de tr\u00e1fego que tem nas Beiras, e salvaguardar algumas esta\u00e7\u00f5es que vejam sair os comboios regionais com as ditas paragens a pedido? \u00c9 uma altera\u00e7\u00e3o de doutrina substancial, mas se resulta em pa\u00edses como a Su\u00ed\u00e7a, porque n\u00e3o tentar modelos mais flex\u00edveis?<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo no eixo Lisboa &#8211; Porto, as leis de paragens podem e devem ser discutidas, assim como o real interesse de servir Guimar\u00e3es, liga\u00e7\u00e3o muito lenta e que com a linha que existe parece condenada para o meio ferrovi\u00e1rio. N\u00e3o devia ser admiss\u00edvel, por exemplo, iniciar servi\u00e7o para Valen\u00e7a (desde 2021) e t\u00ea-lo limitado a um comboio por sentido, numa linha muito procurada e onde h\u00e1 cidades como Barcelos ou Viana do Castelo. No entanto, mais de dois anos depois, continuamos a ter esse magro servi\u00e7o, inclusivamente interrompido entre S\u00e1bado e Domingo, quando n\u00e3o circula um par de comboios para l\u00e1 do Porto.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A dif\u00edcil equa\u00e7\u00e3o do crescimento<\/h2>\n\n\n\n<p>A liberaliza\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o rodovi\u00e1rio de expressos, em cima de uma infraestrutura de grande qualidade, atraiu para a rodovia o dinamismo, o capital e os meios humanos que prometem manter o ritmo de crescimento dos autocarros, em boa parte \u00e0 custa do comboio.<\/p>\n\n\n\n<p>O comboio continuar\u00e1 entregue fundamentalmente \u00e0 CP, at\u00e9 porque boa parte dos servi\u00e7os Intercidades est\u00e3o at\u00e9 integrados nas Obriga\u00e7\u00f5es de Servi\u00e7o P\u00fablico, que aqui funcionam ao mesmo tempo como garantia contra a supress\u00e3o mas tamb\u00e9m como garantia de congelamento dos modelos operacionais sovietizados que temos por c\u00e1. Com uma frota a envelhecer, com renova\u00e7\u00f5es que tardam, e incid\u00eancias operacionais que se multiplicam, os portugueses j\u00e1 est\u00e3o a &#8220;votar&#8221; com a arma mais eficaz de qualquer sociedade livre &#8211; escolhendo outras op\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os meios s\u00e3o mais limitados e os desafios externos maiores, a import\u00e2ncia de ter uma estrat\u00e9gia \u00e9 ainda mais importante &#8211; que permita partir dos grandes objectivos e da vis\u00e3o de longo prazo, para ir desconstruindo nos n\u00edveis t\u00e1cticos e operacionais, de modo a accionarem-se ac\u00e7\u00f5es que permitam ir encurtando os problemas e a dist\u00e2ncia para a concorr\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A pontualidade, ou falta dela, n\u00e3o \u00e9 uma fatalidade. Pode ser preciso alargar os tempos de paragem em algumas esta\u00e7\u00f5es ou pode ser importante substituir as portas das carruagens, para mais f\u00e1cil e r\u00e1pida opera\u00e7\u00e3o. A falta de actualiza\u00e7\u00e3o dos comboios n\u00e3o desculpa a falta de limpeza, da mesma forma que os meios gastos a renovar automotoras para Lisboa &#8211; que por outras raz\u00f5es continua a n\u00e3o as aproveitar para refor\u00e7ar servi\u00e7o &#8211; continuam a fazer falta para fazer o investimento mais urgente de todos na CP &#8211; renovar os comboios Intercidades. N\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel fazer valer o pre\u00e7o alto que a CP cobra nos seus comboios se o interior das carruagens estiver mais pr\u00f3ximo de um galinheiro do que dos seus competidores rodovi\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Juntando alguns destes ingredientes a uma revis\u00e3o do que deve ser o servi\u00e7o a bordo, dos conte\u00fados que se mostram nas televis\u00f5es e at\u00e9 de regras tarif\u00e1rias adaptadas aos dias de hoje, pode-se ir \u00e0 luta. Por exemplo, continuamos a n\u00e3o conseguir comprar bilhete na app da CP com menos de 15 minutos de anteced\u00eancia, sendo um exemplo caricato de uma limita\u00e7\u00e3o que a pr\u00f3pria CP imp\u00f5e \u00e0 sua capacidade gerar receita. Porque \u00e9 que eu n\u00e3o poderei comprar bilhete no minuto da chegada do comboio \u00e0 minha esta\u00e7\u00e3o, e aproveitar para ainda ir nele, dando mais dinheiro \u00e0 CP? Isto na esta\u00e7\u00e3o do Oriente, por exemplo, faz muita gente fugir para os Expressos porque, s\u00f3 chegando em cima da hora \u00e0 esta\u00e7\u00e3o, j\u00e1 nem sequer pode entrar no comboio enquanto compra o bilhete. Uma falta de flexibilidade dif\u00edcil de entender.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/cpic-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-547\" srcset=\"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/cpic-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/cpic-300x200.jpg 300w, https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/cpic-768x512.jpg 768w, https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/12\/cpic.jpg 1500w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Enquanto os autocarros multiplicam frequ\u00eancias por todo o pa\u00eds, enchendo as auto-estradas, vi pela primeira vez um IC 542 Guarda\/Covilh\u00e3 &#8211; Lisboa de Natal com apenas cinco carruagens, neste ano de 2023. Considerando que a linha da Beira Alta est\u00e1 encerrada e portanto n\u00e3o faltar\u00e3o carruagens, \u00e9 uma imagem simb\u00f3lica a fechar o ano de um meio de transporte que j\u00e1 nem esgota comboios \u00e0 6\u00aa feira como em tempos recentes se passava.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixando a rede de Longo Curso neste empastelado emaranhado de coisa nenhuma, temo bem que 2023 tenha sido apenas o primeiro ano de uma s\u00e9rie de desconfort\u00e1veis not\u00edcias para o segmento mais lucrativo da empresa. Lembrem-se disto quando ouvirmos falar de pedidos de maiores sal\u00e1rios na empresa &#8211; a CP est\u00e1 em perda de quota de mercado onde mais lhe interessa, dificilmente mobilizar\u00e1 os meios financeiros que necessita para n\u00e3o defraudar os seus profissionais. Ou por outras palavras, \u00e9 mesmo importante olhar seriamente para os problemas \u00e0 volta da situa\u00e7\u00e3o competitiva do Longo Curso, pois a CP ser\u00e1 uma empresa invi\u00e1vel sem ter este pilar forte e saud\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum caminho \u00e9 f\u00e1cil, mas n\u00e3o existe alternativa a n\u00e3o ser come\u00e7ar a percorr\u00ea-lo. N\u00e3o faltam benchmarks dispon\u00edveis no mercado, dentro e fora de portas, para dar um rumo ambicioso nesta frente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O P\u00fablico noticiou h\u00e1 dias a perda crescente de competitividade da CP para com as empresas de camionagem, cujos servi\u00e7os t\u00eam aumentado de frequ\u00eancia e qualidade, conseguindo pelo caminho pre\u00e7os mais baixos e substancialmente abaixo dos praticados pela CP. 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