{"id":615,"date":"2024-05-14T11:23:23","date_gmt":"2024-05-14T10:23:23","guid":{"rendered":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/?p=615"},"modified":"2024-05-14T11:23:25","modified_gmt":"2024-05-14T10:23:25","slug":"portugal-ja-nao-percebe-que-para-crescer-muito-e-preciso-ambicionar-muito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/2024\/05\/14\/portugal-ja-nao-percebe-que-para-crescer-muito-e-preciso-ambicionar-muito\/","title":{"rendered":"Portugal j\u00e1 n\u00e3o percebe que para crescer muito, \u00e9 preciso ambicionar muito"},"content":{"rendered":"\n<p>Passei os \u00faltimos anos a defender a tese, que a realidade origina, de que s\u00f3 investimentos disruptivos trar\u00e3o resultados muito melhores nos transportes p\u00fablicos em Portugal &#8211; o ciclo de investimentos de acrescentos marginais, muito em voga especialmente desde o ano 2000, trouxe-nos a uma situa\u00e7\u00e3o de estagna\u00e7\u00e3o ou mesmo de recuo na posi\u00e7\u00e3o do transporte p\u00fablico &#8211; o grande elemento de an\u00e1lise \u00e9 a quota modal da viatura particular no nosso pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Nestes vinte anos, em que as \u00e1reas urbanas principais continuaram em expans\u00e3o, os carros somam recordes na entrada em Lisboa e Porto. Apesar do PART de 2019 ter sido vendido como uma medida decisiva para reverter esta tend\u00eancia &#8211; o que n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>A linha de Cascais, outrora uma das linhas mais importantes da Europa em volume de passageiros, soma mais de vinte anos de perda de passageiros, em prol sobretudo da A5 e de mais carga nas entradas de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>A Norte, calcula-se que hajam hoje mais pessoas a usar o carro entre a P\u00f3voa de Varzim e o Porto, depois de se criar por ali um eixo do Metro do Porto, do que no tempo em que o servi\u00e7o era realizado pela via estreita da CP.<\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o p\u00fablica actual est\u00e1 profundamente contaminada com a ideia da modera\u00e7\u00e3o no investimento, da procura de solu\u00e7\u00f5es mais baratas por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s solu\u00e7\u00f5es que maior impacto tenham na quota modal. Pelo meio, isso tem dado margem para o cultivo do Metrobus\/BRT (conceito v\u00e1lido e que tem o seu lugar, mas que vai sendo abusivamente utilizado para renomear banais carreiras de autocarros) ou at\u00e9 para o ru\u00eddo \u00e0 volta dos modos suaves &#8211; que s\u00e3o fundamentais para complementar melhores acessos de TP \u00e0s cidades, mas que s\u00f3 por si t\u00eam um impacto limitad\u00edssimo no indicador fundamental &#8211; a quota modal da viatura particular.<\/p>\n\n\n\n<p>Estaremos esquecidos de como \u00e9 que Portugal evoluiu massivamente no seu n\u00edvel de vida durante os anos 80 e 90?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Grandes revolu\u00e7\u00f5es passadas<\/h2>\n\n\n\n<p>Quero apenas chamar a aten\u00e7\u00e3o de algumas interven\u00e7\u00f5es que permitiram a Portugal capacitar eixos fundamentais para atrair pessoas para o transporte p\u00fablico, e que correspondem em alguns dos casos aos \u00faltimos casos de real sucesso na limita\u00e7\u00e3o de entrada de carros nas grandes cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Linha de Sintra &#8211; Quadruplica\u00e7\u00e3o, Novas Esta\u00e7\u00f5es com interfaces de transporte e parqueamento autom\u00f3vel<\/p>\n\n\n\n<p><em>Por acaso achar\u00e3o que foi f\u00e1cil colocar quatro vias em Benfica, Reboleira, Amadora ou Queluz? Ou que era baratito concretizar todas as novas esta\u00e7\u00f5es que foram constru\u00eddas no lugar das velhas? Ou que o desnivelamento do cruzamento da linha do Oeste, no Cac\u00e9m, custou meia d\u00fazia de trocos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por acaso algu\u00e9m acha que foi barato adquirir 56 unidades qu\u00e1druplas de nova gera\u00e7\u00e3o, em 1993, para reformular por completo servi\u00e7o, frequ\u00eancias e capacidade do transporte ferrovi\u00e1rio?<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"839\" height=\"503\" src=\"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-617\" srcset=\"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/image-1.png 839w, https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/image-1-300x180.png 300w, https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/image-1-768x460.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 839px) 100vw, 839px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Esta\u00e7\u00e3o da Amadora antes da quadruplica\u00e7\u00e3o e da nova esta\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Linha de Cintura de Lisboa &#8211; Quadruplica\u00e7\u00e3o entre Campolide \/ Benfica e Roma-Areeiro\/Chelas<\/p>\n\n\n\n<p><em>O que se diria hoje de tentar colocar quatro vias num local t\u00e3o ex\u00edguo como o Areeiro, com esta\u00e7\u00e3o inclu\u00edda? Ou de transformar uma ponte raqu\u00edtica em via dupla, em Entrecampos, numa esta\u00e7\u00e3o em viaduto de quatro vias a cruzar a maior art\u00e9ria da cidade de Lisboa? Ou a estabelecer, em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas, uma esta\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o de Sete Rios?<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"677\" src=\"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/image-2-1024x677.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-618\" srcset=\"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/image-2-1024x677.png 1024w, https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/image-2-300x198.png 300w, https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/image-2-768x508.png 768w, https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/image-2-1536x1016.png 1536w, https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/image-2.png 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Antigo viaduto de Entrecampos para duas vias e sem esta\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ponte 25 de Abril e Eixo Norte-Sul<\/p>\n\n\n\n<p><em>Reconstruir a ponte de 25 de Abril foi, na pr\u00e1tica, o que foi feito para autorizar comboio &#8211; estrutura da ponte renovada \u00e9 muito mais pesada do que a original, para possibilitar a circula\u00e7\u00e3o de at\u00e9 1500t de ve\u00edculos sobre o seu tabuleiro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O eixo Norte-Sul rasga uma zona j\u00e1 fortemente urbanizada na \u00e9poca, com viadutos, t\u00faneis e novas esta\u00e7\u00f5es em locais estrat\u00e9gicos. Assim como um eixo de Lisboa ao Tagus Park, por exemplo. O que seria este Eixo Norte-Sul decidido pelos pol\u00edticos dos \u00faltimos 20 anos? Uma faixa bus na ponte 25 de Abril?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00f3 ferrovi\u00e1rio do Porto<\/p>\n\n\n\n<p><em>Uma nova ponte sobre o Douro (S\u00e3o Jo\u00e3o), esta\u00e7\u00e3o de Campanh\u00e3 que mais que duplicou de tamanho e incluiu liga\u00e7\u00f5es desniveladas para retirar satura\u00e7\u00e3o aos tr\u00e1fegos que convivem at\u00e9 Contumil. Um novo parque oficinal novo em Contumil, para permitir ter espa\u00e7o em Campanh\u00e3 para a nova esta\u00e7\u00e3o. A capacidade de Campanh\u00e3, o n\u00f3 de tr\u00e1fego de proximidade mais importante do pa\u00eds, triplicou ou quadruplicou, permitindo boa parte da oferta que existe hoje. Estar\u00edamos hoje capazes de determinar similar aumento na esta\u00e7\u00e3o do Oriente em Lisboa? Ou em qualquer outra na regi\u00e3o Norte, se nem pensamos em tornar comum a esta\u00e7\u00e3o de Braga com a futura esta\u00e7\u00e3o de alta velocidade projectada?<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Principais ideias<\/h2>\n\n\n\n<p>Podemos comparar a ambi\u00e7\u00e3o e montantes de investimento que o pa\u00eds aplicou nas d\u00e9cadas de 80 e 90, com a situa\u00e7\u00e3o das \u00faltimas duas d\u00e9cadas, em tese numa fase em que o pa\u00eds j\u00e1 tinha um n\u00edvel de riqueza superior. Nos \u00faltimos vinte anos coloc\u00e1mos dinheiro a renovar e rebitolar a linha de Guimar\u00e3es, onde a competitividade da ferrovia \u00e9 t\u00e3o m\u00e1 ou pior do que era (\u00e9 que a competi\u00e7\u00e3o evoluiu&#8230;), onde Braga continua a uma hora de dist\u00e2ncia do Porto onde onde os novos ve\u00edculos que chegam \u00e0 P\u00f3voa de Varzim n\u00e3o acompanham a velocidade que tinham as antigas automotoras a diesel da via estreita.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas podemos sobretudo olhar para as popula\u00e7\u00f5es de Alfragide, Carnaxide, dos parques empresariais de Oeiras ou do interior de Cascais, podemos olhar para Gondomar, para a Maia, para Loures, para Odivelas, para Mafra, Ericeira, Alcochete, Barreiro, Ericeira, Sesimbra, Amarante e tantas outras e observar que, apesar da forte press\u00e3o populacional e de padr\u00f5es de mobilidade fortemente presentes e de grande fluxo, o que o pa\u00eds tem para lhes oferecer s\u00e3o investimentos &#8220;m\u00ednimos&#8221; e muito &#8220;humildes&#8221;. Mas algu\u00e9m acha que o grande aumento de n\u00edvel de vida das popula\u00e7\u00f5es com sorte nos anos 80 e 90 se deveu a investimentos desse g\u00e9nero, sem impacto em velocidade, em conectividade e em conforto?<\/p>\n\n\n\n<p>Estou sinceramente farto que este pa\u00eds se tenha esquecido de como crescer &#8211; deix\u00e1mos de definir planos estrat\u00e9gicos para os sectores econ\u00f3micos, abus\u00e1mos de fiscalidade, pass\u00e1mos a achar que a esmola europeia \u00e9 o alfa e o \u00f3mega do crescimento. E nos transportes estou farto que nos tenhamos esquecido como \u00e9 que conseguimos que a linha de Sintra ganhasse tantos pr\u00e9dios e habitantes (e \u00e9 assim que se resolve o problema da habita\u00e7\u00e3o), como \u00e9 que conseguimos tirar carros da ponte 25 de Abril ou como \u00e9 que conseguimos criar uma rede de suburbanos no Porto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez disso, estamos agora ref\u00e9ns de explicar at\u00e9 ao \u00faltimo c\u00eantimo a utilidade de uma nova travessia no Tejo, de ligar a linha de Cascais \u00e0 Cintura, de criar novas liga\u00e7\u00f5es em Lisboa e no Porto, enquanto vamos pintando umas incompetentes ciclovias para lado nenhum, pintando umas faixas bus sem sincronismos com sem\u00e1foros nas intercep\u00e7\u00f5es ou comprando autocarros ao dobro do pre\u00e7o do mercado por terem rodas carenadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pass\u00e1mos a ser o pa\u00eds dos pequeninos, que diz que quer resultados em grande com investimentos invis\u00edveis. N\u00e3o h\u00e1 saco!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passei os \u00faltimos anos a defender a tese, que a realidade origina, de que s\u00f3 investimentos disruptivos trar\u00e3o resultados muito melhores nos transportes p\u00fablicos em Portugal &#8211; o ciclo de investimentos de acrescentos marginais, muito em voga especialmente desde o ano 2000, trouxe-nos a uma situa\u00e7\u00e3o de estagna\u00e7\u00e3o ou mesmo de recuo na posi\u00e7\u00e3o do&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":619,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[29],"tags":[44,42],"class_list":["post-615","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politicas-publicas","tag-analise-critica","tag-institucional"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2024\/05\/image-3.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/615","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=615"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/615\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":621,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/615\/revisions\/621"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/619"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=615"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=615"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=615"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}