{"id":668,"date":"2024-07-15T18:03:33","date_gmt":"2024-07-15T17:03:33","guid":{"rendered":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/?p=668"},"modified":"2024-07-15T18:05:17","modified_gmt":"2024-07-15T17:05:17","slug":"contas-e-horizontes-da-cp-em-2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/2024\/07\/15\/contas-e-horizontes-da-cp-em-2023\/","title":{"rendered":"Contas e Horizontes da CP em 2023"},"content":{"rendered":"\n<p>As contas da CP do ano transacto s\u00e3o um excelente exerc\u00edcio para perceber que nem s\u00f3 de n\u00fameros positivos se faz um cen\u00e1rio optimista. O ano de 2023 foi muito dif\u00edcil para a CP &#8211; durante seis meses, greves intermin\u00e1veis a que o governo n\u00e3o pareceu dar grande import\u00e2ncia e, todo o ano, uma empresa que mostra estar a l\u00e9guas da atitude comercial que hoje se exige perante uma concorr\u00eancia de cada vez maior n\u00edvel do sector rodovi\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os grandes n\u00fameros<\/h2>\n\n\n\n<p>O resultado global positivo de 2023 foi de 3,5M\u20ac positivos, 61% menos do que em 2022, o primeiro ano em que a empresa havia registado lucros. Este resultado vem acompanhado de uma descida dos proveitos de tr\u00e1fego em 8,3M\u20ac face a 2022, devido ao efeito das greves &#8211; ainda que em 2022 j\u00e1 tivessem havido alguns epis\u00f3dios agudos, no final do ano.<\/p>\n\n\n\n<p>A empresa recebeu mais de 150M\u20ac em subsidia\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o p\u00fablico, um valor que est\u00e1 a chegar quase ao dobro do anunciado aquando da assinatura do contrato de servi\u00e7o p\u00fablico, h\u00e1 uns anos. Ficou ainda assim abaixo dos 200M\u20ac que chegaram a estar or\u00e7amentados, devido \u00e0 previs\u00e3o do governo de dar mais compensa\u00e7\u00f5es \u00e0 CP ainda em parte devido \u00e0 crise de Covid em anos anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>2023 foi o \u00faltimo ano onde a empresa suportou os gastos financeiros com a enorme d\u00edvida de que se viu livre no final do ano &#8211; foram 51M\u20ac de gastos financeiros contra uma previs\u00e3o de 16M\u20ac que j\u00e1 reflectia o custo da d\u00edvida remanescente, p\u00f3s-reestrutura\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, por um lado parece que a empresa pode facilmente ter um resultado l\u00edquido bastante superior j\u00e1 em 2024, at\u00e9 porque o que o contrato de servi\u00e7o p\u00fablico exige \u00e0 empresa \u00e9 bastante residual e sem grande impacto financeiro mesmo quando o servi\u00e7o \u00e9 foleiro &#8211; j\u00e1 l\u00e1 vamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os n\u00fameros t\u00eam contrastes. Parte do resultado positivo foi atingido com uma despesa com remunera\u00e7\u00f5es 8M\u20ac abaixo do previsto, fundamentalmente por n\u00e3o contrata\u00e7\u00e3o do pessoal previsto &#8211; a CP terminou 2023 at\u00e9 abaixo do n\u00famero de trabalhadores que tinha quando iniciou o ano. \u00c9 tamb\u00e9m mencionada redu\u00e7\u00e3o dos gastos com manuten\u00e7\u00e3o e fornecimentos externos, vis\u00edvel no abrandamento at\u00e9 cr\u00edtico que actividades de renova\u00e7\u00e3o de material circulante tiveram durante 2023 &#8211; basta ver o ritmo de entrega das carruagens Arco ou o n\u00e3o in\u00edcio da renova\u00e7\u00e3o dos comboios Intercidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disto, sem impacto linearmente vis\u00edvel no P&amp;L do ano, a empresa apenas executou 25% do seu plano de investimentos para 2023 &#8211; se acreditamos que \u00e9 pelo investimento que se capacitam empresas para melhores servi\u00e7os e para captar mais passageiros, vemos que a persist\u00eancia deste tipo de taxas de execu\u00e7\u00e3o coloca a CP numa aut\u00eantica guilhotina. 85M\u20ac de desvios \u00e9 pelo adiamento da atribui\u00e7\u00e3o do concurso para 117 novas unidades (em tribunal), mas h\u00e1 a destacar mais de 20M\u20ac por executar em renova\u00e7\u00f5es de material circulante j\u00e1 na posse da CP, atribu\u00eddo a falta de recursos humanos e de aprovisionamento de materiais &#8211; falta de autoriza\u00e7\u00e3o de despesa? Certo \u00e9 que em 2023 houve mais de 90M\u20ac de aquisi\u00e7\u00f5es e despesas v\u00e1rias cativas.<\/p>\n\n\n\n<p>O ambiente da CP parece n\u00e3o ser est\u00e1vel o suficiente para permitir garantir a sustentabilidade futura da empresa &#8211; desde logo, porque os seus activos continuam em acelerada degrada\u00e7\u00e3o e parece n\u00e3o existir um encontro entre necessidades operacionais e comerciais e recursos dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Servi\u00e7o &#8211; o passivo n\u00e3o quantific\u00e1vel<\/h2>\n\n\n\n<p>Os indicadores comerciais da empresa s\u00e3o, em 2023, muito maus. Os comunicados \u00e0 imprensa foram salvos pela permanente subida do tr\u00e1fego de Lisboa, que nem assim vai merecendo melhor aten\u00e7\u00e3o e refor\u00e7o \u00e0 altura, apesar de n\u00e3o faltarem comboios para isso. A subida de 23% em Lisboa permitiu atirar para uma nota de rodap\u00e9 uma dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o no Longo Curso (-6% de passageiros e -5,9% de receita), onde a concorr\u00eancia rodovi\u00e1ria atingiu em 2023 todos os recordes de tr\u00e1fego e factura\u00e7\u00e3o, ao qual a CP responde sem qualquer din\u00e2mica de ataque ao mercado e com comboios Intercidades que est\u00e3o h\u00e1 20 anos a desesperar por uma renova\u00e7\u00e3o minimamente digna.<\/p>\n\n\n\n<p>Se Lisboa aumentou 23% mesmo reduzindo a oferta em 4,5% (greves), j\u00e1 no Porto a redu\u00e7\u00e3o de tr\u00e1fego de mais de 3%, e mais de 9% em proveitos (justificados pela CP com desfasamento no apuramento de verbas compensat\u00f3rias do PART), face a redu\u00e7\u00e3o de oferta similar a Lisboa (5,3%) tem de questionar o que se passa a Norte, onde a CP tem concentrado as suas apostas operacionais praticamente todas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, os n\u00fameros da CP est\u00e3o totalmente impactados pelas greves, com redu\u00e7\u00f5es assinal\u00e1veis de oferta. Uma prova mais de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel confiar numa CP sustent\u00e1vel e capaz de desempenhar o papel de promo\u00e7\u00e3o da viagem de comboio com tantas guerras laborais e dificuldades para criar um ambiente normal, como conseguem as empresas privadas. A CP tem uma vantagem que talvez jogue contra si &#8211; \u00e9 que contrariamente aos privados que nas v\u00e1rias concess\u00f5es de transportes s\u00e3o penalizados tamb\u00e9m por falta de oferta quando h\u00e1 greve, para a CP a greve \u00e9 um motivo de isen\u00e7\u00e3o para efeitos de c\u00e1lculo de oferta n\u00e3o realizada &#8211; o contrato de servi\u00e7o p\u00fablico \u00e9 o primeiro a desresponsabilizar a empresa de ter os seus quadros satisfeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como era expect\u00e1vel e como foi vis\u00edvel ao longo de 2023, nem as greves salvaram a pontualidade que ter\u00e1 atingido em 2023 o seu ponto mais baixo em d\u00e9cadas, citando a CP 2\/3 de casos provocados por causas externas &#8211; mas 1\/3 de causas pr\u00f3prias, mesmo que seja verdade, continua a ser imenso dado que o universo de atrasos foi verdadeiramente dram\u00e1tico: o longo curso atingiu menos de 50% para Alfas e apenas 54% para Intercidades, n\u00fameros que francamente n\u00e3o me lembro de ver citados nem em pa\u00edses africanos. Isto deve obrigar toda a gente a pensar o que est\u00e1 a falhar no sistema, como um todo &#8211; porque entre avarias e problemas operacionais da CP, falta de resili\u00eancia da infraestrutura ou obras demasiado intrusivas, o que os caminhos de ferro est\u00e3o a entregar ao pa\u00eds \u00e9 um servi\u00e7o absolutamente lament\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>De resto, a an\u00e1lise das contas da CP podia come\u00e7ar por aqui &#8211; h\u00e1 uma amea\u00e7a estrutural \u00f3bvia no horizonte, n\u00e3o quantific\u00e1vel em n\u00fameros. Cheg\u00e1mos ao momento em que as finan\u00e7as da empresa est\u00e3o saud\u00e1veis e s\u00e3o relativamente f\u00e1ceis de manter em bom estado &#8211; o contrato de servi\u00e7o p\u00fablico entrega muito e exige quase nada &#8211; mas em que os passivos n\u00e3o quantific\u00e1veis se fazem ver e temer o pior. Est\u00e1 a CP preparada para enfrentar a concorr\u00eancia rodovi\u00e1ria? Nem preciso de citar potencial concorr\u00eancia ferrovi\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegar ao mercado, ter comboios mais actualizados e realizar esfor\u00e7os de optimiza\u00e7\u00e3o estruturais e alinhados com as melhores pr\u00e1ticas de gest\u00e3o de qualidade total t\u00eam de permitir subir muito o n\u00edvel da empresa. Ser\u00e1 poss\u00edvel? N\u00e3o fa\u00e7o ideia. Mas n\u00e3o h\u00e1 alternativa para sobreviver. O contrato de servi\u00e7o p\u00fablico qualquer empresa o consegue executar, por isso j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 isso a ser o elemento distintivo que nos garantir\u00e1 que a CP continuar\u00e1 a ser necess\u00e1ria ao pa\u00eds daqui a 10 anos. Que a empresa aparentemente n\u00e3o esteja a entender que esta quest\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel no seu relat\u00f3rio de contas e actividades mostra que est\u00e1 na altura do poder pol\u00edtico decidir o que quer fazer desta empresa &#8211; tem salva\u00e7\u00e3o? \u00c9 melhor come\u00e7ar do zero? Como se reestrutura uma empresa assim?<\/p>\n\n\n\n<p>Nada ser\u00e1 rocket science, mas as respostas que tardam s\u00e3o as que mais se imp\u00f5em.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As contas da CP do ano transacto s\u00e3o um excelente exerc\u00edcio para perceber que nem s\u00f3 de n\u00fameros positivos se faz um cen\u00e1rio optimista. 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