{"id":689,"date":"2024-08-23T21:43:09","date_gmt":"2024-08-23T20:43:09","guid":{"rendered":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/?p=689"},"modified":"2024-08-23T21:49:11","modified_gmt":"2024-08-23T20:49:11","slug":"ainda-a-cp-e-a-alta-velocidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/2024\/08\/23\/ainda-a-cp-e-a-alta-velocidade\/","title":{"rendered":"Ainda a CP e a alta velocidade"},"content":{"rendered":"\n<p>Regresso ao tema de um dos meus textos mais recentes motivado pela recorr\u00eancia do tema na cena medi\u00e1tica a par de uma total aus\u00eancia de novidades &#8211; singularidades.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 antes abordei o que s\u00e3o os cen\u00e1rios competitivos distintos, mas desta vez vou a jogo aproveitando a boleia do Diogo Magalh\u00e3es, que no Linkedin fez um post com perguntas simples &#8211; simplistas at\u00e9, parece-me que propositadamente &#8211; <a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/feed\/update\/urn:li:activity:7231895328776482816\/\">Publica\u00e7\u00e3o | Feed | LinkedIn<\/a>. O ponto que interpreto do post \u00e9 o de que na realidade pouco ou nada se sabe e pouco ou nada estar\u00e1 estudado para saber qual \u00e9 o dimensionamento ideal de uma frota de AV para a CP.<\/p>\n\n\n\n<p>Anteriormente n\u00e3o deixei de referir que me parece francamente pobre e at\u00e9 descabido ter esta discuss\u00e3o pensando em quotas modais, como se num mercado aberto isso tivesse qualquer sentido ou se as vari\u00e1veis fossem simples a ponto de serem monopolizadas. O ministro Pinto Luz ainda n\u00e3o corrigiu o tiro e p\u00f5e-se \u00e0 merc\u00ea do que \u00e9 outra realidade indesment\u00edvel &#8211; quando n\u00e3o \u00e9 a esquerda a governar, a imprensa \u00e9 muito r\u00e1pida a questionar as inten\u00e7\u00f5es dos pol\u00edticos e at\u00e9 a encontrar conflitos de interesses nas suas equipas, mesmo casos obviamente absurdos como o do assessor do minist\u00e9rio que era consultor na \u00e1rea &#8211; parece-me que \u00e9 antes bom recrutamento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">As perguntas<\/h2>\n\n\n\n<p>Parece evidente que uma discuss\u00e3o aprofundada sobre a frota de alta velocidade da <strong>CP tem de primeiro responder a v\u00e1rias perguntas, sendo o meu espanto a resposta n\u00e3o existir ainda <\/strong>&#8211; trata-se ou de segredo excessivo, ou de amadorismo, mas o trabalho do jornalismo \u00e9 precisamente perceber qual dos dois cen\u00e1rios se verifica.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Qual \u00e9 a matriz de servi\u00e7os interiores (em Portugal apenas) que ser\u00e1 realizada com uma maioria de kms percorridos na futura LAV Lisboa &#8211; Porto?<\/li>\n\n\n\n<li>Que ambi\u00e7\u00f5es internacionais pode \/ deve ter a CP? Como encara o mercado galego ou de Madrid?<\/li>\n\n\n\n<li>Que eventuais novas liga\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas podem surgir, por exemplo como \u00e9 sugerido numa vers\u00e3o do Plano Ferrovi\u00e1rio Nacional (coisas como servi\u00e7os Lisboa &#8211; Figueira da Foz ou Porto &#8211; Guarda, para dar dois exemplos)?<\/li>\n\n\n\n<li>Qual \u00e9 a probabilidade de comboios t\u00e3o complexos como os pendulares poderem ter uma vida \u00fatil prolongada para l\u00e1 de 2030?<\/li>\n\n\n\n<li>Como ser\u00e3o os Intercidades p\u00f3s-2030?<\/li>\n\n\n\n<li>Qual \u00e9 o custo de uniformizar uma frota de longo curso em torno de comboios aptos a 300 vs o custo de uma frota mais segmentada e mais adaptada eixo a eixo?<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">N\u00e3o se pode pensar parcelarmente<\/h2>\n\n\n\n<p>S\u00e3o conhecidas as dificuldades da CP para pensar o seu pr\u00f3prio futuro &#8211; a excessiva interfer\u00eancia pol\u00edtica, o seu estatuto equivalente a uma reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica, a dificuldade de atrair quadros executivos para a gest\u00e3o da empresa e &#8211; h\u00e1 que ser franco &#8211; muitos v\u00edcios que a empresa tem e que a impedem de querer ser uma empresa normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas <strong>nada disto pode ser desculpa para que n\u00e3o se defina uma estrat\u00e9gia<\/strong> &#8211; como j\u00e1 anteriormente disse, a alta velocidade vai abrir uma realidade totalmente nova nos caminhos de ferro em Portugal, e ser\u00e1 louco quem pensar que a CP estar\u00e1 preparada para o desafio se quiser agarr\u00e1-lo sem especiais adapta\u00e7\u00f5es. J\u00e1 o disse antes e volto a sublinhar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que est\u00e1 em causa na compra de comboios de alta velocidade n\u00e3o \u00e9 o mero servi\u00e7o \u00e0 LAV Lisboa &#8211; Porto<\/strong>. Antes, o que est\u00e1 em causa \u00e9 como \u00e9 que a CP v\u00ea o seu futuro nas liga\u00e7\u00f5es de m\u00e9dia e longa dist\u00e2ncia, dentro e fora de portas. Intercidades, Alfa Pendular, &#8220;TGV&#8221; e eventuais novas liga\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas fazem todas parte da mesma equa\u00e7\u00e3o, e uma das ang\u00fastias que a discuss\u00e3o me tem dado \u00e9 ver que praticamente ningu\u00e9m olha para l\u00e1 do imediato. \u00c9 certo, h\u00e1 uma urg\u00eancia para comprar comboios (onde \u00e9 que andou essa urg\u00eancia nos \u00faltimos anos?), mas <strong>\u00e9 tamb\u00e9m relevante sabermos se a urg\u00eancia est\u00e1 ou n\u00e3o acompanhada de bom trabalho preparat\u00f3rio do novo neg\u00f3cio<\/strong>, ou se nesta altura ainda nem essa base existe.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, <strong>querer ir a Madrid levanta o tema da necessidade de comboios bi-bitola<\/strong> &#8211; logo aqui h\u00e1 uma an\u00e1lise custo-benef\u00edcio a fazer: quer a CP uma \u00fanica frota de comboios bi-bitola, ou vai segmentar a frota com uma pequena frota apta a Madrid e o resto apta apenas a territ\u00f3rio nacional + Galiza?<\/p>\n\n\n\n<p>Ir \u00e0 <strong>Galiza<\/strong> levanta v\u00e1rias outras quest\u00f5es, independentemente de existir ou n\u00e3o a LAV Braga &#8211; Valen\u00e7a:<strong> a CP v\u00ea procura para que esse eixo seja uma continua\u00e7\u00e3o regular dos comboios Lisboa &#8211; Porto ao longo do dia, ou v\u00ea vantagem em partir o servi\u00e7o no Porto<\/strong>? Via Braga ou via Viana, existe mercado para ambos? Vale a pena comprar comboios de alta velocidade pura (300 km\/h) para irem na linha do Minho e comprar uma \u00fanica s\u00e9rie (com mais unidades), ou vale a pena segmentar a frota para se adaptar melhor \u00e0 infraestrutura e baixar custos por outra via?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os servi\u00e7os Intercidades aproveitando a LAV ser\u00e3o feitos com locomotiva e carruagem ou ser\u00e3o feitos com automotoras como os comboios pendulares<\/strong>? No primeiro caso, a CP est\u00e1 a projectar alguma evolu\u00e7\u00e3o do material circulante convencional (por exemplo olhando aos exemplos austr\u00edacos com os Railjet que percorrem algumas LAV) ou acredita que o actual parque de carruagens pode durar mais 20 ou 30 anos? S\u00f3 neste \u00faltimo caso \u00e9 que faz sentido n\u00e3o olhar para o parque de carruagens nesta altura. E no caso dos comboios pendulares, conhecendo-se a sua complexidade e custos de manuten\u00e7\u00e3o elevados, at\u00e9 pela compara\u00e7\u00e3o com o resto da Europa onde este tipo de comboios sempre teve uma vida \u00fatil relativamente curta, \u00e9 poss\u00edvel pensar que \u00e9 prov\u00e1vel que eles continuem em servi\u00e7o com baixos custos de opera\u00e7\u00e3o para l\u00e1 de 2030, para servir eixos Intercidades actuais ou novos que se venham a criar?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vai a CP apostar numa l\u00f3gica de servi\u00e7o<\/strong> como a defendida no plano ferrovi\u00e1rio nacional no horizonte 2030? Ou seja, <strong>frequ\u00eancias m\u00ednimas de duas horas para os Intercidades<\/strong>, opera\u00e7\u00e3o de eixos &#8220;curtos&#8221; como Lisboa &#8211; Figueira da Foz (at\u00e9 para melhor servir Leiria, nova centralidade do pa\u00eds), ou v\u00ea uma simples continuidade dos servi\u00e7os pontuais ao longo do dia? O segundo caso praticamente fecha o caso da continua\u00e7\u00e3o do modelo de opera\u00e7\u00e3o com carruagens, mas faz j\u00e1 pensar no que \u00e9 o seu futuro. O primeiro abre a porta \u00e0s automotoras, <strong>podendo ser invi\u00e1vel operar tudo com apenas 9 comboios pendulares<\/strong>, mesmo que se considere que \u00e9 prov\u00e1vel que eles estejam em bom estado no horizonte 2030.<\/p>\n\n\n\n<p>E para Sul, como ser\u00e1? Justifica-se que os comboios de alta velocidade sejam usados em 300 ou 400 kms de vias convencionais para conseguir continuidade desde o Norte do pa\u00eds sem transbordo em Lisboa, ou \u00e9 melhor uma frota mais reduzida na alta velocidade e comboios mais adaptados (baratos) para viajar para Sul?<strong> Est\u00e3o feitas as contas ao balan\u00e7o entre ganhar escala na frota, custos unit\u00e1rios de aquisi\u00e7\u00e3o, custos de opera\u00e7\u00e3o, capacidade por comboio e por a\u00ed fora?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quantos comboios, afinal?<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Eu tenho a maior dificuldade de definir o que pode ser a quantidade ideal para a CP<\/strong>. E parece que a empresa tamb\u00e9m, pois j\u00e1 andou entre 12 e 16, com previs\u00e3o de op\u00e7\u00f5es adicionais para confirmar no futuro. <strong>A CP seria quem mais interesse teria em divulgar algumas pinceladas do plano de neg\u00f3cio<\/strong> que necessariamente nesta altura j\u00e1 tem de ter para entrar alta velocidade, mas apenas temos ouvido falar de n\u00famero de composi\u00e7\u00f5es, o que levanta d\u00favidas bastante razo\u00e1veis sobre o grau de planeamento da nova realidade. <strong>Do lado do Governo, tamb\u00e9m n\u00e3o ouvimos <\/strong>com o anterior governo e n\u00e3o ouvimos ainda com este <strong>se existem recomenda\u00e7\u00f5es do accionista para a sua empresa tutelada<\/strong>, se est\u00e1 confort\u00e1vel com a actividade de planeamento da CP ou n\u00e3o, se conhece um plano de neg\u00f3cios concreto. <strong>Como ningu\u00e9m diz nada<\/strong>, e como dizer alguma coisa teria um proveito \u00f3bvio \u00e0s institui\u00e7\u00f5es aqui em causa, <strong>\u00e9 bastante veros\u00edmil assumir que n\u00e3o existe nada de hol\u00edstico e economicamente sustentado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Assim sendo, parece \u00f3bvio que \u00e9 preciso atalhar caminho.<strong> Por um lado, exigir um plano de neg\u00f3cio digno desse nome<\/strong> &#8211; com estudos de mercado, com hip\u00f3teses operacionais e comerciais em cima da mesa, com estudo tamb\u00e9m do mercado de fornecimento dos comboios, com compara\u00e7\u00e3o com opera\u00e7\u00f5es de empresas com objectivos similares por essa Europa fora e que integre as v\u00e1rias dimens\u00f5es do Longo Curso da empresa. O chatGPT ajuda muito a definir o que \u00e9 que integra um plano de neg\u00f3cio, que ter\u00e1 necessariamente de se debru\u00e7ar sobre o financiamento, fluxos de caixa e por a\u00ed fora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por outro lado, \u00e9 mais ou menos \u00f3bvio que h\u00e1 um limite m\u00ednimo de n\u00famero de comboios que a CP ter\u00e1 sempre necessidade.<\/strong> Como o atraso deste processo j\u00e1 \u00e9 \u00f3bvio, eu se estivesse em posi\u00e7\u00e3o de decis\u00e3o consensualizaria um n\u00famero m\u00ednimo de unidades e iniciava concurso imediato. Colocaria v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es por comboios adicionais calendarizadas no tempo, associadas \u00e0 adjudica\u00e7\u00e3o a realizar, com a condi\u00e7\u00e3o de s\u00f3 poderem ser confirmadas ap\u00f3s entrega e valida\u00e7\u00e3o dos planos de neg\u00f3cio que sustentem a amplia\u00e7\u00e3o da frota.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo o caso, <strong>o dimensionamento da frota de AV relaciona-se com uma obriga\u00e7\u00e3o que a CP tem<\/strong> e que refor\u00e7o para fechar o artigo &#8211; a empresa tem <strong>de pensar toda a sua estrat\u00e9gia para o Longo Curso<\/strong>, para toda a frota que o serve, e os comboios para a LAV Lisboa &#8211; Porto s\u00e3o apenas o ponto inicial dessa discuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Independentemente da op\u00e7\u00e3o mais vantajosa serem mais ou menos comboios, <strong>a CP tem rapidamente que se dotar de uma vis\u00e3o s\u00f3lida sobre onde quer estar em 2030 e com que capacidades<\/strong>. E esta \u00e9 a discuss\u00e3o mais importante para a viabilidade futura da empresa, surpreendendo-me que quem mais defende dogmaticamente uma CP p\u00fablica e controlada politicamente \u00e9 quem menos pressiona para que a empresa fa\u00e7a o \u00f3bvio na prepara\u00e7\u00e3o desse caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Falar do n\u00famero de comboios ou da quota de mercado, sem mais nada a acompanhar, \u00e9 como tentar servir um gelado sem um cone ou um copo por baixo. A bola de gelado aterra no ch\u00e3o e derrete.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Regresso ao tema de um dos meus textos mais recentes motivado pela recorr\u00eancia do tema na cena medi\u00e1tica a par de uma total aus\u00eancia de novidades &#8211; singularidades. 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