{"id":858,"date":"2026-02-11T14:31:21","date_gmt":"2026-02-11T13:31:21","guid":{"rendered":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/?p=858"},"modified":"2026-02-11T14:35:01","modified_gmt":"2026-02-11T13:35:01","slug":"infraestrutura-nao-sabe-nadar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/2026\/02\/11\/infraestrutura-nao-sabe-nadar\/","title":{"rendered":"Infraestrutura n\u00e3o sabe nadar"},"content":{"rendered":"\n<p>Estamos na <strong>terceira semana consecutiva de enormes restri\u00e7\u00f5es ao tr\u00e1fego ferrovi\u00e1rio em Portugal<\/strong>, a maior parte deste tempo com impedimento total de circula\u00e7\u00e3o na linha do Norte, Oeste e Douro, a que se somam repetidos eventos em linhas por todo o pa\u00eds &#8211; do Minho ao Algarve, do Sul a Sintra, de Vendas Novas \u00e0s Beiras, passando at\u00e9 pela linha do Leste.<\/p>\n\n\n\n<p>O ministro Pinto Luz determinou j\u00e1 que o LNEC fa\u00e7a uma avalia\u00e7\u00e3o da robustez das nossas redes de infraestruturas, tendo-se mostrado publicamente inquieto com t\u00e3o grande grau de impacto e com tantos constrangimentos de circula\u00e7\u00e3o, que em muitos casos (todos?) v\u00e3o passar uma factura econ\u00f3mica muito pesada e provavelmente inquantific\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>O que vivemos \u00e9 um per\u00edodo excepcional &#8211; eu n\u00e3o me lembro de semelhante sucess\u00e3o de tempestades e acima de tudo de t\u00e3o grande persist\u00eancia de chuvas intensas, o que no caso presente tem provocado desde inunda\u00e7\u00f5es a quedas de barreiras um pouco por todo o lado, com os impactos j\u00e1 mencionados. <strong>Mas a excepcionalidade do evento n\u00e3o desculpar\u00e1 tudo,<\/strong> at\u00e9 porque h\u00e1 d\u00e9cadas falamos da import\u00e2ncia de preparar as nossas infraestruturas para eventos atmosf\u00e9ricos cada vez mais intensos e repetidos. O que foi de facto feito at\u00e9 agora?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Falta de investimento<\/h2>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 mais uma oportunidade para nos convencermos do que dizem os factos &#8211; Portugal (como outros pa\u00edses europeus) n\u00e3o gasta hoje em termos compar\u00e1veis o que j\u00e1 gastou com infraestruturas. Em vez disso, <strong>o investimento p\u00fablico \u00e9 hoje uma grande mola de amortecimento,<\/strong> cada vez mais comprimida e em sentido \u00fanico, <strong>para permitir a expans\u00e3o dos gastos sociais do Estado<\/strong>, com pens\u00f5es \u00e0 cabe\u00e7a, numa sociedade que n\u00e3o quer reformar os seus modelos de financiamento e que, com a pir\u00e2mide demogr\u00e1fica que temos, caminha inevitavelmente para a inviabilidade financeira pura e simples. Essa s\u00f3 n\u00e3o chegou ainda porque temos diminu\u00eddo o esfor\u00e7o relativo em infraestruturas (e outras coisas) para pagar essa factura.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas a factura chega sempre, tarde ou cedo<\/strong>. Um pa\u00eds em que infraestruturas falhem 5, 10, 15 ou 30 dias por ano reduz em grande medida o potencial econ\u00f3mico do pa\u00eds. O que diminuir\u00e1 a capacidade de financiar os gastos sociais, sempre em expans\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A falta de investimento v\u00ea-se mais no que n\u00e3o foi feito do que no que foi feito<\/strong>. \u00c9 entend\u00edvel mais no \u00e2mbito n\u00e3o acrescentado a projectos de renova\u00e7\u00e3o, do que \u00e0 mera leitura dos n\u00fameros do investimento realmente realizado. Quando se renova e electrifica a linha do Minho, mas se mant\u00e9m o tra\u00e7ado por zonas de maior instabilidade geol\u00f3gica e onde nem sequer \u00e9 feita uma limpeza real de \u00e1rvores nas proximidades, \u00e9 natural que seja uma linha a sofrer constantemente em dias de temporal, com \u00e1rvores a provocar disjun\u00e7\u00f5es na caten\u00e1ria ou barreiras a cair em locais \u00f3bvios.<\/p>\n\n\n\n<p>Na linha do Norte nem se pode dizer que Alfarelos e as suas inunda\u00e7\u00f5es sejam uma surpresa &#8211; s\u00e3o quase anuais, ou pelo menos repetem-se em todos os anos onde a chuva aparece com mais vigor, e nem precisamos de ter eventos extremos como os deste ano. A<strong> IP bem quis renovar a linha nesta zona com um plano que inclu\u00eda altear a cota da via<\/strong>, para obviar as hist\u00f3ricas e recorrentes inunda\u00e7\u00f5es que ali existem, <strong>mas o governo anterior preferiu antes adjudicar uma renova\u00e7\u00e3o &#8220;low cost&#8221;, excluindo este \u00e2mbito do projecto<\/strong>, e portanto garantindo que continuamos a cortar a principal linha do pa\u00eds, e aquela sobre a qual rebatem todas as outras. S\u00f3 este ano vamos quase em 3 semanas de corte de tr\u00e1fego, um custo econ\u00f3mico desastroso e impens\u00e1vel numa economia avan\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>Podia continuar por a\u00ed fora, mencionando a renova\u00e7\u00e3o da Beira Baixa que em nada impediu as constantes quedas de barreiras nestes dias ou at\u00e9 o Oeste, ainda em renova\u00e7\u00e3o e que est\u00e1 condenado agora a nove meses de interdi\u00e7\u00e3o para reconstru\u00e7\u00e3o e onde inunda\u00e7\u00f5es na Malveira tamb\u00e9m passaram a acontecer, uma novidade que j\u00e1 se tornou recorrente p\u00f3s-renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio disto tudo, devo destacar que a linha da Beira Alta sempre foi ultra-problem\u00e1tica em dias complicados e no meio desta crise tem-se safado com pontuais incidentes rapidamente resolvidos mas genericamente sempre dispon\u00edvel. <strong>A renova\u00e7\u00e3o ali n\u00e3o resolveu problemas de competitividade mas claramente passou j\u00e1 o teste da disponibilidade. \u00c9 um caminho a seguir.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que se pode fazer no imediato<\/h2>\n\n\n\n<p>As escolhas pol\u00edticas neste campo dificilmente produzem resultados imediatos, mas ainda assim o vis\u00edvel esp\u00edrito pragm\u00e1tico de Pinto Luz tem algumas op\u00e7\u00f5es em cima da mesa, \u00e0 dist\u00e2ncia de pouco tempo, para come\u00e7ar a resolver alguns problemas. Em alguns casos, <strong>resolver problemas existentes, noutros casos criando redund\u00e2ncias que s\u00e3o fundamentais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde logo, existindo um projecto para resolver o grande problema de resili\u00eancia da rede que \u00e9 a passagem pelo baixo Mondego, em <strong>Alfarelos<\/strong>, <strong>o governo deve de imediato mandatar a IP para a sua execu\u00e7\u00e3o<\/strong>, atribuindo verba generosa desde j\u00e1 para que a IP possa actualizar projecto e seguir para constru\u00e7\u00e3o. <strong>Sugiro tamb\u00e9m que seja promovida a excepcionalidade desta interven\u00e7\u00e3o e seja permitida contrata\u00e7\u00e3o r\u00e1pida das obras <\/strong>&#8211; isso possibilitaria j\u00e1 ter eliminado o risco de inunda\u00e7\u00e3o na zona para o inverno de 2028 &#8211; mesmo assim falamos de j\u00e1 n\u00e3o evitar o inverno de 2027.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No campo das alternativas, \u00e9 fundamental avan\u00e7ar para a reabertura<\/strong>, mesmo que com velocidade autorizada reduzida, <strong>do tro\u00e7o Beja &#8211; Ourique.<\/strong> Percorre terrenos f\u00e1ceis e pouco sujeitos a problemas de outras linhas &#8211; como a do Sul &#8211; e \u00e9 uma redund\u00e2ncia fundamental. Ser\u00e1 muito utilizada? Provavelmente n\u00e3o. Mas volt\u00e1mos a ter o porto de Sines isolado durante alguns dias, meses depois de isso ter acontecido por outro deslizamento de plataforma ferrovi\u00e1ria em Canal Caveira. <strong>Se tivermos um azar maior, ficamos sem capacidade de escoar o porto de Sines?<\/strong> Quem pagar\u00e1 sal\u00e1rios nesta economia nesse cen\u00e1rio?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cascais precisa urgentemente de avan\u00e7ar a linha de costa<\/strong> &#8211; a situa\u00e7\u00e3o entre Alg\u00e9s e Cruz Quebrada com a derrocada parcial do passeio mar\u00edtimo deixou a linha \u00e0 merc\u00ea do rio \/ mar e ao dia de hoje nem se sabe ainda se se vai conseguir voltar a circular em duas vias nas pr\u00f3ximas semanas na que \u00e9 a segunda linha do pa\u00eds em volume de tr\u00e1fego &#8211; impens\u00e1vel!<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">N\u00e3o h\u00e1 longo prazo sem dinheiro<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>J\u00e1 h\u00e1 uns anos aqui escrevi que o caminho de ferro sem uma extensa e est\u00e1vel aloca\u00e7\u00e3o de meios para investimento, tender\u00e1 a morrer.<\/strong> O colapso gradual em momentos de intemp\u00e9rie impacta significativamente o potencial econ\u00f3mico do pa\u00eds por conta da redu\u00e7\u00e3o da pertin\u00eancia social do meio de transporte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O pa\u00eds continua a caminhar numa direc\u00e7\u00e3o em que a fatia de gastos regulares aumenta sempre e o investimento cai. <\/strong>Por muito que queiramos ser a madre Teresa de Calcut\u00e1 e desejar que as pens\u00f5es subam sempre e restantes apoios sociais cheguem at\u00e9 ao para\u00edso, a realidade \u00e9 que se n\u00e3o produzirmos e se n\u00f3s todos n\u00e3o conseguirmos viver com facilidade, n\u00e3o vamos gerar meios financeiros para continuar a pag\u00e1-los, portanto isto n\u00e3o \u00e9 se quer um assunto onde tenhamos op\u00e7\u00f5es &#8211; a \u00fanica op\u00e7\u00e3o \u00e9 se a queremos encarar ou n\u00e3o, at\u00e9 ao dia.<\/p>\n\n\n\n<p>O LNEC vai seguramente fazer um diagn\u00f3stico de fragilidades. A IP tem em curso h\u00e1 algum tempo, parte do PNI 2030, estudos sobre resili\u00eancia da rede que supostamente deviam conduzir a investimentos a executar at\u00e9 2030, mas j\u00e1 estamos em 2026 e portanto seguramente n\u00e3o acontecer\u00e3o j\u00e1 neste calend\u00e1rio. Mas \u00e9 muito disso que estaremos a falar &#8211; <strong>investir pesadamente. <\/strong>Novos tra\u00e7ados por zonas menos sujeitas a problemas ou menos indutores de desgaste das pr\u00f3prias circula\u00e7\u00f5es, falamos de limpar e vedar muito mais quil\u00f3metros \u00e0 volta das vias para que meras \u00e1rvores n\u00e3o impe\u00e7am a circula\u00e7\u00e3o dias a fio todos os anos, falamos tamb\u00e9m de duplica\u00e7\u00e3o de vias para melhor escoar tr\u00e1fego e contar com redund\u00e2ncias quando aqui ou ali o balastro for arrastado pela \u00e1gua. E falamos de habilitar tra\u00e7ados alternativos, sem margem para d\u00favidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Se alguma coisa verdadeiramente importante acontecer\u00e1 mantendo o actual estado de coisas, com fluxos de investimento decididos sempre pontualmente e sujeitos \u00e0 mercearia or\u00e7amental de cada ano, parece-me \u00f3bvio que n\u00e3o. <strong>H\u00e1 uns anos calculei em 0,5% do PIB como o esfor\u00e7o or\u00e7amental anual para reabilitar e expandir a nossa rede ferrovi\u00e1ria <\/strong>em linha com o plano ferrovi\u00e1rio nacional. Nunca nos aproxim\u00e1mos sequer disso &#8211; <strong>o esfor\u00e7o or\u00e7amental l\u00edquido do Estado raramente alcan\u00e7a sequer 0,1%. <\/strong>Juntando nesta equa\u00e7\u00e3o um real investimento em resili\u00eancia e em garantir que uma infraestrutura \u00e9 especialmente robusta e n\u00e3o fecha a cada evento climat\u00e9rico, provavelmente acrescenta mais 0,1 ou 0,2% de necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 importante referir que mesmo 0,6 ou 0,7% do PIB em investimento or\u00e7amental nos caminhos de ferro deixaria o investimento p\u00fablico nacional ainda bem longe das percentagens que j\u00e1 representou no passado<\/strong>, o que significa em termos macro que o pa\u00eds vai continuar a apostar menos no aumento do seu potencial econ\u00f3mico e social do que no passado. <strong>Nada do que estamos a ver acontecer diante dos nossos olhos se pode desligar desta op\u00e7\u00e3o estrutural do pa\u00eds por preferir distribuir o que n\u00e3o tem em vez de investir para aumentar o bolo.<\/strong> Falemos de estradas em ru\u00ednas, caminhos de ferro inundados, fragatas desarmadas ou F16s alvo do mau tempo &#8211; a causa est\u00e1 sempre aqui e como sociedade n\u00e3o estamos a querer mudar.<\/p>\n\n\n\n<p>PS: Sim, sei que ao dia de hoje mesmo que se pusesse o dinheiro n\u00e3o h\u00e1 quem o execute no terreno. Mas sem garantir uma subida real e &#8220;para sempre&#8221; da fatia do investimento, ningu\u00e9m no seu perfeito ju\u00edzo investir\u00e1 para aumentar meios humanos e tecnol\u00f3gicos em Portugal para concorrer \u00e0s obras p\u00fablicas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos na terceira semana consecutiva de enormes restri\u00e7\u00f5es ao tr\u00e1fego ferrovi\u00e1rio em Portugal, a maior parte deste tempo com impedimento total de circula\u00e7\u00e3o na linha do Norte, Oeste e Douro, a que se somam repetidos eventos em linhas por todo o pa\u00eds &#8211; do Minho ao Algarve, do Sul a Sintra, de Vendas Novas \u00e0s&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":859,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[29],"tags":[88],"class_list":["post-858","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politicas-publicas","tag-resiliencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/858","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=858"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/858\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":862,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/858\/revisions\/862"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/859"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=858"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=858"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portugalferroviario.net\/politicas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=858"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}