Mais um passo rumo à linha de alta velocidade Lisboa – Porto

Esta semana voltou a ser notícia a interessantíssima “guerra” que CP e transportadoras aéreas travam por estes dias no eixo Lisboa – Porto. A companha ferroviária vai avançar com promoções bombásticas ao melhor estilo da congénere espanhola Renfe – 65% de redução nos comboios de longo curso de Norte a Sul do país, 11.000 lugares por semana.

Na minha opinião, e já o escrevi, esta luta entre comboios e aviões só vem mostrar a muitos incrédulos a pertinência da alta velocidade em Portugal. Não é pela alta velocidade em si, mas sim pela necessidade de podermos ter no nosso país um eixo Lisboa – Porto reservado a comboios de altas prestações onde, circulando composições de marcha mais homogénea, se possa multiplicar capacidade para acolher um mercado em franca expansão.

Note-se que o transporte aéreo fluoresce numa altura em que o Longo Curso da CP não perde tracção. Pelo contrário, continua a somar impressionantes ganhos de passageiros e está também a mudar os seus clientes – hoje, as compras antecipadas ganham terreno e só em 2015 somaram um crescimento de dois dígitos face a 2014.

Quanto mais a concorrência apertar mais pertinente será a construção de uma nova linha entre as duas cidades. Quanto mais apertar, mais público virá para os transportes públicos. Os aviões, por natureza muito mais caros que os comboios (e isto aplica-se também à Ryanair), não conseguirão nunca rivalizar com os custos que os comboios apresentam, capazes de absorver mais procura a um custo médio muito inferior.

Nestas discussões há habitualmente conceitos pré-concebidos no sectarismo partidário do nosso sistema político, mas não deixa de ser interessante perceber que quem habitualmente se opõe à construção de uma nova linha é quem habitualmente é favorável à privatização da CP Longo Curso (pelo menos esta). Em sentido inverso, quem habitualmente se mostra tão expansionista nas infraestruturas é quem está convencido que este tipo de operações devem ser apenas públicas.

Na minha opinião, uma privatização da CP Longo Curso terminará rapidamente com uma grande pressão para a construção da nova linha pois mais rapidamente serão testados os limites da fiabilidade, regularidade e competitividade da pouca capacidade existente nos dias de hoje.

Quero com isto dizer fundamentalmente que não devemos ter os olhos fechados para nenhuma opção. Já defendi e reforço que é muito pouco racional que em 2016 esteja a surgir uma ponte aérea para uma distância tão pequena como 300 quilómetros. Este facto devia desde logo levar-nos a raciocinar e até a motivar maior encontro entre os diversos meios de transportes, que é um tema muito comentado por essa Europa fora.

Porque não trazer a TAP ou outros operadores interessados para a operação ferroviária? É muito mais barato, cómodo e fácil de organizar uma ponte ferroviária do que uma ponte aérea, e a primeira pode na mesma rebater para as ligações aéreas de maior distância. Ao mesmo tempo que se fixa uma operação ferroviária mais regular, frequente e barata que a alternativa aérea, abrange-se directamente muito mais população do que qualquer um dos dois aeroportos alcança, ajudando por isso a facilitar a atracção pelo transporte aéreo de um público potencial maior.

Cada vez que a “guerra” comboios – aviões se agudiza no eixo Lisboa – Porto, mais pertinência económica e social tem a realização de uma nova linha Lisboa – Porto. Quanto mais operadores privados estiverem a olhar para este mercado, mais perto estaremos dessa inevitabilidade ultrapassar os profundos dogmas que impedem tantos de constatar a absoluta necessidade que existe em Portugal de contar com mais quatro carris entre Lisboa e o Porto.

Além das dimensões diretamente relacionadas com a atractividade do modo ferroviário, a capacidade é também um elemento que tem de ir a jogo. Quanto mais oferta existir neste eixo, mais a linha de alta velocidade se irá impor com toda a naturalidade.

João Cunha

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