trainmaniac 04/11/2018

A preservação ferroviária em Portugal não está num patamar estratosférico mas, ainda assim, está bastante melhor do que alguma vez esteve. A luta institucional de décadas permite hoje olhar para os desafios a partir de ângulos bem mais favoráveis e, acima de tudo, abre alas para a sociedade civil desempenhar o que é também uma obrigação sua.

Num país altamente estatizado – sem dúvida um reflexo que permanece da provinciana ditadura que por cá tivemos – a sociedade portuguesa tem défices de mobilização para projectos verdadeiramente colectivos, filantrópicos e sem fins lucrativos. Se isto é verdade genericamente falando, no meio ferroviário é especialmente crítico, muito possivelmente por ser um sector fechado sobre si durante muitas décadas e onde a presença do Estado era (e ainda é) mais profunda.

A abertura do Museu Nacional Ferroviário em 2015, no Entroncamento, mostrou que em Portugal, apesar das dificuldades e da demora, germinou um Museu Ferroviário que nos aproxima claramente da dianteira na Europa, ultrapassando velozmente alguns museus de renome e tantas vezes citados no passado, por cá. Apesar das insuficiências institucionais que permanecem, o trabalho e a simples existência da Fundação do Museu Nacional Ferroviário criaram espaço em Portugal para o reconhecimento e valorização do património ferroviário enquanto activos culturais e sociais que valem por si, permitindo negar relativismos que no passado influenciaram negativamente decisões sobre material circulante e sobre imóveis.

É precisamente neste ponto que se abre hoje a oportunidade da sociedade civil desempenhar um papel que é seu e só seu, comum a tantos museus industriais por essa Europa fora e, em especial, aqueles que têm colecções vivas. Sim, é difícil imaginar este tipo de museus, com peças funcionais, sem a contribuição permanente da sociedade civil. Vejo como um paradoxo que no nosso país quanto mais se critica a falta de peças funcionais, menor empenho haja em agir decisivamente para tal.

Temos mostrado, na APAC, ser possível reunir pessoas para colaborarem na recuperação e valorização da colecção do Museu Nacional Ferroviário. O restauro visual da Nohab 0111 é a primeira fase, imprescindível, de um trabalho que poderá um dia culminar no seu regresso aos carris da rede ferroviária nacional. E se é verdade que esta automotora podia até já ter sido recuperada pelo Museu, não é menos verdade que é obrigação da sociedade disponibilizar meios para melhorar o estado da colecção entregue à Fundação. Em Portugal, fundamentalmente pela falta de capital que genericamente é sintomático em todos os sectores da nossa economia, será pouco crível que possamos ter associações proprietárias de material circulante. Mas não há desculpas para, com a abertura da colecção do Museu Nacional Ferroviário, as associações não terem um papel no seu resguardo e na sua revalorização.

Do lado institucional é verdade que o Museu terá sempre de ser dotado dos meios, públicos e privados, para cumprir a missão que um Museu industrial desta dimensão persegue. Não há alternativas a isso. É também verdade que, pelo menos na minha óptica, há uma reflexão estratégica a fazer até de modo a permitir uma maior “viralização” do Museu Nacional Ferroviário na nossa sociedade, para atrair turistas, nacionais ou de fora. E é ainda mais verdade que falta dotar o Museu de espaços generosos e abrigados para albergar as reservas da sua colecção, reservas que em alguns casos são peças únicas já incorporadas ou a incorporar, ainda perdidas por localizações várias. Por fim, é verdade que é preciso parar de uma vez por todas o habitual ciclo de empobrecimento colectivo – o material circulante que se sabe um dia se destinar a Museu, é parado e abandonado vários anos até se formalizar a cedência. Quer seja por intermédio de protocolos temporários ou de outras formas, não há muitas desculpas para que hoje em dia a operação não disponibilize ao Museu activos funcionais, que possam permitir a activação de demonstrações no imediato, por exemplo.

Mas se tudo isto é verdade, é ainda mais verdade que a hora da sociedade civil chegou. Pode ser confortável limitarmo-nos a caixas de comentários ou à sarcástica missão de troll da internet, mas independentemente da disponibilidade (financeira, de tempo, etc.) de cada um dos interessados nas temáticas da preservação ferroviária, há sempre algo em concreto a fazer. Com iniciativa, se não for possível participar no restauro de um comboio, será certamente possível agrupar e consolidar informação que possa ser relevante para a equipa de restauro. Será certamente possível, na sua rede de contactos ou fora, contactar com pessoas e empresas que possam ter interesse a contribuir financeiramente para projectos específicos ou para o funcionamento, em geral, de uma instituição como o Museu Nacional Ferroviário.

Na realidade, podemos ser interessados na preservação ferroviária e ter desculpas para quase tudo. Só não há desculpa para não fazer nada.

Sugiro a visita à página do grupo de Preservação Ferroviária da APAC – estamos disponíveis para mais colaborações, no terreno ou no backoffice, para os projectos em curso ou para outros que sejam propostos. Havendo pessoas e motivação, a obra nascerá. Hoje ou amanhã.

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