A regularidade do serviço ferroviário na Linha do Oeste tem vindo a deteriorar-se cada vez mais, com atrasos sucessivos a afetarem diariamente os passageiros que utilizam esta linha. Uma análise realizada às dez circulações diárias entre os dias 20 e 30 de setembro, mostra que apenas 19 das 110 circulações chegaram ao destino dentro do horário (ou com um atraso máximo de cinco minutos), correspondendo a apenas 17,3% do total analisado.
Os restantes 91 serviços registaram atrasos superiores a cinco minutos, foram suprimidos ou não existe registo disponível. Em vários casos, os atrasos ultrapassaram largamente a hora prevista de chegada, chegando a atingir os 144 minutos de atraso, portanto, mais de 2 horas.

Autocarros de substituição condicionam o cumprimento de horários
Raro é o dia em que as circulações com origem nas Caldas da Rainha iniciam a sua marcha à hora prevista. Os comboios 801, 6451, 807, 805 e 6455 são frequentemente penalizados por atrasos logo à partida, uma vez que dependem da chegada dos autocarros de substituição que asseguram o transporte de passageiros entre Meleças e Caldas da Rainha.
Estes constrangimentos resultam do encerramento daquele troço da Linha do Oeste, na sequência dos graves danos provocados pela tempestade Kristin, que desencadeou múltiplos deslizamentos de terras, quedas de árvores e instabilizações de taludes ao longo da via férrea, comprometendo a segurança da circulação ferroviária. A intempérie expôs ainda a vulnerabilidade da infraestrutura, provocando danos significativos em diversos pontos da linha e obrigando à suspensão prolongada do tráfego ferroviário, com centenas de passageiros remetidos para um serviço rodoviário de substituição que, não raras vezes, acumula atrasos que acabam por se repercutir nos horários dos comboios.
Desta forma, um atraso que tem origem ainda antes do início da viagem, acaba por ser “transportado” para o restante percurso, dificultando a recuperação do horário ao longo da linha.
Avarias das 0450 continuam a afetar a exploração
A disponibilidade e fiabilidade do material circulante constituem, contudo, outro dos problemas evidenciados pelos acontecimentos registados durante o período analisado.
No dia 30 de setembro, o comboio 805 circulava com atraso devido a avaria no motor 1 da automotora 0468. O atraso desta circulação acabou por condicionar também o comboio 6459, devido à inexistência de estações abertas que permitissem efetuar o cruzamento entre as duas composições.
Dois dias antes, a 27 de setembro, também o comboio 805 ficou retido no Louriçal devido a avaria da unidade motora, acabando por atrasar o comboio 804 (assegurado pela mesma automotora).
Já no dia 26 de setembro, a situação foi ainda mais significativa. O comboio 801 necessitou de pedir socorro igualmente devido a avaria da automotora na estação de Monte Real, tendo sido posteriormente rebocada até ao Louriçal, estação essa onde acabaria por ficar resguardada, enquanto os passageiros prosseguiram a viagem numa UTE até Coimbra.

No mesmo dia, o comboio 6451 foi suprimido, numa altura em que apenas uma das quatro automotoras que se encontram afetas a esta linha, se encontrava operacional. Para assegurar o serviço do 802, veio de Lisboa a automotora 0457, passando assim a 5 automotoras alocadas ao depósito de Coimbra.
Estes episódios ajudam a explicar os constrangimentos que esta série tem provocado na operação, numa altura em que cinco automotoras se encontram atualmente afetas à Linha do Oeste para assegurar uma rotação que necessita de apenas duas unidades.
Infraestrutura dificulta a recuperação dos atrasos
Os problemas não se resumem, contudo, às automotoras com mais de 60 anos. A infraestrutura da Linha do Oeste, nomeadamente o facto de ser via única em grande parte do trajeto e a falta de estações abertas que permitam efetuar cruzamentos, também desempenham um papel importante na propagação dos atrasos.
No dia 30 de setembro, o atraso do 805, provocado pela avaria da 0468, é particularmente elucidativo do que foi mencionado no parágrafo anterior, uma vez que devido à ausência de estações abertas, o atraso acabou por se repercutir no 6459.
Já no dia anterior, a avaria de um comboio da Captrain, entre as estações de Amieira e Louriçal, ou seja, numa zona de via única, acabou por provocar atrasos significativos nos comboios 805, 6459, 6455 e 804.
Quando uma circulação sofre um atraso significativo num troço de via única, a falta de estações guarnecidas pode fazer com que o problema rapidamente se propague a outros comboios.
Esta situação levanta, por isso, uma questão relativamente à exploração da infraestrutura: o aumento de estações guarnecidas não poderia contribuir para uma maior capacidade de recuperação dos horários e limitar a propagação dos atrasos?
Uma linha cada vez mais condicionada
A atual situação da Linha do Oeste surge ainda num contexto particularmente difícil. Desde a passagem da tempestade Kristin, em janeiro deste ano, que o troço a sul das Caldas da Rainha permanece encerrado à exploração, obrigando à manutenção de um serviço rodoviário de substituição.
Ao mesmo tempo, o encerramento deste troço significa que parte da atual necessidade material circulante é inferior à que existiria com a linha integralmente aberta. Esta circunstância ocorre numa altura em que a CP enfrenta problemas de disponibilidade das automotoras da série 0450, sendo necessário manter várias unidades alocadas a um depósito para assegurar uma rotação reduzida.
Nem a imagem do serviço escapa à degradação
Os problemas da Linha do Oeste não se ficam, contudo, pelos atrasos e pelas avarias. Também o estado de conservação do material circulante utilizado nesta ligação merece atenção. Atualmente, nenhuma das cinco automotoras da série 0450 se encontra livre de grafittis, encontrando-se inclusive algumas delas grafitadas em toda à sua extensão.
A situação contrasta com um objetivo assumido pela CP há poucos anos. Em 2019, o então presidente da empresa, Nuno Freitas, defendia a necessidade de “fazer bem as coisas simples”, resumindo esse objetivo na ideia de que “O comboio aparece, aparece a horas e aparece limpo.” Na mesma altura, o responsável referia que a CP tinha conseguido melhorar a limpeza dos comboios e reduzir o número de composições grafitadas.
Volvidos alguns anos, e olhando para a realidade atualmente visível na Linha do Oeste, a diferença é evidente. O comboio aparece? Nem sempre. Aparece a horas? Os dados analisados mostram que, entre os dias 20 e 30 de setembro, apenas 19 das 110 circulações cumpriram o critério de pontualidade definido nesta análise. E aparece limpo? Atualmente, nenhuma das cinco automotoras 0450 em serviço nesta linha escapa ao grafities.

A questão que se coloca é, por isso, inevitável: o que aconteceu ao objetivo de que o comboio aparece, aparece a horas e aparece limpo?
Que serviço está a ser prestado aos passageiros?
Os números analisados são particularmente expressivos: em 110 circulações acompanhadas ao longo de 11 dias, apenas 19 chegaram ao destino dentro do horário previsto ou no máximo, com um atraso de cinco minutos.
Mais do que episódios pontuais, os dados mostram uma sucessão de atrasos provocados por diferentes fatores, desde avarias do material circulante, atrasos dos autocarros de substituição e condicionamentos da própria infraestrutura.
Para quem utiliza diariamente a Linha do Oeste, o problema ultrapassa naturalmente a questão estatística. A previsibilidade do tempo de viagem é fundamental para quem depende do comboio para chegar ao trabalho, à escola ou a outros compromissos, e uma sucessão de atrasos desta dimensão acaba por colocar em causa a qualidade do serviço disponbilizado às populações servidas por esta linha.
A recuperação do nível de confiança da Linha do Oeste exigirá, por isso, não apenas a reposição da circulação no troço atualmente encerrado, mas também material circulante fiável, uma manutenção capaz de minimizar imobilizações e uma infraestrutura que permita uma gestão mais flexível das circulações, reduzindo a propagação dos atrasos.
Os dados recolhidos entre os dias 20 e 30 de setembro deixam, assim, uma questão que dificilmente pode ser ignorada: é este o nível de serviço que se pretende oferecer aos passageiros da Linha do Oeste?
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