A incerteza num setor com dúvidas

Vivemos tempos de incerteza. É um chavão tantas vezes usado que quase sempre carece do sentido objetivo que tem hoje em dia. E o setor ferroviário, que tantas vezes fica à margem dos tempos de bonança que sopram, de tempos a tempos, na sociedade portuguesa, partilha sempre solidariamente os momentos de maior dúvida.

Precisamente numa altura em que a Comissão Europeia abriu um novo concurso para candidaturas a fundos destinados a transportes, Portugal não tem Governo e até ter um em plenitude de funções e já devidamente familiarizado com os dossiers, o prazo dado pela comissão pode expirar.

Este pacote é um dos últimos a que Portugal aspira por via do seu estatuto de país elegível para fundos de coesão, e por isso potencial candidato a mais de dois terços do total de financiamento disponibilizado pela União Europeia. Perdê-lo, quando há tanto para fazer numa ferrovia tão vetusta como a nossa, será provavelmente perder o mais decisivo comboio do desenvolvimento das próximas décadas.

Tem de haver um tempo de análise e outro de decisão. E se decisões destas condicionam ou projetam as próximas décadas, não faz sentido que continuem presas a ciclos eleitorais. Ainda não está sequer indigitado, e já vemos o principal candidato a primeiro-ministro a prometer a revisão do PETI3+, quando o seu programa sufragado nas eleições defendia a sua imediata execução.

Não me interpretem mal. Seria capaz de produzir as mesmas linhas com reparos ao PETI3+, muitos deles semelhantes aos que mereceu por parte de várias instituições que formalmente responderam à discussão pública. O nível de investimento previsto será sempre muito inferior ao exigível e o projeto porventura mais importante não aparece minimamente definido – o corredor Aveiro – Salamanca. Mas independentemente das nossas discordâncias, tem de haver um tempo em que o país, como um todo, avança ou não avança por algo que tem de ser um desígnio nacional.

É necessária uma nova tutela rapidamente em funções pois há outros assuntos importantes a fechar. A CP precisa de uma decisão urgente para reforçar a sua frota de Longo Curso, publicamente pedida pelo presidente da CP Manuel Queiró, e precisa também de saber o que fazer, finalmente, com a Linha de Cascais e a sua problemática frota de material circulante.

Até quando se entreterão os senhores deputados com jogos políticos para evitar que se resolvam problemas concretos da nossa economia e das nossas populações?

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