A TAP e a Alta Velocidade

Tudo o que envolve a TAP tem estado na ordem do dia – no sector dos transportes será, provavelmente, “O” assunto. Por estes dias, a renovação comercial da companhia despertou em mim a necessidade de falar sobre alta velocidade em Portugal.

Uma das grandes novidades da companhia (a manter-se privada) é a aposta em ligações de hora a hora entre Lisboa e o Porto – uma ponte aérea nunca vista entre as duas cidades. Serão ao todo 16 ligações diárias com um custo mínimo de 39€. Não é bizarro que um accionista privado que pensava que o grande potencial de receita da TAP era a sua rede transcontinental de repente vir reforçar a este ponto ligações domésticas habitualmente sem expressão no nosso país?

A meu ver, está na hora de retomar o assunto da Alta Velocidade. Não é possível, a coberto de dogmas e demagogias de duvidosa validade, adiar a discussão sobre a pertinência da Alta Velocidade no nosso país: quer com o objetivo de aumentar capacidade disponível na nossa rede ferroviária mas também como instrumento comercial de abaixamento dos custos de contexto em Portugal.

Com a Ryanair a operar nesse eixo e com a CP a contar com a oferta mais densa da sua história entre Lisboa e o Porto, ainda se junta a TAP com uma oferta generosíssima. Será tudo caridade ou haverá interesse económico? Suspeito que estamos perante o segundo ponto. Havendo um potencial tão grande para que em 2016 se forme uma ponte aérea num corredor de apenas 300 quilómetros – o que é um anacronismo absoluto na Europa – qual o papel que o caminho de ferro pode jogar no futuro?

É bastante simples e está nos livros: num eixo de apenas 300 quilómetros e com uma densidade de procura tão elevada, o caminho de ferro de alta velocidade oferece custos directos mais baixos e impactos ambientais incomparavelmente menores. Isto ao mesmo tempo que liberta recursos no chão nos dois aeroportos o que, tendo em conta a realidade que se conhece, não é vantagem menor.

Se em Portugal temos aparentemente potencial suficiente para pagar um valor premium para fazer a distância em uma hora, será que ainda teremos de continuar a aceitar a não discussão da alta velocidade ao abrigo do velho argumento estafado de que as 2h15 de Lisboa ao Porto (irrealizáveis com a infraestrutura atual, conforme defendo aqui) são suficientes ou desejáveis? Também aqui, aparentemente, a realidade já ultrapassou muitos anos o dever de antecipado planeamento por parte das entidades públicas.

Se a isto somarmos uma absoluta necessidade de aumentar redundância e capacidade instalada entre Lisboa e Porto, onde entroncam todos os tráfegos e todas as linhas de importância estratégica para o país, parece evidente que está na altura de a discussão subir um degrau. Já não se trata apenas de saber se entre Lisboa e o Porto precisamos de uma nova linha, que pode ser mista e de velocidade de ponta de apenas 250 km/h. Neste momento, a discussão deve subir desde já para o patamar de perceber se a nova linha deve ser mista ou se deve servir apenas a comboios de passageiros de alta velocidade. Quem persistir na velha discussão de que a atual linha chega, das duas uma: ou acabará rapidamente a falar sozinho ou estará a condenar-nos a uma acrescida vetustidão infraestrutural.

É fundamental combater a ideia de que Portugal já tem as infraestruturas de que necessita. Percebo o trauma, mas temos de ser sérios: se nas auto-estradas Portugal tem o dobro do que necessita nas próximas décadas, nos portos mas sobretudo nas ferrovias Portugal está hoje atrás de países como a Roménia ou Marrocos, com o que daí advém em termos macro-económicos e de capacidade de atração de investimento.

O que a TAP nesta sua renovada vida nos vem mostrar é que afinal de contas o mercado interno está muito mal servido pelos caminhos de ferro. Não apostar nessa via, mesmo que mais tarde do que recomendável, é perenizar um modelo de altos custos operacionais e ambientais de que o país deve fugir. Ainda esta semana o Eng. Mira Amaral, uma das maiores referências no país em termos energéticos, dizia que o baixo preço do petróleo poderá condenar-nos a médio prazo se o utilizarmos para fingir que não precisamos de apostar na eficiência energética. Ora aqui está desde já uma oportunidade para provarmos que o país sabe deixar dogmas e traumas para trás e que está preparado para pensar o futuro.

Como nota final, esta foi uma semana em que Espanha voltou a perder a cabeça com Portugal por causa da linha do Minho. É vergonhoso que em 2016 tudo o que esteja prometido – porque obra, nem vê-la – seja uma mera renovação estética e eletrificação de uma linha que não serve Braga, não serve o aeroporto do Porto (e que assim está mal posicionado para ser a referência para a Galiza) e que liga a uma linha moderna e de altas prestações do outro lado da fronteira. Aqui não se trata apenas de uma questão de imagem: é que estamos mesmo a desprezar uma via de desenvolvimento, de diminuição de custos da economia e de atração de procura exterior. Até quando ?

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