A eficiência no transporte de mercadorias

Esta semana dedico a minha crónica à eficiência no transporte de mercadorias, a propósito dos esforços operacionais que a CP Carga tem levado a cabo desde o final de 2015 e que demonstram de forma muito concreta o lugar da eficiência na luta por mais competitividade.

No final de 2015 a CP Carga passou a operar os comboios dos corredores Bobadela – Sines e Entroncamento – Sines com composições reforçadas. Duas locomotivas 4700 ou 5600 e 2.080 toneladas, exatamente o limite máximo rebocável pelas séries na linha de Sines, aproveitando ainda a instalação dos engates UIC de tensor reforçados em todos os vagões porta-contentores.

Comboio Entroncamento - Terminal XXI, operado com composição de 600 metros e 2000 toneladas.
Comboio Entroncamento – Terminal XXI, operado com composição de 600 metros e 2000 toneladas.

O investimento nos vagões é uma das peças-chave para o aumento da eficiência, já que os engates reforçados permitem uma resistência à tracção até 1,5 vezes superior aos engates existentes até então. Deste modo, de uma resistência de cerca de 1400 toneladas, os vagões passaram a autorizar composições até 2.100 toneladas, permitindo aproveitar assim a 100% a força de tracção de uma unidade múltipla.

De uma só vez e com este simples investimento a empresa foi capaz de cortar para metade as circulações nos dois corredores, dividindo assim os custos de uma circulação pelo dobro da carga. Os custos unitários de transporte não caem exatamente para metade pois há também um reforço de tracção e de energia consumida mas a vantagem é tremenda.

Nesta onda de otimizações, os tráfegos de areia do Algarve não escaparam à inovação. A empresa recuperou os vagões de maior capacidade para este tráfego e adaptou-os também com engates reforçados, permitindo passar de 1280 t para 1900 t o limite para uma composição na serra algarvia, assegurada por duas locomotivas 4700 e cerca de 1600 toneladas.

Estas inovações são particularmente relevantes para incrementar a competitividade do transporte ferroviário. Em transportes historicamente menos bem remunerados como o transporte de areia a criticidade do parâmetro “carga por comboio” é ainda mais essencial para assegurar a rentabilidade da operação ferroviária.

Numa altura em que se confirmam importantes investimentos na rede ferroviária, os operadores não podem no entanto perder de vista oportunidades já existentes para aumentarem a sua eficiência. A conversão de engates em curso na CP Carga, realizado em primeiro lugar para suprimir o parque específico que estava equipado com engates semi-automáticos Atlas, é um exemplo de investimentos numa maior produtividade no imediato, contornando algumas limitações impostas pela rede.

Não se perdendo de vista que algumas destas soluções implicam uma alocação de potência porventura excessiva (no que representa em investimento inicial), este tipo de atuações permite também desde logo realçar a importância de se compatibilizar a infraestrutura com a circulação de comboios mais longos. Na linha do Sul, os comboios do Terminal XXI atingem os 615 metros, sendo que apenas as estações do Pinheiro, Grândola, Grândola-Norte e Ermidas-Sado têm capacidade para resguardar este comboio – e em Grândola, obrigando um eventual comboio de passageiros a passar por uma linha desviada, com redução de velocidade.

Parece certo que ainda antes de linhas melhores, podemos ter operações melhores. E ainda antes de linhas completamente reformadas, devemos ter pelo menos linhas capazes de albergar comboios mais longos. A eficiência no transporte de mercadorias tem as suas variáveis perfeitamente identificadas e os movimentos do setor fazem-nas sobressair no meio de todas as outras.

João Cunha

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