Sobre Preservação Ferroviária

Esta semana proponho-vos uma abordagem ao tema da preservação ferroviária – não é um tema menor, tendo em conta o imenso património coletivo que está associado aos caminhos de ferro e que forma a memória coletiva de todos nós.

Nas últimas semanas tem sido discutido no meio entusiástico um lote de material circulante que a CP colocou à venda, destinado a abate. As opiniões dividem-se sobre a justiça ou não de preservar mais ou menos material circulante, mas diria que numa primeira abordagem o fundamental é evitar tentações pavlovianas de bota-abaixo que são habitualmente mero reflexo de arrogância e pedantismo, exatamente as características que sempre impedem e impedirão boas cooperações.

Acredito que os entusiastas podem e devem jogar um papel muito mais relevante no tema da preservação ferroviária. É assim por toda a Europa e da mesma forma que acredito que os operadores devem aumentar a sua sensibilidade para o tema, também sei que os entusiastas não podem estar ausentes ou reservarem-se ao fácil papel de treinador de bancada.

Do processo de venda de material para abate resultou a salvaguarda prévia de uma composição que fez parte dos primeiros três lotes de automotoras elétricas de fabrico nacional, condenando a UTE 2001, a primeira de todas, ao abate. A minha posição é a de que foi feita a escolha mais sensata: foi escolhida uma unidade em razoável estado de conservação, alvo de revisão geral há menos de dez anos (e sem quilómetros percorridos desde então), o que permite antever com outro realismo o seu aproveitamento para viagens especiais – que não era o caso com a UTE 2001.

Este dossiê tem aliás deixado marcas nas redes sociais – muito dadas a posições extremadas – que devem permitir uma clara separação entre o que são utopias irrealizáveis e racionais pistas para um futuro mais risonho no que a preservação ferroviária diz respeito e, muito particularmente, no que toca numa preservação de unidades vivas e capazes de circular com regularidade.

Não pode ninguém cair na tentação de se achar mais capaz de gerir património do que quem efetivamente o detém (operadores ou gestor de infraestrutura) ou de quem tem o dever estatutário de zelar pela correta preservação da memória ferroviária portuguesa (o Museu Nacional Ferroviário). Da mesma forma que não se pode perder o espírito crítico. Simplesmente a eleição de uma guerra de fações tem sempre como resultado o afastamento puro e simples de qualquer possibilidade de acordo e encontro a meio caminho. Se a ideia de criar uma cisão parte precisamente de quem reclama ser ouvido, então fácil é de constatar que esse é na realidade o primeiro e mais eficaz ato de desistência e de auto-condenação.

Não podemos deixar que também nos comboios o hábito de esperar que o Estado (ou alguma instituição pública) assegure tudo se instale, mesmo o que em parte também compete à sociedade civil. Estou certo que uma federação de interesses debaixo de uma ideia e de um projeto credível terão certamente respaldo das entidades cujo apoio é fundamental. Até porque, no fim de contas, são e serão sempre partes interessadas na valorização da imagem e da memória deste espantoso meio de transporte.

João Cunha

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