
A edição de 2026 do Comboio Literário LeYa uniu literatura e ferrovia num percurso que levou leitores e autores de Lisboa até Évora, prosseguindo depois para Vila Viçosa por autocarro, dada a inexistência de ligação ferroviária ativa. Para além do programa cultural, a viagem destacou‑se pela composição escolhida e pelo simbolismo ferroviário associado ao Alentejo.
A partida fez‑se de Lisboa com uma composição liderada por uma locomotiva da série 5600, habitual protagonista dos serviços elétricos de longo curso da CP. Atrás da locomotiva seguia a carruagem Corail VIP e uma Corail Bar/1ª Classe, oferecendo o conforto característico deste material circulante. Mas o elemento que mais entusiasmo gerou entre os aficionados foi o par de carruagens Schindler recuperadas nas oficinas de Guifões, devolvendo à circulação um dos conjuntos mais emblemáticos da história do material rebocado português.
As Schindler, construídas entre o final dos anos 1940 e meados da década de 1960 sob licença da suíça Schindler Waggon, foram produzidas maioritariamente nas oficinas do Barreiro e tornaram‑se, durante décadas, a espinha dorsal dos serviços regionais e inter‑regionais da CP. A sua robustez estrutural, o comportamento dinâmico exemplar e a versatilidade operacional permitiram que servissem em praticamente todos os tipos de serviço, desde ligações locais até composições de maior importância antes da chegada das inox Sorefame. Ao longo da sua carreira receberam várias modernizações — iluminação, estofos, sistemas elétricos e até alterações de pintura — que prolongaram a sua vida útil muito para além do previsto. Hoje, podemos vê-las no serviço regular da Linha do Douro, graças ao trabalho exemplar dos operário, técnicos e engenheiros das oficinas de Guifões, que lhes devolveram não apenas a operacionalidade, mas também a dignidade estética que as tornou tão apreciadas por gerações de ferroviários e entusiastas.
O percurso ferroviário decorreu pelas Linhas do Sul, Alentejo e de Évora, passando por Casa Branca antes de chegar a Évora, onde o comboio se integrou na Feira do Livro local. A viagem decorreu num ambiente animado, com tertúlias e conversas entre autores e leitores, mas sempre com a paisagem alentejana a correr pelas janelas — um cenário que reforça a importância da ferrovia como elemento estruturante do território.
A partir de Évora, e porque a ligação ferroviária a Vila Viçosa encerrou há décadas, o grupo prosseguiu em autocarro.
No conjunto, o Comboio Literário LeYa 2026 foi mais do que um evento cultural: foi uma celebração da ferrovia portuguesa, do seu património e da sua capacidade de unir pessoas e territórios. A presença das carruagens Schindler restauradas e o percurso pela Linha do Alentejo e Linha de Évora criaram uma experiência que agradou tanto a leitores como a entusiastas — e que, esperamos, possa inspirar mais iniciativas que valorizem o nosso património ferroviário.
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