Na última redacção das normas de interoperabilidade ferroviária da União Europeia, passou a ser condicional a continuação da aposta em bitolas distintas da normalizada – 1.435mm, geralmente dita bitola europeia. Os estados-membros que têm redes com outras bitolas ficaram obrigados a fazer uma análise de custo-benefício completa sobre a pertinência económica e social da migração de bitola, para justificar a manutenção e evolução de redes em bitolas distintas ou para determinar a sua convergência.
O caso mais importante e significativo de todos é Espanha, não só por se tratar da maior rede nestas condições mas também o país que já construiu mais quilómetros em bitola europeia paralela à rede de bitola ibérica e, ainda, o de ter a maior parte do seu potencial de tráfego internacional associado a um país com bitola europeia (França). Como noticia o El Pais, esse estudo já terminou e as conclusões são claras – mesmo no caso espanhol, pensar numa migração total da rede para bitola europeia é simplesmente inviável – economica e logisticamente.
Para Espanha migrar os cerca de 13 mil quilómetros de rede em bitola ibérica, necessitaria de 20 a 30 mil milhões de Euros e de cerca de 30 anos de obras, a que se somam os custos da gestão da mudança, onde entram dezenas de novos pontos de fricção (contacto de bitolas distintas) ao longo do faseamento dessas obras, anos de interrupções de tráfego por todo o país e, claro, a necessidade de renovar quase todo o material circulante. Espanha estudou também o cenário alternativo de migrar apenas algumas linhas principais, mas o impacto com a multiplicação de pontos de contacto de bitolas diferentes também foi julgado excessivo.
No geral, sem contar com os custos da gestão da mudança, cada Euro investido na troca de bitola apenas renderia 10 cêntimos de Euro, havendo uma destruição de valor de muitos milhares de milhões de Euros e uma grande incerteza se o sistema se aguentaria sequer após cerca de 30 anos de múltiplas interrupções, podendo simplesmente deixar de ser pertinente e causar estragos económicos avultados.
Em particular nas mercadorias, o El Pais noticia que o relatório chegou também à conclusão que é muito mais importante investir na capacitação da rede existente para circulações maiores (mais produtivas) do que na troca de bitola, sendo esse o caminho de investimento a reforçar.
O estudo similar para o caso português ainda decorre mas não será expectável ter um resultado muito diferente, até porque a rede portuguesa não tem qualquer problema de bitola para ligação ao seu vizinho e que o potencial de tráfego ferroviário além-Pirinéus será sempre marginal, o que não acontece em Espanha.
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