Quase um ano após o trágico acidente ocorrido no Ascensor da Glória, em Lisboa, a investigação de segurança conduzida pelo GPIAAF continua em curso e o relatório final, inicialmente previsto para setembro de 2026, foi adiado para o final do primeiro trimestre de 2027. A confirmação surge na Nota_Inf_Inv20250903_progresso, publicada em agosto de 2026, que faz o ponto de situação dos trabalhos realizados e das medidas entretanto adotadas para reforçar a segurança dos sistemas de transporte por cabo explorados pela Carris.
O acidente ocorreu a 3 de setembro de 2025, quando se verificou a cedência da ligação entre as duas cabinas do ascensor, provocando o descarrilamento e a subsequente colisão do veículo 1 e descarrilamento do veículo 2. Desde então, decorrem em paralelo uma investigação de segurança, conduzida pelo GPIAAF, e um inquérito judicial a cargo do Ministério Público.
Segundo o documento agora divulgado, a complexidade técnica da investigação obrigou à realização de um vasto conjunto de peritagens especializadas. Foram contratadas três entidades externas para estudar, respetivamente, o comportamento do cabo e da sua fixação às cabinas, os sistemas de travagem e a dinâmica do sistema, bem como as condições de aderência dos freios aos carris e às rodas. Posteriormente, foi ainda considerada necessária uma quarta perícia relativa ao circuito elétrico dos ascensores.
Os trabalhos têm enfrentado desafios particulares devido à singularidade dos ascensores da Glória (e do Lavra que é semelhante ao da Glória e está a ser usado como fonte de conhecimento e modelo funcional). Estes equipamentos não possuem equivalentes em operação no resto do mundo e existe escassa documentação técnica disponível sobre a sua construção e evolução ao longo das décadas. Por essa razão, os especialistas têm recorrido a processos de engenharia reversa, modelação tridimensional e construção de equipamentos de ensaio específicos para reproduzir as condições de funcionamento e testar componentes críticos.
Entre os estudos realizados encontram-se análises físicas, químicas e metalúrgicas aos cabos, testes aos sistemas de frenagem das cabinas acidentadas e medições efetuadas nos veículos do Ascensor do Lavra, utilizados como referência funcional por se encontrarem intactos. A investigação está também a analisar fatores humanos, organizacionais e procedimentos de manutenção, procurando compreender não apenas as causas técnicas, mas todo o contexto que poderá ter contribuído para o acidente.
Apesar da continuação das peritagens, o GPIAAF refere que não foram identificados novos problemas de segurança relevantes para divulgação pública além dos já apresentados no relatório preliminar de outubro de 2025. O organismo recorda que os ascensores da Glória e do Lavra permanecem encerrados, reduzindo o risco imediato associado às questões técnicas ainda em investigação.
A nota informativa faz também um balanço da implementação das seis recomendações de segurança emitidas após o relatório preliminar. A Carris informou ter iniciado uma profunda revisão dos seus processos internos de manutenção, aquisição e controlo de componentes críticos, incluindo auditorias externas, reforço da rastreabilidade de materiais, digitalização de processos e revisão de especificações técnicas. O objetivo passa por garantir que todos os componentes relevantes para a segurança cumprem rigorosamente os requisitos técnicos aplicáveis.
Ao nível organizacional, foram igualmente criadas novas estruturas dedicadas à segurança operacional, incluindo núcleos especializados em segurança de exploração e na gestão de riscos. Foram ainda desenvolvidos manuais de exploração, procedimentos de emergência, planos de manutenção e sistemas de monitorização mais completos para os diversos equipamentos do modo elétrico da Carris.
Relativamente à manutenção dos equipamentos históricos, a empresa procedeu à substituição do anterior prestador de serviços e reforçou os mecanismos de fiscalização e controlo das intervenções efetuadas. Foram ainda criados novos departamentos técnicos dedicados à engenharia, planeamento e acompanhamento específico dos ascensores e elevadores.
No que diz respeito ao regresso à operação dos equipamentos, o GPIAAF mantém que tal apenas deverá acontecer após reavaliações técnicas independentes aos sistemas de tração, fixação dos cabos e travagem. No Funicular da Graça já foram realizados ensaios especializados aos cabos e respetivas ligações, enquanto outros equipamentos, como o Elevador de Santa Justa, continuam sujeitos a avaliações técnicas e estruturais aprofundadas.
A investigação produziu também efeitos ao nível legislativo. Na sequência das recomendações do GPIAAF, o Governo aprovou em agosto de 2026 um novo regime jurídico para diversos sistemas de transporte, incluindo elétricos históricos, elevadores e funiculares. O diploma estabelece regras para construção, exploração, manutenção, licenciamento e certificação de profissionais com funções críticas para a segurança, criando finalmente um enquadramento legal mais abrangente para estes equipamentos patrimoniais.
Se não surgirem novos constrangimentos, os ensaios técnicos deverão ficar concluídos até ao final de novembro de 2026. Depois dessa fase seguir-se-á a análise integrada dos resultados, a elaboração do relatório final e a audição das entidades envolvidas, prevendo-se a publicação das conclusões definitivas durante o primeiro trimestre de 2027.

Continua por esclarecer quando (ou se) regressarão ao serviço alguns dos mais emblemáticos equipamentos históricos de transporte da capital. Quase um ano depois da tragédia do Ascensor da Glória, os Ascensores da Bica e do Lavra, bem como o Elevador de Santa Justa, permanecem encerrados ao público. Sendo estes ascensores e elevadores alguns dos mais importantes ex-líbris turísticos e patrimoniais de Lisboa, a sua ausência continua a ter impacto não só na mobilidade local, mas também na experiência de milhares de visitantes que todos os anos procuram conhecer um dos elementos mais característicos da paisagem urbana da cidade.
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