Museologia nos caminhos de ferro

Esta semana decidi retomar o tema da museologia e preservação, e em termos mais abrangentes do que na crónica que reservei a este assunto.

Vem isto a propósito de uma reflexão pessoal de muitos anos sobre o tema. O que deve ser a museologia nos caminhos de ferro? A resposta é evidente: muita coisa. A chave para definir correctamente objetivos de um projeto específico centra-se em dois tópicos: responsabilidade institucional e fluxos captáveis de financiamento.

O Museu Nacional Ferroviário (MNF) celebrou recentemente o seu primeiro aniversário. Creio que o ponto de partida é muito bom: a grande prioridade era ter um Museu de portas abertas e que dignificasse desde o primeiro dia a missão fundamental, de preservação da memória ferroviária nacional. Quem entre hoje em dia no MNF encontra um Museu que, com um ano, nada tem que se envergonhar mesmo quando comparado com outros museus de relevo no continente europeu.

O futuro é sempre o mais importante – é o que pode ser alterado. O que deve ser a museologia num projeto como o do MNF? Tendo em que conta que:

  • É o grande museu nacional dedicado aos caminhos de ferro e o que tem a missão de ser mais abrangente e mais ambicioso;
  • Portugal tem um fluxo de turistas impressionante e a gerar grandes receitas;

Sai daqui que o Museu Nacional Ferroviário deve claramente ambicionar a ser maximalista na sua missão. E quando falo de maximalismo falo, sobretudo, do material circulante. Queira-se ou não, é o material circulante que atrai. É ele que corporiza a escala dos caminhos de ferro por comparação com outros meios de transporte, é ele que transporta as pessoas e a carga e é ele que atrai as crianças. Em suma, as memórias da população em geral reflectem a sua experiência com os veículos e menos com outros elementos que, sendo certamente importantes de um ponto de vista arquivístico, não são tão notáveis.

Num país como o nosso, a localização no Entroncamento é claramente um inconveniente mas não pode ser fatalmente assumido como tal. De facto, existem excelentes exemplos de museus polinucleados. Em todos os casos, estes actuam como promotores de 1ª linha de visitas ao núcleo central.

E daqui salto para o segundo ponto – o do turismo. Parece-me inegável que a evolução da museologia em Portugal passará por cravar lanças nas duas grandes áreas metropolitanas – Lisboa e Porto. São o epicentro do turismo nacional, de sazonalidade já reduzida de tão grandes fluxos constatados ao longo do ano inteiro.

Sabemos quão escassos são os recursos – mas há que quebrar barreiras e conceitos antigos. A museologia viva atrai mais do que a museologia estática e os comboios são um meio de mobilidade – a característica da mobilidade acrescenta valor e interesse. Não se pode por isso projetar o futuro na base do que foi a implementação do MNF. A implementação foi excelente, mas é passado. A viabilidade do que já foi feito depende da capacidade de inovar e estender braços aos meios onde circula o dinheiro.

A redonda do Barreiro com material a diesel.
A redonda do Barreiro com material a diesel.

A expansão geográfica pode permitir alcançar património imóvel dos caminhos de ferro que já existe e pode ser apresentado com um esforço mínimo de restauro – olhemos para o complexo do Barreiro, conjunto hoje em dia único de imóveis ferroviários de tipologias diversas e praticamente todos num estado de conservação ainda bastante aceitável. A expansão geográfica pode também responder a desafios de espaço que possam impedir o MNF, na sua localização central, de responder à sua missão maior – fazer a recolha mais abrangente da história ferroviária nacional. Documental e material.

Se hoje em dia o argumento de falta de espaço é relativamente pacífico, o futuro não poderá aceitar menor mobilização de novas peças preservadas por falta de espaço. E aqui a responsabilidade maior estará até nos sócios fundadores, com particular relevo para a IP. Mas o MNF não pode negar o óbvio – ficar reduzido a uma localização como o Entroncamento, é ignorar o valor da centralidade e a escala de proveitos que o turismo nas grandes cidades pode trazer a um museu tão particular como o ferroviário.

Deve ser promovida uma grande reunião das associações, que podem desempenhar um papel-chave na abertura de pólos nas duas cidades. Podem ser elas a mover para lá as suas sedes e a criarem capacidade de recolha e disponibilização ao público de partes importantes da colecção do Museu Nacional Ferroviário, mitigando custos operacionais que naturalmente não são assumíveis facilmente por um Museu com estas características.

Isto leva-nos ao voluntariado. Cada um terá a sua opinião, mas eu pessoalmente esperava outra proposta. Um projeto de voluntariado sem associação a projetos concretos estará, julgo eu, condenado a uma certa irrelevância. Com tanto por fazer, tanto por preservar e locais tão importantes para a expansão do MNF por ocupar e restaurar, não deixei de ficar preocupado com uma proposta de voluntariado tão ausente de metas concretas.

Em muitas áreas, e na ferrovia ainda mais, um grande museu vivo depende da capacidade aglutinação da sociedade civil em seu torno. O Entroncamento tem ainda por onde se expandir mas, em grande medida, o projeto naquela cidade está finalizado. Não digo que não se deva investir no restauro dos espaços ainda por acondicionar, mas isso não transformará suficientemente o projeto global do Museu.

Faltam as âncoras em Lisboa e Porto que garantam espaço para continuar a alargar a colecção móvel e ao mesmo tempo consigam perenizar instalações ferroviárias únicas.

Não é impossível que um complexo como o do Barreiro funcione numa simbiose de associações, autarquias e MNF, albergando composições vivas e que permitam até oferecer produtos turísticos diferenciados, promovidos por operadores ferroviários ou por operadores turísticos em associação com estes. É outro caminho para o financiamento.

A museologia não é estanque. Em algo tão diferente como os caminhos de ferro, ela não pode ser estanque. O que já foi conseguido é extraordinário mas só terá valorização no futuro se as próximas etapas de desenvolvimento forem dinâmicas. E o futuro é o pólo do Barreiro – o potencial turístico e atração de receitas é fenomenal e o edificado já lá está para ser aproveitado.

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