Linha de Cascais: tem de haver solução

O pecado original deu-se no final dos anos 90. Depois da CP retomar a concessão em 1976, foi preciso decidir o figurino da linha para o século XXI e a opção foi minimalista – para ser simpático. Perante uma linha de infraestruturas e comboios obsoletos, a decisão foi a de renovar algumas estações e renovar comboios mantendo a generalidade dos órgãos vitais, auxiliados por uma nova cadeia de tração.

Não foi preciso esperar muito tempo para percebermos que nada naquele plano fez sentido. A linha de Cascais além de ter estações com condições dignas de meados do século XX, mantém-se uma ilha na rede ferroviária (sinalização e eletrificação distintas) e os comboios, que deviam durar 20 anos, ao fim de 6 ou 7 anos após renovação (iniciada em 1999) já estavam em total falência.

Hoje em dia, Cascais sobrevive como pode. Os gastos de manutenção serão certamente monumentais, o serviço foi ajustado para permitir utilizar menos composições, vários acidentes e incidentes mostram um caminho muito curto para potenciais acidentes de maior gravidade. Isto na segunda mais importante linha suburbana do país.

Comboio urbano na linha de Cascais.
Comboio urbano na linha de Cascais.

É óbvio que o erro foi o de minimizar os problemas cuja futura aparição era já óbvia no final dos anos 90. Ainda para mais num tempo de vacas gordas em que para quase todos os projetos apareceu dinheiro, sabe-se lá vindo de onde. Comboios novos e uma intervenção profunda na linha de Cascais teria sido apenas algo lógico.

Chegados a 2016, não pode um responsável público assumir que não há solução programada ou em vista. Várias hipóteses já estiveram ou estão em cima da mesa: aluguer de material apto à eletrificação da linha de Cascais, reeletrificação e aproveitamento de material de dois andares já em serviço na CP, concessão a privados que seriam responsabilizados por todos os investimentos necessários, pacote completo de investimentos assegurados pelo Estado… e por aí adiante.

Claro que com um “default” no horizonte, o Estado Português não está em condições de assegurar os níveis de investimento necessários. Está quase tudo por fazer: os comboios estão obsoletos e custam muito dinheiro a manter, a linha é velha e a sua eletrificação não permite ir buscar comboios à restante rede para ajudar. Mas então tem de haver uma solução.

Pondo de parte a possibilidade do Estado investir na linha e sua operação (vale a pena dizer que para material circulante não há fundos europeus), não seria a concessão da linha uma possibilidade? Que duração e qual poderia ser a subsidiação necessária para um privado aceitasse a concessão, obrigando-se a renovar comboios e linha? Eu acho que merecemos que pelo menos essa solução seja estudada e apresentada. E depois até podemos comparar com o que seria o encargo (directo e indirecto) que o Estado teria para conseguir igual melhoria e decidir o que fazer.

Não podemos é viver em 2016 e aceitar como resposta um lacónico “não temos solução em vista”. Falamos da segunda linha suburbana do país. Se não vale a pena olhar para problemas tão graves de uma linha tão importante, então talvez seja melhor equacionarmos o papel do Estado enquanto organizador de transportes. As nossas necessidades enquanto população estão primeiro.

João Cunha

PS: Já ouvi falar de soluções tipo BRT, retirando carris e pondo alcatrão. Triste país entregue a responsáveis políticos de ignorância militante.

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