CP Carga por entre um turbilhão de reversões

Mais uma semana, mais sete dias marcados por políticas de reversão de políticas anteriores. Creio que já era tempo de esclarecer se estamos perante um governo de reversão ou governo de evolução, porque uma coisa não é necessariamente igual à outra.

Iniciando esta semana pelos temas secundários da minha crónica, não posso deixar de notar que continuamos, uma semana mais, com um certo clima de revanchismo ideológico que devia estar arredado do Governo do nosso país. Vemos o PS assinar em branco reversões cujo valor acrescentado está por definir. Que tipo de serviço público vamos ter? Não sabemos. Mas sabemos que não estará concessionado. Que tipo de solução vamos ter para o que sobra da dívida das empresas públicas? Não sabemos, mas já sabemos que ferroviários e seus familiares vão voltar a ter viagens grátis. A segunda parte da benesse deixa aliás grandes dúvidas relativamente a uma ideia de promoção de igualdade e justa distribuição de recursos num país que os tem bastante parcos.

Não sabemos se o PETI3+ vai realmente avançar, mas sabemos que provavelmente a IP voltará a ser dividida entre EP e REFER. Não sabemos se vai ser aproveitado o concurso de fundos europeus em curso nesta altura, mas já sabemos que vamos ter um estudo sobre um novo plano ferroviário nacional nos próximos doze meses.

Em suma, sabemos muito sobre a estética de várias vertentes do setor, e sabemos ainda menos sobre a substância efetiva da evolução do setor do que já sabíamos com o anterior governo.

No meio desta ansiedade de mudar tudo o que há à superfície e o mais rápido possível, a CP Carga aparentemente irá sair incólume, felizmente. A Autoridade da Concorrência já terá dado luz verde ao processo de venda, e a ser assim a MSC poderá começar a por em prática os seus ambiciosos planos para a companhia.

A linha da Beira Alta apresenta grandes constrangimentos a necessitar de resolução - traçado sinuoso e com muitas rampas penalizantes.
A linha da Beira Alta apresenta grandes constrangimentos a necessitar de resolução – traçado sinuoso e com muitas rampas penalizantes.

Para lá de questões financeiras e contabilísticas que levaram o Estado a alienar esta empresa, sou favorável à sua privatização desde logo porque acredito que existe de facto um mercado aberto no transporte ferroviário de mercadorias. Muito provavelmente não se olharmos à escala nacional, porque a evolução também nos tem mostrado que o mercado existe na sua plenitude a uma escala maior: um país como Espanha ou, no nosso caso, se olharmos para Portugal e Espanha.

Ora havendo um mercado aberto no transporte ferroviário e havendo concorrência, nada justifica que o Estado continue a assegurar diretamente este serviço. A CP Carga tem, muito mais do que os seus ativos contabilísticos, uma posição no mercado nacional que é extremamente interessante para quem quer investir. A quota de mercado superior a 90% é uma âncora forte para sobreviver a possíveis turbulências no momento de atacar outros segmentos ou de apostar forte fora de portas. Não sei se foi decisivo ou não para que players como a MSC tenham aparecido neste processo, mas é sem dúvida um atractivo.

A MSC tem pela frente dificuldades várias, mas pessoalmente acho que encontra uma organização muito mais orientada para o cliente final do que se pode pensar por ser uma empresa pública. Terá pela frente uma frota a diesel muito envelhecida, para a qual investimento em novo material será vital, e encontrará também um parque de vagões a merecer ajuste, pois é pouco competitivo em alguns segmentos importantes de tráfego – como exemplo, a Takargo tem conseguido com vagões de alta capacidade de carga uma posição muito interessante nos tráfegos de madeira, habitualmente exigentes ao nível de preço.

O novo dono da CP Carga já disse ao que vem: quer crescer dentro e fora de portas. Pode ser uma oportunidade muito boa para os profissionais portugueses, pois o crescimento será sem dúvida feito a partir do know-how existente por cá. Em Espanha, a MSC fornece volumes de transporte ferroviário não negligenciáveis a vários operadores – não me espantaria que a estratégia de entrada nesse mercado fosse pela operação direta desses mesmos tráfegos: seriam um porto seguro para essa aposta e podem permitir uma consolição da operação em Espanha capaz de permitir um salto tranquilo para outros vôos.

Compreendo as reservas de muitos trabalhadores, mas talvez por sempre ter trabalhado no setor privado me parecem maioritariamente infundadas. O Estado será cada vez menos um local agradável para trabalhar em setores em que existam mercados competitivos a funcionar: a capacidade de investimento é muito limitada, porque com recursos cada vez mais pressionados por outras responsabilidades bem mais prementes como Saúde ou Segurança Social, sobrarão pouco mais do que migalhas para o setor dos transportes que opera em mercado aberto. E, por isso, se ainda não estivermos nessa fase (e eu acho que já estamos), o setor privado terá provavelmente mais oportunidades profissionais e salariais do que o setor público.

Claro que há riscos. Em tudo na vida há riscos. No Estado também há riscos. Simplesmente quando eles se concretizam, pagam todos os contribuintes, quer tenham ou não contribuído muito ou pouco para eles se concretizarem.

Suspeito que vamos ter mais alguns meses de ação estética reversora no setor dos transportes, era bom talvez seguir o exemplo da CP Carga e apontar realmente algo de construtivo para o futuro. Isso é que é difícil.

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