Investimento privado na linha do Tua

Esta semana vagueando pela imensidão do que temos disponível na Internet encontrei o anúncio de Mário Ferreira, o investidor por trás da Douro Azul, sobre o novo comboio para a linha do Tua. A imagem mostra uma locomotiva que pretende evocar a tração a vapor de traços americanos indisfarçáveis. Esperava outra coisa – aliás, para uma locomotiva diesel (suponho que o seja) esperava algo com aspeto de locomotiva diesel.

A locomotiva que provocou a erupção em muitas caixas de comentários. Foto de Mário Ferreira.
A locomotiva que provocou a erupção em muitas caixas de comentários. Foto de Mário Ferreira.

O que me chamou mais à atenção no entanto não foi a particularidade desta escolha estética mas as reações inflamadas de muitos contra a dita locomotiva. De facto, eu assumo que também não acho piada ao dito veículo – mas eu também não tenho de achar piada ao dito veículo. Este é um ponto fundamental quando se fala sobre algo que não é nosso e cujo processo não conhecemos a fundo: ter presente que a nossa opinião pode nem estar fundada nas prerrogativas correctas e que, no limite, também pode nem contar para nada.

Nada do que aqui foi dito impede uma visão crítica sendo que, como qualquer visão crítica, ela deve na minha óptica estar bem estruturada. O investimento privado na linha do Tua foi sujeito a um concurso internacional que ficou deserto e que foi realizado não só para permitir o aproveitamento turístico do que sobra da linha mas, fundamentalmente, para assegurar uma solução de mobilidade ao longo dos quilómetros que sobram para as populações colocadas junto à mesma. Temos portanto uma prerrogativa: os comboios do Tua devem estar preparados para, ao mesmo tempo, serem capazes de realizar um serviço fiável, de baixo custo e ter alguma atractividade turística.

Com isto em mente acredito que seja possível pensar em carruagens panorâmicas, perfeitamente aptas aos dois tipos de público, e a locomotivas diesel. Ora, pelos vistos, é exatamente isso que está em causa. A jusante estão as questões estéticas e patrimoniais, questões que me são muito caras e que não desprezo – só acho que não podem ser confundidas.

A Douro Azul também já comunicou a compra de uma velha e totalmente desfeita locomotiva a vapor que circulou na linha do Tua – a E170 – tendo também anunciado o empréstimo de outra locomotiva a vapor de via estreita, por parte do Museu Nacional Ferroviário. Estas serão as locomotivas fundamentais para a preservação patrimonial e histórica do legado da linha do Tua e, felizmente, o investimento privado garantiu. Podia não ter garantido, mas garantiu.

O “comboio da Disney” entra por isso na lógica do dia-a-dia. Eu não teria optado por esta locomotiva mas eu nem sequer tenho capital para arriscar numa operação destas e, por isso, nem sequer tive de ponderar prós e contras da opção nomeadamente no que toca a atração de públicos para a oferta turística. Por isso, e como habitual, parece-me que tenho todo o direito de desconsiderar esteticamente a opção e que não tenho direito algum de fazer um juízo de valor relativamente a um investidor que arrisca do seu bolso num modelo de negócio inédito no nosso país e numa zona profundamente ostracizada do nosso território.

Ao longo dos anos tenho-me sempre batido contra uma visão a preto e branco do mundo. Infelizmente o destino da Linha do Tua não foi tão glorioso como talvez pudesse ter sido. Mas também é verdade que foi muito mais feliz do que o da linha do Corgo, para citar outro exemplo. E no meio da palete de cores de que se tinge o nosso mundo, acredito que a solução já conhecida para a linha do Tua tem certamente tons muito mais vibrantes do que depressivos e, por isso, aguardo com expectativa o lançamento do serviço. Lá estarei para conhecer a nova linha do Tua, visitar o património edificado que teve a sorte de ser preservado e, claro, um dia revisitar as belas locomotivas a vapor de via estreita do nosso país.

O país precisa é de mais iniciativa da sociedade civil, sejam as escolhas mais ou menos próximas das nossas. Esta crónica parece certamente altamente situacionista mas às vezes é mesmo importante percebermos primeiro o chão que pisamos. Não valerá a pena tolerar uma locomotiva menos fiel à realidade se no pacote estiverem incluídas recuperações de locomotivas abandonadas? Nem de um ponto de vista mais puritano e pragmático entendo esta polémica.

João Cunha

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2 comentários Adicione o seu

  1. Carlos Freira diz:

    Parece-me estar-mos aqui na presença de um texto de alguém que a bem de alguma coisa aceita o pouco que lhe dão, na impossibilidade de não haver quem dê mais e melhor. Não é a bem de qualquer pretexto justificativo da iniciativa deste ou aquele, por falta de investimento de outrem, que teremos que pactuar com a falta de gosto, o desconhecimento do valor patrimonial ou o valor das origens culturais de um povo. É certo que se devam valorar as iniciativas de quem quer investir mas desengane-se quem pensa que não há limites à liberdade de investimento. Um povo que se deixa “vender” a troco de euros perde a sua identidade e, com isso, deixa de ser reconhecido enquanto sociedade e enquanto nação.

    1. trainmaniac diz:

      Não há qualquer troca no caso em apreço, pelo que me parece. Afinal de contas, o que há para preservar? Edifícios, linha, viagem e comboios. Os três primeiros estão assegurados pelo investimento já realizado e pela operação regular. O último pelas intenções já anunciadas e que sim, vale a pena acompanhar até ao fim. Tudo isto independentemente do aspecto do que por ali possa andar diariamente.

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