A problemática do aumento da frota

2016 já vai bem entrado e todas as tendências de crescimento no setor do Longo Curso mantém-se ou até se reforçam por comparação a 2015. O turismo e um país mais virado para as empresas parecem fazer crescer a mobilidade interregional que a ferrovia tem sabido capitalizar com uma certa mestria.

O serviço Alfa Pendular é um dos mais rentáveis e de maior crescimento, mas praticamente não tem margem para aumentar a sua oferta.
O serviço Alfa Pendular é um dos mais rentáveis e de maior crescimento, mas praticamente não tem margem para aumentar a sua oferta.

A entrada em operação da ponte aérea da TAP veio apenas reforçar a necessidade de pensar na frota de Longo Curso a médio e longo prazo, ao mesmo tempo que se impõe rever no curto prazo o dimensionamento dessa mesma frota. Ainda recentemente, no fim de semana prolongado pelo feriado do 25 de Abril, houve dificuldades a acolher a procura nomeadamente na linha do Sul, mesmo apesar do substancial reforço de oferta que ali existiu. Não é hoje claro se vai ou não a CP ter autorização governamental para recorrer ao aluguer de mais material circulante, mas uma coisa é certa: há uma necessidade imediata.

O mercado ibérico é muito interessante por diversas perspetivas, sendo a mais óbvia a comunhão de bitolas, questão que já obsta a rápidas soluções com recurso a material circulante de outros países europeus. Mas vai bastante para além disso e cito apenas algumas virtudes de sermos vizinhos de uma operadora como a Renfe: tem uma frota que em alguns segmentos está sobredimensionada, os comboios têm quase todos um custo por lugar oferecido bastante mais baixo que soluções mais convencionais e boa parte deles já está preparado para circular em linhas eletrificadas a 25.000V, como as nossas.

Seria por isso caricato que a operadora nacional, com falta de meios e de autorizações para se endividar e ir ao mercado procurar soluções diferentes, ignorasse o autêntico viveiro de material circulante de altos padrões de conforto e de performance que existe na Renfe, não raras vezes em excesso. De facto, a operadora espanhola tem oficialmente afeta a um parque destinado a aluguer uma panóplia interessante de material circulante – e daqui se exclui até material que poderia ser incorporado por negociação adicional.

Consigo compreender os argumentos de quem é totalmente contrário à opção de aluguer de material a Espanha, da mesma forma que tenho todo o direito de deles discordar. De facto, numa realidade em que não há meios para investir em material novo (e, como a realidade se vai encarregando de demonstrar também a quem acreditava no contrário, quando não há dinheiro, ele simplesmente não se fabrica), também seria pouco lógico ignorar um aluguer de material circulante de prestações superiores ao que circula em Portugal, ainda para mais tendo em conta que o somatório dos custos de operação, manutenção e aluguer pelo menos não superam os custos de operação e manutenção da frota nacional.

As automotoras 0450, hoje sobretudo presentes na linha do Algarve, estão no limite da sua vida útil.
As automotoras 0450, hoje sobretudo presentes na linha do Algarve, estão no limite da sua vida útil.

Isto é aplicável por exemplo aos comboios regionais, e até lanço já uma nova ideia: porque não aumentar o parque automotor diesel alugado para acorrer à falência de unidades como as UDD 0450, ainda para mais agora que se conhece o limite temporal para uso dessa solução? Seria até à eletrificação da linha do Algarve, permitiria revitalizar alguns serviços que sofrem com a falta de fiabilidade, conforto e velocidade das unidades atuais e, provavelmente, até seria possível baixar custos de operação. Esse racional esteve aliás na origem da substituição de sucesso das antigas UTD 0600, substituídas hoje em dia por material que, não sendo novo, é incomparavelmente mais confortável e oferece garantias de um serviço à altura dos tempos que vivemos que as estafadas unidades da Sorefame já não estavam em condições de assumir.

No Longo Curso a opção é ainda mais evidente, pois nem está em causa a teorização à volta das vantagens do material nacional versus o material “importado”. Está sim em causa um aumento de capacidade disponível em serviços rentáveis e com potencial de crescimento claro, potencial que aliás está já a esbarrar de forma clara nos limites à capacidade oferecida pela CP. Comboios como os S120 da Renfe, cujo aluguer ainda não está descartado, são garantia de conforto, performance e baixos custos operacionais. Que mais se poderia pedir nesta fase?

Um dos problemas de aumentar a frota é que esse aumento pode ter o risco de ser rentabilizado apenas em períodos de ponta. É uma equação clássica dos transportes públicos: a frota deve ter dimensão necessária para assegurar a máxima oferta disponibilizada, mesmo que ela não corresponda à oferta típica, de um dia típico ou de um período horário típico. Por vezes, a solução passa por assumir uma menor capacidade para acolher picos mas promover uma maior taxa de utilização média do material circulante, no que é também uma solução típica da produção de serviços em geral.

Ora neste ponto uma solução interessante pode ser a incorporação de material circulante que possa ser utilizado, com vantagem, mesmo fora de picos. Na realidade nacional há uma clara tendência para uma diminuição de deslocações pendulares a partir da tarde de 6ª feira até ao final de Domingo, precisamente quando o Longo Curso tem tipicamente os seus picos mais pronunciados. Porque não ter uma frota “híbrida” capaz de responder com qualidade às necessidades do Longo Curso podendo ser utilizado, de forma prática e com eficiência, noutro tipo de comboios durante os dias úteis?

A grande certeza em 2016 é que qualquer adiamento do reforço de meios num setor tão viável e cada vez mais competitivo como o Longo Curso será tão somente um apelativo argumento para justificar uma privatização destes serviços. Seria esquisito que tão grande incentivo acabasse por chegar por quem é tão dogmaticamente contra a presença de privados num setor de grande concorrência como o dos transportes. Mas já vimos ironias para tudo…

João Cunha

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