O propósito das coisas
À medida que os falhanços visíveis no dia-a-dia se vão tornando cada vez mais básicos, fica à vista a falta de pensamento estratégico e político sobre o sector ferroviário – desde logo o seu propósito. Para que serve um meio de transporte público, e desde logo o ferroviário?
Margaret Thatcher tem uma das citações que mais me encanta para por a nu a facilidade com que camadas da população – muitas vezes quem está mais directamente involucrado na gestão e decisão da coisa pública – se esquecem do propósito das coisas. Foi algo como “You and I come by road or rail, but economists travel on infrastructure”, uma piada sobre economistas mas que mostra a facilidade com que a conceptualização pode atropelar a realidade prática do quotidiano.
Num país que se prepara para gastar mais umas vastas dezenas de milhões num Metrobus absolutamente patético em Guimarães, que vai fazer o double-down na aberração nascida na Lousã e que me parece que não vai desistir de coisa similar para o Algarve, importa voltar a reflectir porque é que isto acontece.
Pensei neste artigo enquanto via dias a fio de Intercidades para Évora prestados com reles automotoras inadequadas até para comboios urbanos, porque a CP continua sem conseguir sequer manter carruagens ou, de modo geral, resolver seja que problema for. Uma empresa é, por definição, uma entidade colectiva e abstracta cuja principal missão é resolver problemas, monetizando essa resolução. Pelo caminho, vai ter problemas internos e é também a sua missão resolvê-los.
Ora vamos aqui a outro exemplo, noticiado já em 2024 e já na sequência de outros memorandos de 2023: Beira Interior vai ter modelo inédito de mobilidade em 2025 – ECO
Este projecto era uma raquítica UTE, de custos operacionais mínimos, a andar para trás e para a frente ali pelo Fundão. As câmaras entraram a bordo e prepararam rebatimentos rodoviários para este serviço, que me parecia óbvio que tinha a sua parte mais fácil (e comparativamente mais barata) no lado do carril. Pois aqui estamos dois anos depois deste patrocínio da própria AMT, e mais de três anos depois da primeira intenção da CM Fundão, e as câmaras ainda não têm qualquer serviço que se assemelhe ao acordado.
O então presidente da câmara do Fundão é hoje o responsável nacional pela resposta e reposição do território pós-tempestades, com acesso privilegiado à estratégia de investimento nacional que se lhes seguiu. Que imagem terá da CP e do modo ferroviário? Que é simples, que resolve problemas, que vale a pena investir tempo? Para o bem e para o mal, somos um país pequeno. Existirá goodwill para ir canalizando alguns fundos para melhorar a rede? Não sei se o sector percebe o que está em causa.
Certo é que câmaras quiseram fazer as coisas bem e três anos volvidos nada têm a apresentar aos seus munícipes. Se tivessem apostado em autocarros, estavam mais que servidas. Sobre o propósito das coisas.
Porque será que “todos” preferem “metrocoisos”… porque, por um lado, é aparentemente mais “barato”, por outro dá para assinar “memorandos” do projeto, e ainda há tempo de ir cortar a fita da inauguração (ainda que até hoje só tenhamos 2 desses coisos e nenhum deles tenha sido assim tão rápido a executar)… mas também porque assim não tem de lidar com a CP nem com a IP, que em vez de serem elos de ligação, de eficiência, de know how, saber fazer, são um imbróglio, um enredo de novela turca dobrada em castelhano…. onde os (des)governos não tem “coragem” de mexer, pois tem todo o interesse de manter o que está… Por fim, quantos autarcas , governantes e afins usam, no dia-a-dia, transportes públicos, sobre carris?!