O propósito das coisas

O propósito das coisas

14 Julho, 2026 1 Por João Cunha

À medida que os falhanços visíveis no dia-a-dia se vão tornando cada vez mais básicos, fica à vista a falta de pensamento estratégico e político sobre o sector ferroviário – desde logo o seu propósito. Para que serve um meio de transporte público, e desde logo o ferroviário?

Margaret Thatcher tem uma das citações que mais me encanta para por a nu a facilidade com que camadas da população – muitas vezes quem está mais directamente involucrado na gestão e decisão da coisa pública – se esquecem do propósito das coisas. Foi algo como “You and I come by road or rail, but economists travel on infrastructure”, uma piada sobre economistas mas que mostra a facilidade com que a conceptualização pode atropelar a realidade prática do quotidiano.

Num país que se prepara para gastar mais umas vastas dezenas de milhões num Metrobus absolutamente patético em Guimarães, que vai fazer o double-down na aberração nascida na Lousã e que me parece que não vai desistir de coisa similar para o Algarve, importa voltar a reflectir porque é que isto acontece.

Pensei neste artigo enquanto via dias a fio de Intercidades para Évora prestados com reles automotoras inadequadas até para comboios urbanos, porque a CP continua sem conseguir sequer manter carruagens ou, de modo geral, resolver seja que problema for. Uma empresa é, por definição, uma entidade colectiva e abstracta cuja principal missão é resolver problemas, monetizando essa resolução. Pelo caminho, vai ter problemas internos e é também a sua missão resolvê-los.

Ora vamos aqui a outro exemplo, noticiado já em 2024 e já na sequência de outros memorandos de 2023: Beira Interior vai ter modelo inédito de mobilidade em 2025 – ECO

Este projecto era uma raquítica UTE, de custos operacionais mínimos, a andar para trás e para a frente ali pelo Fundão. As câmaras entraram a bordo e prepararam rebatimentos rodoviários para este serviço, que me parecia óbvio que tinha a sua parte mais fácil (e comparativamente mais barata) no lado do carril. Pois aqui estamos dois anos depois deste patrocínio da própria AMT, e mais de três anos depois da primeira intenção da CM Fundão, e as câmaras ainda não têm qualquer serviço que se assemelhe ao acordado.

O então presidente da câmara do Fundão é hoje o responsável nacional pela resposta e reposição do território pós-tempestades, com acesso privilegiado à estratégia de investimento nacional que se lhes seguiu. Que imagem terá da CP e do modo ferroviário? Que é simples, que resolve problemas, que vale a pena investir tempo? Para o bem e para o mal, somos um país pequeno. Existirá goodwill para ir canalizando alguns fundos para melhorar a rede? Não sei se o sector percebe o que está em causa.

Certo é que câmaras quiseram fazer as coisas bem e três anos volvidos nada têm a apresentar aos seus munícipes. Se tivessem apostado em autocarros, estavam mais que servidas. Sobre o propósito das coisas.