E depois da bitola
O país mais relevante para esta matéria na Europa – não só para nós, em Portugal – finalizou o seu estudo de custo-benefício sobre a hipotética implementação da bitola europeia para toda a sua rede. Espanha fechou esta matéria, como reporta hoje o CincoDías do ElPais.
O artigo mais lido deste blog há vários anos antecipava o que agora o necessário estudo definitivo sobre a matéria nos transmite – O problema da bitola ferroviária em Portugal – Transporte Ferroviário
Em resumo: só o custo de construção civil para migrar toda a rede espanhola para bitola europeia soma 20 a 30 mil milhões de Euros a preços actuais, sem contar com toda a gestão da mudança e respectivo custo, ao longo das várias décadas que seriam necessárias para a migração. E, como há vários anos aqui escrevi, seria incomportável para a economia e para o sector ferroviário especificamente suportar as quebras de serviço monumentais que a longa e dura fase de transição suporia – para tentarmos resolver um problema que afecta o tráfego internacional (já lá vamos), mataríamos o sistema.
Como também aqui disse, a União Europeia não bloqueia implementação de bitola ibérica coisa nenhuma – exigia sim este estudo, para matar de uma vez por todas o assunto. Estudo que também está em finalização em Portugal. Por cá não vai ser diferente – se em Espanha se noticia que o benefício da troca de bitola não pagaria sequer 10% do custo de construção civil (fora o resto, reforço) para a troca, em Portugal o mais provável é este dado ser ainda mais negativo. A maioria do potencial de tráfego internacional espanhol é com França, onde a disrupção da bitola existe e o cenário é este. Já Portugal tem mais de 90% do seu potencial de tráfego internacional com Espanha, onde este problema não existe ao dia de hoje.
Espero que com isto quem se sempre se disse motivado apenas e só por critérios racionais tenha a humildade de reconhecer que se estudou o tema ao seu limite e o resultado dificilmente seria mais claro. Como vem normalmente de sectores especialmente sensíveis a custos de contexto e à limitação de investimento público, espero que tão dramáticas conclusões lhes pareçam totalmente definitivas, dado o custo impensável da potencial migração.
Posto isto, há problemas por resolver. Como também escrevi antes, sim, é verdade que uma bitola diferente nos limita um pouco no acesso a material interoperável e, sendo essa uma das grandes barreiras à entrada da concorrência, sim, limita um pouco a concorrência. E é precisamente por existir aqui uma falha de mercado que volto a lançar a ideia de podermos encarar a questão da bitola de outra forma.
- Se um comboio bi-bitola pode custar 10 ou 15% mais que um comboio normal, podemos criar um quadro que financie esse sobrecusto a qualquer encomenda do género? É infinitamente mais barato comportar ao nível do Estado o diferencial de custo de aquisição de material circulante preparado para saltar entre bitolas do que nos metermos neste inferno sem fim da troca de bitola;
- Se nas mercadorias existe realmente uma impedância nos Pirinéus, faz mais sentido subsidiar plataformas de transbordo automático entre vagões para quem as quiser usar para servir o seu mercado? Ou fará mais sentido subsidiar o sobrecusto de tecnologias de eixos telescópicos para os vagões, a exemplo dos eixos OGI já testados em Espanha?
Para mim faz sentido que a discussão agora ocorra noutro patamar. Os comboios hoje já tornaram obsoleta a discussão da bitola física instalada na infraestrutura, mas há uma discussão económica com sentido para fazer. Não é que o mercado hoje se comporte mal – basta ver o número de operadores de mercadorias activos na península Ibérica, mas deste processo também percebemos que ainda podemos limar arestas e que pode existir um benefício claro em endereçá-las.
Certo é que agora nos podemos focar em discutir expansão de infraestruturas para dar mais serviço às pessoas, em vez de discutirmos como vamos penhorar orçamentos das próximas décadas a fazer alterações cosméticas na infraestrutura que só iriam destruir o que diziam defender.