Passe Verde e Intercidades

Passe Verde e Intercidades

15 Novembro, 2025 2 Por Joao Cunha

Tem sido notícia nos últimos dias a crescente insatisfação dos passageiros da CP com a dificuldade – e mesmo impossibilidade crónica – de marcar lugares a bordo de vários comboios Intercidades, na sequência da implementação do Passe Verde, que por 20 euros mensais permite subir a bordo de qualquer comboio Intercidades (além dos regionais) sem sequer ser preciso pagar a reserva de lugar.

O que se seguiu a esta implementação era o absolutamente expectável e demonstra porque estava certíssimo quando fui liminarmente contra a sua adopção, até mesmo na sua versão original quando ainda não dava acesso aos Intercidades – subsidiar procura quando o sistema ferroviário se debate há uma década com défice de oferta é uma política populista, que serve apenas para comprar votos no curto prazo e que não está preocupada com o futuro sustentável do país e, neste caso, do serviço ferroviário.

O número de passageiros nestes comboios subiu imenso – e já antes estavam sob uma pressão gigante do lado da procura – mas o número de passageiros-km (que entra em consideração com o número de quilómetros que cada passageiro faz) não subiu sequer um terço disso. É certo que isso demonstra que podem ser percursos terminais que antes estavam mais vazios e que agora estão mais aproveitados (por exemplo, Aveiro – Porto), mas também de que há muita gente a ocupar lugares de quem iria fazer Lisboa – Porto para fazer Lisboa – Santarém, dado que a ocupação máxima acontece muitas vezes logo na origem.

Somamos a isto uma política comercial que não só não evoluiu com o tempo e com o próprio reposicionamento que a CP foi fazendo dos ICs (já lá chego) como ainda se degradou, como o prova o facto da CP negar liminarmente a hipótese de passageiros sem marcação de lugar poderem continuar num comboio Intercidades, quando não raras vezes embarcam em estações sem bilheteiras ou sequer máquinas de bilhetes funcionais, não podendo assim sequer ter a oportunidade de saber, antes de entrar no comboio, se há lugar ou não. Kafkiano.

O conceito Intercidades mudou e ninguém se apercebeu disso

Este é um caso muito divertido que mostra como por vezes o operador vai reposicionando o serviço ao longo dos anos mas, paradoxalmente, é o último a aperceber-se que o fez. Os IC em 1988 eram a oferta de topo de gama do país onde não circulavam os comboios ALFA (limitados a Lisboa – Porto), mas sobretudo com o fim dos interregionais entre 2003 e 2005 passaram a ser verdadeiramente o comboio que estrutura o território e que equilibra serviço de alto nível e democraticidade no seu acesso. A própria CP o incentivou: a lei de paragens tornou-se maximalista em quase todos os eixos, para não deixar sem serviço as importantes vilas – e até cidades – que até aí eram apenas servidas pelos desaparecidos Interregionais. Além disso, o serviço nas estações foi abandonado, e de um serviço que se baseava em estações sempre com bilheteiras abertas passámos a aceitar que estações onde param serviços desta importância podem não ter qualquer suporte ao passageiro como, desde logo, a venda de bilhetes – opção “corajosa” para um serviço com reserva de lugar obrigatória.

A bordo a degradação do serviço foi tão visível na diminuição gradual do serviço de bar (e restauração a bordo, ainda alguém se lembra?) como do laxismo no conforto a bordo. Desde a renovação das Corail em 2004 que propositadamente piorou muito o conforto da 2ª classe, como o adiamento permanente da renovação de todo o parque IC que, actualmente, está basicamente uma ruína.

Apesar do papel que os ICs cumprem vai para 20 anos e por todas as despromoções feitas nas componentes de serviço à sua volta, a CP mantém uma abordagem comercial digna do tempo em que eram comboios “de luxo”:

  • A reserva de lugar é obrigatória e não opcional, como é regra neste tipo de comboios por quase toda a Europa (Portugal, Espanha e França são excepções)
  • Na generalidade dos eixos, o serviço continua a ser o padrão do comboio de manhã e ao fim do dia, com uma circulação adicional à hora de almoço

Isto já estava desadequado antes, mas com o passe verde pior ficou. Porque é que comboios que estão posicionados como hoje estão e que servem estações sem bilheteiras mantêm a obrigatoriedade da reserva de lugar? Ser opcional não implica que não se possa reservar o lugar para garantir lugar sentado, como qualquer viagem modesta por essa Europa fora facilmente demonstra. Com o passe verde, a não actualização da fórmula de comercialização dos comboios é além do mais factor de conflito e de exclusão, porque a CP não está preparada nem para responder à procura adicional nem para filtrar devidamente quem acede aos comboios.

Além do mais, a diluição ao longo do tempo da taxa de reserva de lugar – componente da tarifa Intercidades – parece também ter feito esquecer responsáveis políticos da importância de que qualquer pessoa que reserve um lugar a bordo pague essa taxa de 3 ou 4 euros. É impensável um Passe Verde permitir a subida a bordo sem sequer ser preciso pagar essa taxa, que os restantes passageiros pagam (embora não esteja já discriminada na tarifa como antigamente).

Por último, o comboio Intercidades é hoje o único comboio que realmente interessa para viagens mais longas em linhas como as das Beiras, do Sul ou do Alentejo. Qualquer serviço com frequência inferior a duas horas para cada sentido é hoje em dia impensável, mas não existe a menor discussão sobre a alteração deste paradigma – que necessita uma gestão de material distinta e provavelmente mais pessoal também. Num país que apostou no Passe Verde, a não actualização das frequências mínimas e ao longo de todo o dia para a rede Intercidades é um erro de dimensões enormes que os portugueses pagam diariamente, quando ainda tentam aceder ao comboio.

Conclusão

É fundamental preparar os Intercidades para poderem admitir passageiros com e sem reserva de lugar, para aumentar a flexibilidade da sua utilização. Neste segmento de tráfego de Longo Curso é uma raridade a existência desta exigência e no caso português tornou-se além do mais insustentável até pelo abandono dos serviços de apoio nas estações.

Para além disso, é impensável que continue a ser possível aceder aos comboios Intercidades, enquanto continuarem com reserva obrigatória, sem pelo menos se pagar taxa de reserva do lugar. A quantidade de lugares reservados sem custos que depois não são ocupados é bem visível a bordo e é uma irracionalidade com tanta escassez de oferta não colocar uma mínima barreira para moderar o acesso.

Por fim, a expansão de frequências tem de entrar na agenda, para pelo menos a partir do serviço horário de 2027 atingir já níveis mínimos de serviço – em várias linhas pode até ser interessante eliminar a oferta regional e concentrar tudo numa única marca, com algumas paragens facultativas para compensar a perda dos regionais. Tal exige uma disponibilização de carruagens para serviço em linha com a tipologia de parque que é – bem menos complexo de manter do que unidades motoras – e exige a preparação de pessoal ao longo de 2026. A prazo, a substituição e ampliação do parque de carruagens é uma discussão fundamental pois também já não faz sentido voltar atrás na promoção que se faz pela via tarifária do comboio e Portugal, que muitas vezes vemos como um país pequeno, é na realidade um país médio com alguma densidade populacional.