Adamuz, a verdade foi a primeira vítima
Nunca é confortável escrever sobre um acidente que vitimou mais de 40 pessoas, mas se há algo que o acidente na linha de alta velocidade Madrid – Sevilha nos mostra é, uma vez mais, como a mentira nas infraestruturas é uma arma mortal.
Adamuz está para a rede ferroviária espanhola como Chernobyl esteve para o sistema energético soviético nos anos 1980. Muito embora Espanha tenha criado infraestruturas ferroviárias a um ritmo inigualável na Europa nos últimos 30 anos, a gangrena que é a super politização de áreas técnicas é a verdadeira causa do acidente de Adamuz. Mecanicamente, a causa foi uma soldadura que deu de si sim ninguém ter dado por isso, obrigando o comboio da Iryo a descarrilar e a esventrar o Alvia da Renfe que seguia em sentido contrário. Mas como pode um acidente com uma causa tão óbvia ocorrer assim? Porque há um sistema de segurança gravemente doente.
Passados mais de 10 anos sobre Angrois, Espanha continua a ver tudo segundo cores políticas. Em Angrois, o grande culpado foi um desgraçado maquinista que é obrigado a viver para sempre com a culpa de tantas mortes num sistema que o deixou sozinho a definir quem vive e quem morre. Apesar da alta velocidade e da transição para baixa velocidade numa linha incaracterística até a olhos treinados, o Estado Espanhol tinha aceite normativos que lhe permitiam operar sem o ETCS previsto originalmente, mas nem por isso o réu principal foi outro.
Na altura, governava o PP. Agora, governa o PSOE. Em comum, a tentativa clara e rápida a seguir ao acidente de condicionar comunicação e a investigação. Quando agora vemos Oscar Puente freneticamente nas TVs e no X a “dar a cara”, estamos na realidade a ver um ministro que não se cansa de tirar conclusões apesar de ser tecnicamente impreparado para digerir os dados que recebe, como a recente e surreal afirmação de que o maior peso bruto do comboio Iryo pode ter influenciado o desfecho. Este “dar a cara” não é mais do que um sintoma adicional do mesmo sistema que transformou a ADIF de um gestor de infraestruturas a dar cartas internacionalmente numa empresa altamente interessante para empregar os nulos dos partidos que querem construir boas carreiras e ter bons salários apesar de não terem preparação para nada. Só na ADIF, nos últimos anos, há cerca de 800 nomeações políticas que representam excendentários face ao efectivo planeado na ADIF. Entre elas, há até uma prostituta que dormia com o ministro Abalos (agora na cadeia). Já com Puente, a ADIF não parou de ser colonizada, e o ritmo até parece em aceleração.
Ora esta colonização política – que se vê nesta histeria televisiva do ministro mas também no perfil tuiteiro e partidariamente sectário do presidente da Renfe, para dar outro exemplo – destrói rapidamente os alicerces uma cultura de segurança saudável. Uma cultura que talvez não tivesse menosprezado anos e anos de queixas de operadores e seu pessoal para infraestruturas em estado subóptimo de conservação, onde os acidentes se foram sucedendo a um ritmo quase igual ao de tantos outros encerramentos temporários por falta de resiliência face a eventos climatéricos. Uma cultura de segurança talvez não tivesse comprado balastro para a renovação do Madrid – Sevilha a empresas não homologadas (e onde por acaso trabalha a esposa de um antigo braço direito do primeiro-ministro espanhol, Koldo) e talvez tivesse tido outra atenção para o controlo de qualidade das soldaduras feitas na renovação de 2025 daquele troço. Uma cultura de segurança talvez tivesse aconselhado a não fazer proclamações heróicas como as que Puente fez desde 2024, propagandeando que Espanha vive o seu melhor momento ferroviário da história. Uma cultura de segurança nunca, nunca entregaria uma empresa iminentemente técnica como a ADIF a colonatos partidários que mereceriam condenação até do inoperante conselho de segurança da ONU.
Num país de fraca tradição em matéria de segurança e com investigação a acidentes débil e com passado de reduzida independência, o pós-Adamuz que vemos aos responsáveis principais é um garante de que Adamuz poderá não ser Chernobyl da rede espanhola por uma simples razão – porque possivelmente não existe o contexto para aprendizagem que apesar de tudo o colapso da União Soviética permitiu no caso da central nuclear. E assim, Adamuz pode apenas ser mais um nome a juntar à lista onde pontificam Angrois ou Chinchilla, para citar apenas dois casos das últimas décadas.
É certo que há muito ainda para investigar e para questionar. Mas desde as práticas preventivas até às práticas de gestão da crise uma vez gerado o acidente, é certo que Espanha continua a divergir das melhores práticas e os responsáveis são apenas políticos. Como sempre em casos que demonstram falhas tão sistémicas e com responsabilidades tão elevadas, é impensável algum governo resistir a uma tragédia destas mas, suspeito, não será isso que vai acontecer. Entretanto, a Catalunha já conta com mais de 3 dias de apagão ferroviário na última semana, porque agora os problemas são visíveis e durante uns dias ninguém vai assinar por baixo de coisas que pareçam menos seguras. Até voltar tudo ao normal.
Deixo-vos com a série final do julgamento reproduzido na série Chernobyl, onde oiço agora tanta argumentação ferroviária possível a substituir a da engenharia nuclear, mas a mensagem no fim do dia é a mesma – a verdade é sempre uma vítima anterior aos acidentes. Estes acontecem porque a verdade já lá não está.