Tanto consenso necessário, agora?

Tanto consenso necessário, agora?

14 Junho, 2022 0 Por Joao Cunha

Durante os últimos anos, em quadro parlamentar bem mais frágil, António Costa não quis saber do PSD. Enquanto isso avançou com o aeroporto do Montijo – que foi lançado pelo PSD – e entretanto lançou a fundamental avaliação estratégica, que tinha sido apressadamente dispensada. Anuncia investimentos para a ferrovia, sendo que o principal deles havia sido colocado no mapa da União Europeia em 2014 (com o PSD, portanto) e entretanto surge também (de forma tosca) no último programa eleitoral do partido.

Há um consenso tácito sobre as próximas infraestruturas a erguer como nunca houve na democracia, e nem foi preciso Costa seduzir o PSD – o PSD, com todos os males que pode ter, desde a primeira hora se manifestou, por acção e por omissão, favorável a um crescimento histórico do investimento em ferrovia, nomeadamente.

Não será estranho que logo agora, quando há uma maioria absoluta amplíssima e quando o PSD nunca deu sinal algum de discordância nestes pontos, que António Costa e Pedro Nuno Santos se lancem a terreiro a pedir confirmação de consensos? Há alguma coisa que nos queiram dizer a todos e que esteja por trás deste súbito interesse de formalizar o que era bem dispensado de formalização até aqui?

Para contexto, para se fazer o que está prometido até 2030, o orçamento previsto devia ser já reforçado em 20 ou 30%, o que não está feito nem dito. Para tanta urgência de consenso, é também estranho que a apresentação do Plano Ferroviário Nacional – a grande pedra basilar em torno do qual o consenso faria sentido – tenha sido adiada para 2023.

Sabendo que os juros da dívida estão e vão continuar a aumentar, que os custos de obras estão e vão continuar a aumentar e que Portugal está cada vez mais na cauda da Europa e cada vez mais dependente dos fundos europeus até para alcatroar uma estrada, devemos interpretar como este súbito interesse em consensos escritos na pedra?

Dá para desconfiar. 10.000 milhões ainda é uma almofada orçamental generosa.