A dura realidade na ferrovia nacional
O elefante no meio da estação ferroviária é o dinheiro. Ao fim de quase 10 anos de “prioridade nacional absoluta” da ferrovia, o nosso avanço não é sequer comparável ao que Roménia e Bulgária conheceram no mesmo período, ou sequer a Polónia, se quisermos escolher um país de leste cujo ponto de partida fosse melhor que o nosso e, por isso, de mais difícil progressão.
A dura realidade é que falta dinheiro na ferrovia. A medida das frustrações e estagnações que vemos é a exacta medida do subfinanciamento do sector que, mesmo apesar de traumas como a Infraestruturas de Portugal, rentabiliza melhor 1€ do que a generalidade dos sectores por cá – maravilhas de se habituar a ser pobre.
Defendi há vários anos que o caminho para garantir os fundos era assumir, à cabeça, um certo valor de investimento constante a pelo menos 10 anos – Regra de Ouro orçamental ou encerramento – Planeamento e Operações (portugalferroviario.net)
Passados 8 anos do PETI3+ e 7 anos do seu rebranding, o Ferrovia 2020, nem a nossa rede se aproximou de standards europeus nem a nossa operação tem hoje mais qualidade. Ao contrário, há hoje mais incidências de exploração na infraestrutura do que há 10 anos – mais avarias repetidas de sinais, mais falhas de catenária, mais afrouxamentos (até em troços recém-renovados!). Na operação, temos hoje no operador público muito mais laxismo na organização do tráfego, os comboios estão significativamente mais velhos e desesperados por renovação e até a magra compra de 22 comboios regionais foi para o fim da fila dos fabricantes, com entrega a partir de 2025 apenas, entre esmagamento de preços e demoras de garantia de fundos para efectivar a encomenda.
Meus amigos, vamos enfrentar a realidade – quanto mais vos dizem que a ferrovia é o futuro e que é a grande aposta governamental, mais escolhas equívocas são feitas. Do Ferrovia 2020, de 2,7 mil milhões de Euros dos quais 80% de origem europeia, Portugal não executará sequer 1,6 mil milhões, dos quais 85% de origem europeia. O esforço orçamental em investimento na ferrovia, ao longo dos 10 anos entre 2014 e 2023, vai cifrar-se em 24 milhões/ano, ou 0,01% do PIB, aproximadamente.
Enquanto os políticos prometem ferrovia a rodos e nos garantem que a transição energética é para valer, oferecem 3,3 mil milhões de Euros à TAP em apenas dois anos – 0,825% do PIB por ano, aproximadamente – 80 vezes maior esforço que com a ferrovia, portanto.
Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro vangloria-se por ter convencido a Comissão Europeia a não ser alérgica a estradas, enquanto inscreve 500 milhões para estradas no plano de recuperação e resiliência e 0 milhões para novas linhas.
Estamos no final de 2022 e, com o Ferrovia 2020 sem concretizar nem auditar, queremos por 10 mil milhões na rede até 2030. Para isso, foi mantida a administração da IP no seu essencial, a mesma que de forma ardilosa tem conseguido adiar e esvaziar suficientemente todos os projectos para que o Estado consiga, não executando investimento ferroviário, pagar os investimentos que faz numa companhia aérea, nas estradas ou a subsidiar combustíveis para transportes pesados de mercadorias.
7 anos volvidos sobre a entrada do PS na ferrovia, com a honrosa e muito digna excepção de um alien chamado Nuno Freitas que passou, qual cometa, pela CP, o Governo nada avançou – não garantiu sequer ainda a resolução final da dívida histórica da CP nem da sua autonomia de gestão, garantindo-nos que é pela dificuldade de convencer a Comissão Europeia de que não se tratam de ajudas de Estado – apesar desta condição já estar inscrita no contrato de serviço público, em vigor e com visto de Bruxelas. O mesmo governo que em 6 meses inicia e fecha uma negociação em Bruxelas para salvar uma companhia aérea falida, tenta fazer-nos acreditar que tem de ser moroso resolver a dívida histórica da empresa ferroviária.
Para além de ter garantido uma esmola de poucos milhões de Euros que os valorosos operários da CP transformaram num bálsamo operacional com a recuperação improvisada de material antigo, onde está a ambição para a ferrovia neste país?
Quem se entrincheira no seu partido e na fidelidade ao líder, esquece-se que interessa mais a lealdade ao país e ao sector. Demissões, criação de projectos alternativos ou simples retiradas são a única coisa coerente quanto estamos perante o Governo mais imobilista de sempre na ferrovia:
- Guterres e Durão sempre aproveitaram boleias de eventos para investir na rede;
- Sócrates, apesar de alguns encerramentos, tinha uma ideia para a rede;
- Cavaco, apesar de muitos encerramentos, foi quem mais investiu na rede em democracia;
- Passos, que herdou um país em risco de não pagar a funcionários públicos, iniciou revisão da dívida da CP e o Ferrovia 2020.
António Costa, com uma conjuntura historicamente favorável (até na crise – veja-se o saco de dinheiro que a UE disponibiliza!) e com a patine de neo-moralista dos costumes ecológicos, vai-nos entregar um país enterrado a financiar jetfuel e uma rede ferroviária renovada com um saco de amendoins? Sim, caros apoiantes deste pântano absoluto, isto é pior que medíocre!
Bardamerda para isto!