Aeroporto em Santarém, um mito caro

Aeroporto em Santarém, um mito caro

24 Setembro, 2022 18 Por Joao Cunha

Apareceu do nada, com uma peça jornalística na SIC que erradamente não foi marcada como conteúdo patrocinado, e com uma interessante linha de promoção: para o cinquentenário problema de escolha da localização do aeroporto, existe uma localização em que tudo é perfeito – há iniciativa privada que o faria de graça, já tem todas as infraestruturas de transporte à sua volta prontas para servir o aeroporto, um local de fácil implantação, com impactos ambientais diminutos, apta a uma implantação faseada para complementar a Portela ou até para substituir o aeroporto actual de Lisboa. Enfim, ao longo de cinquenta anos muitos dos nossos melhores engenheiros ignoraram uma verdadeira benção dos céus? Quão pouco crentes!

Com o passar dos dias percebemos que o Primeiro-Ministro já estava caído de amores por isto, e que também o líder do PSD já estava seduzido. Não tardou a sabermos que esta generosa iniciativa havia sido cunhada nomeadamente por Humberto Pedrosa, o nome persistente no mundo dos transportes em Portugal e que lidera um grupo económico que normalmente tem bastante fortuna quando governa o PS.

Localização

Local aproximado proposto para Santarém, na zona da área de serviço da Auto-estrada número 1, no perímetro da Reserva Natural do Paul do Boquilobo
Em linha recta, a localização proposta no distrito de Santarém dista 86 quilómetros do centro de Lisboa – 2,32 vezes mais do que o campo de tiro de Alcochete

Para compararmos com a localização proposta para o campo de tiro de Alcochete:

Em linha recta, o campo de tiro de Alcochete dista 37 quilómetros do centro de Lisboa

A grande desvantagem de Alcochete é a sua distância ao centro de Lisboa e, ainda assim, está praticamente 50 quilómetros mais próximo do centro da área metropolitana de Lisboa, coração de uma região com 3 milhões de habitantes e o grande centro originador de tráfego para o aeroporto de Lisboa, onde quer que ele seja.

As infraestruturas de transportes em Santarém

Um dos grandes “selling points” desta localização a mais de 80 quilómetros de Lisboa é o serviço pela auto-estrada número 1 e pela linha do Norte, o que ajuda à estratégia de promoção global que consistem em dizer que, miraculosamente, esta localização é uma solução estilo “juntar água e farinha” e já está.

Se considerarmos que o aeroporto em Santarém se destina apenas a ser complementar e, portanto, a substituir nessa solução o que seria o aeroporto no Montijo, falamos assim de um volume anual de passageiros a rondar os 8 milhões por ano. Destes, 70 a 80% serão originários da área metropolitana de Lisboa e Setúbal, com os restantes a serem repartidos entre o Sul e o Norte do país. Ou seja, podemos considerar que 6 milhões de pessoas por ano utilizarão a infraestrutura por causa da Área Metropolitana de Lisboa.

A Área Metropolitana de Lisboa termina na zona do Carregado, a cerca de 50 quilómetros a Sul da localização proposta em Santarém. Ou seja, o limite Norte da AML está mais distante desta nova localização em 12 quilómetros do que o centro de Lisboa está distante da localização proposta em Alcochete, minha referência para aqui dado que neste caso a maior desvantagem apontada desde que começou a ser estudada é mesmo a distância.

Se 6 milhões de pessoas que utilizarão anualmente o aeroporto em Santarém são oriundas da AML, isso significa que necessitam de 12 milhões de viagens entre a sua origem/destino e o aeroporto. Se imaginarmos que metade das pessoas chegarão de carro, e que entre pessoas que serão conduzidas por familiares ou amigos (portanto, originando o dobro das viagens de carro para essa população) e pessoas que viajam para o aeroporto, se chega à média de um carro por pessoa a utilizar o aeroporto, teremos 6 milhões de viagens anuais adicionais na auto-estrada número 1.

No primeiro trimestre de 2022, antes do forte impacto do aumento do preço dos combustíveis e já com procura recuperada após a Covid-19, o tráfego médio diário no troço Cartaxo – Santarém foi de 30.500 carros. Se os 6 milhões de carros anuais forem adicionados a este troço, falamos de um aumento de 16.500 carros por dia – um aumento de 54% face ao tráfego actual. Se este troço mais a Norte pode até aguentar, quando entramos em troços mais a Sul vemos que na zona do Carregado os 50.000 carros diários passariam a mais de 66.000.

Não é por isso possível dizer que a A1 está pronta a servir o aeroporto – uma franca expansão de capacidade é necessária pelo menos ao longo de cerca de 70 quilómetros, até ao nó da CREL, até onde o tráfego se dispersa rumo a outras vias importantes da AML.

Olhando à linha do Norte, vemos que seria necessário construir um ramal de pelo menos 6 quilómetros para servir o aeroporto e entroncar com a linha na zona de Vale de Figueira. Idealmente, dada a localização, devia ser previsto também um ramal a apontar a Norte, mas simplifico neste artigo.

Possível ramal para servir o aeroporto em Santarém, com ligação à linha do Norte próximo do PK 87 da linha, cerca de três quilómetros a Norte da estação de Vale de Figueira

Esta localização compromete severamente a estratégia territorial do país e a estruturação com a nova linha de alta velocidade Lisboa – Porto, estando em linha recta a mais de 30 quilómetros do eixo onde passará a nova linha. Contrariamente à alternativa de Alcochete, em localização que pode permitir futuramente ser introduzida no eixo Lisboa – Madrid logo que se faça a tão necessária Terceira Travessia do Tejo, esta localização em Santarém é um “dead end”.

Em linha recta, a localização aproximada proposta para o novo aeroporto dista mais de 30 quilómetros do local da futura passagem da linha de Alta Velocidade Carregado – Porto

A implantação do ramal de acesso à linha do Norte estaria perto do PK 87 da linha. Deste ponto até ao Oriente, um comboio Intercidades tarda cerca de 42 minutos, um comboio Alfa Pendular 35 minutos e um comboio regional, na melhor das hipóteses, 65 minutos. A estes tempos havia que adicionar 3 a 4 minutos de tempo adicional já no novo ramal. Ou seja, num comboio rápido de longo curso, o melhor tempo possível será de 38 a 39 minutos. A linha do Norte não comportará viagens mais rápidas tal como está e o tipo de serviço de Longo Curso que permite um tempo a rondar os 40 minutos não é compatível com o serviço ao aeroporto.

Para termos comparação adicional, a CP diariamente oferece cerca de 6.000 lugares nos seus comboios de longo curso entre Lisboa e o Porto e se considerarmos que o aeroporto será abastecido a partir da AML com 50% dos passageiros a chegarem de comboio, falamos de cerca de 16.500 passageiros ferroviários por dia – praticamente o triplo da oferta que hoje existe.

Mesmo com a migração dos tráfegos mais rápidos Lisboa – Porto para a nova linha de alta velocidade, não existe capacidade na linha do Norte para operar algo como 30 horários por dia e por sentido, para composições de 300 passageiros aptas a 200 km/h, ainda para mais com concentração fundamentalmente entre as 07:00 e as 22:00 e com previsíveis picos de procura em franjas ainda mais pequenas.

Se para chegar a Lisboa seriam necessários cerca de 45 minutos com paragens em Santarém, Vila Franca e Alverca, há que somar mais cerca de uma hora para chegar a Cascais ou 45 minutos adicionais para Sintra, mais uma hora até Setúbal, só para citar três exemplos de localizações que contribuem com boa parte dos 75% de quota da AML na utilização do aeroporto de Santarém, se o volume for similar ao que se projectou para o Montijo. Estamos no limiar da absoluta inviabilidade desta opção.

Por comparação, Alcochete estaria sem dificuldade nenhuma a 20 minutos do Oriente, já depois de servir a península de Setúbal e o Barreiro.

Investimento necessário em acessibilidades

Começando pelo mais óbvio, os cerca de 6 quilómetros de ramal de acesso à linha do Norte com estação incorporada, poderia ter um custo de cerca de 100 milhões de Euros, assumindo que a gare no aeroporto não é um dos famosos apeadeiros minimalistas de que a Infraestruturas de Portugal tanto gosta.

Os cerca de 80 quilómetros a intervencionar na A1 para aumento de capacidade ficarão, numa estimativa conservadora e alinhada com os custos de alargamento ocorridos há bem mais de 10 anos, por cerca de 200 milhões de Euros.

Na linha do Norte, havia que quadruplicar toda a linha entre Vale de Figueira e Alverca, cerca de 62 quilómetros. O custo de quadruplicar uma linha tão antiga e que já corre fundamentalmente por terrenos consolidados e altamente valorizados é muito elevado. Aproveitando um trabalho que fiz aqui no blog em tempos, no artigo Alta Velocidade em Portugal, já! – Planeamento e Operações (portugalferroviario.net), a quadruplicação e correcção da linha para permitir uniformemente a prática dos 220 km/h (cerca de metade do troço a intervencionar está limitado a velocidades entre 110 e 140 km/h), custaria entre 800 e 1.000 milhões de Euros, a preços de 2019. Isto permitiria chegar ao centro de Lisboa em cerca de 35 minutos em comboio rápido, ou 1h20 para Sintra, ou 1h35 para Setúbal. Tempos excessivos, ainda assim, sobretudo tratando-se da utilização de comboios rápidos entre Aeroporto e Lisboa – na realidade, o serviço ao aeroporto será racionalmente mais focado em comboios com mais paragens, para servirem desde logo parte da área de influência do aeroporto que se encontra ao longo da linha do Norte.

Um eventual ramal para ligar o aeroporto à linha de alta velocidade no seu ponto fisicamente mais próximo, alinhado com a estratégia nacional para o território que o preconiza quer para o aeroporto do Porto quer para o eventual aeroporto em Alcochete, estamos a falar de pelo menos 600 milhões de Euros. Se a ideia for fazer uma linha nova e de alta velocidade em direcção ao Carregado, onde a linha de Alta Velocidade entroncará com a linha do Norte, falaremos de montante idêntico (terreno mais favorável, compensando a maior distância – 50 quilómetros).

Ou seja, só para realizar o aumento de capacidade da actual auto-estrada e da linha do Norte, há a prever entre 1.100 e 1.300 milhões de Euros em acessibilidades. Se se somar a vontade de incorporar o aeroporto na rede de alta velocidade, têm de se somar mais 600.

É ainda fundamental destacar o custo ambiental de fazer 12 milhões de viagens anuais entre a AML e esta localização proposta, com um trajecto médio que podemos fixar nos 86 quilómetros de que dista a localização proposta do centro de Lisboa. Na melhor das hipóteses, cada passageiro do aeroporto emitirá 2,4 kg de CO2 se for de comboio ou 7,5 kg de CO2 se for de carro. 22.500 toneladas de CO2 para quem vai de carro e 7.200 toneladas de CO2 para quem lá for de comboio – só para os 75% de público do aeroporto originários da AML.

Este custo ambiental exorbitante é um dos motivos pelos quais, mesmo com transportes eficientes e rápidos como o ferroviário, se evita a realização de grandes fluxos de ligação em grandes distâncias como estas – mesmo com um transporte ambientalmente responsável, o custo final das deslocações é muito grande.

É falso que o aeroporto em Santarém possa aproveitar infraestruturas de transporte existentes e sem necessidade de grandes adaptações. O custo das acessibilidades ao aeroporto de Santarém é superior ao da construção da Terceira Travessia do Tejo, e esta por exemplo servirá muito mais do que um aeroporto na margem Sul, dado que o seu racional de construção é sustentado mesmo que não exista aeroporto algum na margem Sul do Tejo.