Marketing pedagógico num país com falta de experiência
Portugal tem falta de experiência em matéria ferroviária. Estamos distantes da Europa civilizada e onde a vida dos cidadãos gira à volta do caminho de ferro – em Portugal, parece até ridícula a expressão. Muitas das discussões que se vão tendo na praça pública são rapidamente inundadas por perguntas mais ou menos ingénuas, mas que no fim da linha acabam a complicar substancialmente a obtenção de consensos e, sobretudo, de políticas públicas alinhadas com as melhores práticas internacionais.
É comum ouvirem-se perguntas como as que passo a citar, e que revelam uma grande falta de conhecimento por parte de quem noticia (com a excepção de um punhado de jornalistas especializados) e de quem opina:
- Não precisamos da bitola europeia se quisermos exportar para Espanha e para o resto da Europa?
- Vale a pena alta velocidade se houverem paragens intermédias, com o tempo que demora a acelerar?
- Como é que a linha do Norte está saturada se às vezes está muito tempo sem passar um comboio?
- A mudança de bitola por um comboio não é uma coisa tecnicamente muito complexa?
Actividades possíveis
A nível ministerial, se a ideia é conseguir convencer o país e as suas forças vivas de que os projectos de infraestrutura tal como estão a ser apresentados estão bem pensados – ideia que partilho grandemente – penso que a aposta devia ser num marketing mais pedagógico e menos dependente das estratégias de comunicação política mais habituais e mais centradas no caso ou na simpatia partidária.
Idealmente, um grupo de jornalistas mais habituais no acompanhamento dos temas ferroviários e, quiçá, um punhado de mais habituais opinion-makers poderiam ser convidados a um programa de actividades formativas baseados na observação de casos reais e interacção com agentes do sector, para promover a experiência em primeira mão de conceitos que não temos em Portugal mas que necessitamos de compreender para reportar e analisar os temas com a sensibilidade necessária.
Entre estas actividades, poderíamos ter:
- Uma viagem num serviço de alta velocidade entre Madrid e Barcelona, com paragens intermédias, e com autorização da Renfe para, rotativamente, experimentarem a aceleração e frenagem nas paragens a partir da cabine de condução;
- Visita a um centro de comando operacional em Portugal, com orientação de um regulador de linha, para entender dinâmica do movimento ferroviário e variáveis para saturação;
- Viagem na cabine de um comboio Alfa Pendular ao longo do eixo Porto – Lisboa;
- Viagem na cabine de um comboio de mercadorias para Sines;
- Visita a um “cambiador” de bitola em Espanha (Madrid por exemplo) para ver um comboio a mudar de bitola em andamento;
- Visita a um centro operacional de produção de mercadorias – Medway, Captrain, Renfe Mercancias são boas candidatas.
Ainda há outras ideias interessantes, relativamente fáceis de organizar com o poder político a requisitá-lo, como por exemplo:
- Trazer a Portugal os vagões com os eixos bi-bitola OGI testados e homologados em Espanha, amparados por uma sessão pública sobre os prós e contras da tecnologia e sua aplicabilidade (todos os vagões? Só vagões para tráfegos além-Pirinéus?)
- Trazer a Portugal um comboio de passageiros bi-bitola, com autorização especial de circulação, para efeitos de demonstração – um comboio saído de Madrid em bitola internacional em direcção a Norte, e entrando por Vilar Formoso já em bitola ibérica.
Acredito que dar exposição concreta a realidades e sensibilidades importantes para entender a complexidade e os conceitos propostos nos planos nacionais poderia fazer uma grande diferença. Seria sempre marketing político, mas com uma grande componente pedagógica – tipicamente a seriedade intelectual e a inclusão das pessoas na observação das boas práticas traz resultados muito melhores. O custo de organizar estas viagens e estas demonstrações seria sempre muito baixo face a outros meios de propaganda política que muito regularmente os governos pagam.
Sem dúvida. Sobretudo aqueles ditos especialistas que insistem em não (querer) ver as vantagens de um projeto de AV a iniciar-se em bitola ibérica… os ganhos de rede que se obtêm e as poucas (ou nenhumas) desvantagens mesmo para mercadorias… A mudança de infraestruturas é muita mais importante a nivel de tensão elétrica (a electrificação de linhas tem já de ser ponderada com alternativas a hidrogénio), sinalética e sistemas de segurança, que também não estão na mesma “bitola”, nem sequer em território nacional, nem com Espanha, quanto mais com o resto da Europa. A mudança de bitola dos carris terá de ser bem planeada, feita (se assim for) por fases, de acordo com a análise conjunta com as autoridades europeias, para não trazer prejuízo.