As políticas sociais do colapso ferroviário

As políticas sociais do colapso ferroviário

15 Agosto, 2024 0 Por Joao Cunha

Tal como durante a décadas a fio temos obrigado senhorios a fazerem política social em prol de ganhos políticos de terceiros, aguzida-se agora a tendência que PS e partidos de esquerda inauguraram – o PSD anunciou que alargará o passe ferroviário nacional a todos os serviços, com exceção do Alfa Pendular, e por apenas 20€ por mês.

Esta compra de votos, que mantém a tendência política que António Costa já havia elevado a patamares nunca antes visitados, colapsará a rede ferroviária nacional.

Alguém duvida que a prioridade tem de ser aposta na oferta bem antes da subsidiação da procura? A rede ferroviária não tem um problema de procura, mas tem um problema de serviço. Tem uma infraestrutura altamente insuficiente, com falhas tão incríveis como a sua magríssima cobertura das áreas metropolitanas ou deixar Viseu, Portalegre, Vila Real e Bragança de fora. Tem uma operação digna de terceiro mundo, com uma CP em degradação administrativa permanente e sem capacidade sequer para entender o que é uma operação europeia em 2024 – quanto mais de a implementar!

Depois do PS ter aberto a porta aceitando a descerebrada proposta do Livre de priorizar a subsidiação da procura, o PSD faz um all-in inacreditável, reforçando a aposta no pior que as políticas de esquerda têm, como se não bastasse o rasto de destruição dos serviços públicos que receberam, por décadas de gratuitidades e custos baixos artificiais para aceder a serviços cada vez mais miseráveis. A alternativa ao imobilismo e à autêntica “sopa dos pobres” que a esquerda foi generalizando é, afinal, carregar ainda mais nessa fórmula. Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz não têm desculpa, até porque o anunciam bem antes de se conhecer seja que pensamento estratégico seja para o sector – e já houve tempo para isso.

A disponibilização de um produto que será muito atractivo – abrangendo toda a rede, quase todos os serviços e por um preço inferior a um bilhete de 2ª classe num IC Lisboa – Porto – poderá ter um impacto ainda maior do que já teve o PART em 2019 nas áreas urbanas: recordemos que já na altura se falava que a pressão que a procura faria seria importante para conseguir ganhos para os transportes públicos na hora de concorrer por verbas, mas daí para cá houve zero reforço de serviço – e até há comboios parados disponíveis e funcionais – e o PRR que se seguiu à pandemia previu zero novas linhas ou zero novos comboios.

Agora vem mais do mesmo. Numa rede tão debilitada, com uma empresa que nem consegue operar a magra oferta actual, pensar que a pressão que se induzirá na procura trará ao sector a prioridade que realmente interessa – a efectiva alocação de meios em massa e a reorganização institucional que o sector precisa para ser ágil e competitivo – é uma de duas coisas: ou uma ingenuidade que não tem espaço na discussão pública, ou um sectarismo político que sempre defende tudo e o seu contrário, ao sabor dos impulsos dos seus líderes.

As dificuldades imensas sentidas nos suburbanos de Lisboa, nos atrasos cataclíticos que se repetem nos ICs do Sul, nas supressões sem fim no Algarve ou no Vouga, a falta de capacidade da linha do Minho (renovada ainda só há 3 anos!), e por aí fora fazem antever o que aí vem – se a rede alemã colapsou com uma medida similar, com um ponto de partida com que nem podemos sonhar em Portugal, o que acontecerá por cá? Quanto custará esta medida? De onde virá esse dinheiro? Como se mobilizará, além dessa verba, os montantes necessários para realmente investir para termos uma rede ferroviária de nível europeu?

Tirando o partido do Doutor Tavares, sempre muito solícito a ter más ideias e a apresentá-las como se fossem a salvação da Humanidade, vemos hoje o PSD a rejubilar com o anúncio, quando até há poucos meses atrás dizia o óbvio – que era fundamental pensar primeiro em aumentar oferta, compor a CP, e por aí fora. E temos o PS, que implementou a primeira versão do passe e que nem ressarciu a empresa por esse facto, de repente a lembrar-se do que não queria ver até há poucos meses – que é fundamental por os recursos (que são finitos) primeiro na expansão da rede e das operações, e não a por pressão na CP sem pagar. Que grande lata!

Este país não tem salvação. Ferroviariamente, este governo já entregou a alma ao Criador. Até quando teremos de aturar os fantoches rosas e laranjas? Teremos sempre o resto da Europa.