O Bailinho da Infraestruturas de Portugal

O Bailinho da Infraestruturas de Portugal

20 Outubro, 2024 0 Por Joao Cunha

Por requerimento da Iniciativa Liberal, o presidente da IP Miguel Cruz esteve no parlamento na semana passada para uma curta audição fundamentalmente focada no programa de investimentos Ferrovia 2020. As perguntas colocadas em cima da mesa eram as óbvias e necessárias após 8 anos de muita propaganda, desculpas e desplantes – como bem lembrou Carlos Guimarães Pinto, ainda no ano passado o antigo assessor do ministro Pedro Marques e actual VP da IP dizia que o programa “não estava muito atrasado”.

Audição de Miguel Cruz (1ª parte)

Audição de Miguel Cruz (2ª parte)

Creio que qualquer pessoa deve ver a audição, até porque foi bastante curta. Foi esclarecedora do tipo de gestão que a IP tem tido – continuará a ter? O imenso rol de desculpas conjunturais – muitas excêntricas – é uma peneira que não tapa o Sol, mas que tem sido suficiente para o poder político ignorar o que ali se passa – a esse propósito parece-me que o Parlamento tem por dever escrutinar regularmente esta empresa, especialmente porque os grandes programas de investimento são para continuar.

Do roubo de cabos (por acaso a linha da Beira Alta está pronta e só à espera de cabos?) aos achados arqueológicos (tinha de haver uma novidade!), passando por empreiteiros sem pessoal (mas o problema não é suborçamentação, palavra da IP) e até à visita do Papa (juro), tudo são problemas não estruturais mas que infelizmente empurram sistematicamente até as obras mais simples para um caos de gestão e execução que sinceramente só vejo por cá – e não é que conheça a realidade de poucos países.

Ficou especialmente patente, sobretudo na manifesta irritação do VP da IP, que de facto esta administração tem feito gestão política dos empreendimentos, provavelmente servindo ao mesmo tempo objectivos de propaganda e objectivos de gestão orçamental do Estado, sabendo nós que nos últimos 8 anos os desvios orçamentais foram constantes em rubricas como despesas com pessoal, compensadas muito convenientemente com execução de investimento sempre bem abaixo do orçamentado, onde o programa Ferrovia 2020 foi sempre particularmente relevante – só em 2023, de mais de 700 milhões orçamentados, a IP executou pouco mais de 250.

Sobre a audição vale também ler este artigo da Susana Peralta, no Público, com o esclarecimento que habitualmente empresta ao que escreve: Viagens na minha terra | Opinião | PÚBLICO

Não termino este artigo sem sublinhar mais um óbvio caso de gestão ruinosa – e dolosa? – por parte da Infraestruturas de Portugal, ao propor como projecto de renovação da Linha do Alentejo um plano de obras que obrigará ao encerramento da linha durante dois anos (descontando atrasos, claro), apesar da linha não ter rigorosamente nada de complicado, estando estabelecida num canal originalmente feito para via dupla e que é uma obra bem mais simples do que foi a da linha do Sul quando, em 2004, foi integralmente refeita entre Torre Vã e Pinheiro e que não precisou de mais do que uns quantos fins de semana de interdição. IP quer encerrar linha do Alentejo para obras durante 21 meses | Em destaque | PÚBLICO

O Governo parece não estar inclinado a aceitar este óbvio absurdo, mas sobre isso teremos mais certezas quando no final do ano virmos se este baile tem fim com o término do mandato da actual administração – o fantasma da continuidade pairará sempre até confirmação do contrário.