Uma realização ímpar – o regresso da Nohab 0111
Permitam-me um interlúdio neste espaço para falar de algo totalmente diferente – o restauro da primeira automotora diesel portuguesa, a Nohab 0111 da CP. Fez parte da série 0101 a 0115 e apesar do número 11, constou do lote das primeiras 5 unidades entregues pela Nohab, da Suécia, aos Caminhos de Ferro do Estado, que então detinham as concessões a Sul do Tejo. As magníficas Nohab, que retratei num livro cujos últimos exemplares ainda estão para venda, serviram exemplarmente de 1948 a 2006 e os exemplares depois exportados para a Argentina ainda hoje por lá circulam.
Há momentos na vida em que individualmente e no grupo a que nos juntámos o orgulho é para ser manifestado e este é um desses casos raros. A história do grupo de voluntários, de que faço parte, já remonta ao final de 2004, quando as Nohab estavam a ser retiradas de serviço pela CP. Então, a destinada a preservação era a unidade 0101 e não a 0111, que estava vendida para a Argentina. Mas a 0111 tinha algo que a 0101 não tinha – um interior praticamente em estado original, tendo sido uma das três automotoras (0109, 0110 e 0111) que havia sido renovada apenas ligeiramente, em contraste com todas as restantes unidades cujos interiores a fazer lembrar uma carruagem Sorefame nada conservavam do espírito sueco original. Pois um grupo de adolescentes informou-se, documentou e solicitou à CP uma alteração contratual no negócio com a Argentina para poder ficar por Portugal a 0111 e não a 0101, que essa sim rumou às pampas. Foi uma primeira vitória!
Preservar a 0111 foi assim um objectivo de longa data. Em 2012, por fim, rumou ao Entroncamento e saiu do cemitério do Barreiro-A onde apodrecia sujeita aos elementos. E em 2017, após breves conversações com o Museu e uma visita técnica, os voluntários da APAC conseguiram, via programa de voluntariado do Museu Nacional Ferroviário, a autorização para iniciarem trabalhos de recuperação desta fundamental automotora.
Durante quatro anos muitos sábados e muitos euros de cada um foram para trabalho físico e deslocações de e para o Entroncamento. Ao fim de seis meses a degradação havia terminado, com os trabalhos mais profundos de chapa e sua protecção terminados, avançando posteriormente para os trabalhos de efectiva regeneração. Todo o interior desmontado, cuidadosamente inventariado e embalado permitiu a sua remontagem anos mais tarde, em perfeitas condições, e pouco a pouco a caixa da automotora viu desaparecer buracos e outros podres que existiam um pouco por todo o lado, inclusivamente nos seus elementos metálicos estruturais.

Em paralelo, um outro conjunto de voluntários (em que algumas pessoas, como eu, também participavam) punha mãos à obra no financiamento – as 14 revistas Trainspotter impressas foram a principal fonte de financiamento da APAC para estes trabalhos, a que se juntaram dois livros da minha autoria – o já citado livro sobre as Nohab e um outro livro sobre as locomotivas 2600 – cujos lucros reverteram na íntegra para as acções de preservação da APAC, centradas na automotora. Só nestes projectos editoriais estiveram dezenas de milhar de horas de esforço, tão relevantes como o trabalho físico.
A pandemia de Covid-19 atingiu-nos numa fase fundamental em que tínhamos apanhado o jeito a algumas operações de metalomecânica, particularmente o jeito às adaptações necessárias a um local de trabalho bastante difícil e sem as comodidades de uma oficina – o sítio possível, e que provou que a vontade é bastante mais importante que as condicionantes deste género. Mas aí, os voluntários da CP deram-nos a mão e em 2021 acolheram a “nossa” Joaninha nas oficinas do Entroncamento, para continuar os trabalhos em espaço muito mais adaptado e com outro tipo de ferramentas à disposição. A APAC, o nosso grupo, manteve o financiamento primordial para todas as muitas peças necessárias. A generosa oferta dos vidros pela NASACAR e das tintas pela CIN foram ajudas fundamentais, permitindo focar recursos em peças também complicadas de obter como as borrachas (obrigado ao Fernando Pedreira por ter ajudado a encontrar a empresa que ainda tinha as fieiras originais!), as cortinas ou os casquilhos que permitiram repor a iluminação original, substituindo as luminárias dos anos 90, e que fazem toda a diferença na apresentação final da 0111. O Museu Nacional Ferroviário financiou ainda os novos rodados da automotora, e a CP entre voluntariado e turmas de formação foi tratando também de componentes essenciais para a automotora voltar a circular – bogies, motores, transmissão e freios – que era o objectivo secundário desta proposta de restauro.

Ao ver a automotora entregue de novo ao Museu Nacional Ferroviário, reluzente, vaidosa e com os dois motores Scania a rugirem de novo, não evito partilhar convosco o tremendo orgulho pessoal que sinto ao ter feito parte de um grupo verdadeiramente especial de pessoas que não se atemorizou com as dificuldades e que fez algo tão raro neste país – agir associativamente para resolver problemas e ter uma acção concreta em prol do bem comum.
O associativismo vale a pena. Se formos mais, outros projectos certamente serão realizados. Não era bom termos uma cultura nacional de apoio e trabalho na restauração de veículos ferroviários?
Obrigado a todo o grupo de preservação ferroviária da APAC, à redacção da Trainspotter, a todos os voluntários da CP, ao Museu Nacional Ferroviário, à APAC e à CP. Fizemos algo único!
Fantástico! Simplesmente um trabalho…. e muito trabalho deve ter dado… Espetacular! Uma lufada de ar fresco nas notícias da nossa ferrovia! Mas… e agora? Onde colocá-la a circular? Uma sugestão: reabrir a Linha Beja-Funcheira para já para turismo e colocá-la lá! E o que se segue nas recuperações?